cultura da bicicleta: o tripé

no brasil engatinha uma cultura da bicicleta. assim, todas as 3 pernas do tripé da cultura da bicicleta, o transporte, o esporte e o lazer disputam recursos, e às vezes descobre-se um santo para cobrir outro.

detalhe dos olhais para colocar bagageiro e/ou para-lamas numa trek domane 2013 co quadro em fibra de carbono. se você não sabe por que essa cara bicicleta de competição vem com esses detalhes, precisa pedalar mais.

detalhe dos olhais para colocar bagageiro e/ou para-lamas numa trek domane 2013 co quadro em fibra de carbono. se você não sabe por que essa cara bicicleta de competição vem com esses detalhes, precisa pedalar mais.

a cultura da bicicleta está ancorada num tripé: transporte, esporte e lazer. 1) é  o pedalar para ir ao trabalho ou às compras, ou à festa, 2) é o pedalar para competir e o treinar para essa competição, 3) e o pedalar por diversão, seja num passeio dominical ou numa noite de semana num grupo, seja num brevet de 600 km ou uma volta ao mundo em bicicleta.

londres, nos conta renata falzoni, quando preparava a olimpíada de 2012 construiu, além das pistas de BMX utilizadas em competição, mas algumas mais simples, para a garotada brincar.  sim, para que a infância se desse em parte em cima da bicicleta, e esses jovens foram acompanhados. hoje alguns já estão adultos. e, no mínimo, usam as bicicletas como transporte.

mas, no brasil, temos um preconceito com o esporte em razão da herança escravagista. é o mesmo preconceito que age em geral  contra a bicicleta, e mesmo entre ciclistas.

o escravo sua, o senhor, carregado em sua liteira. não.  o preconceito do brasileiro é com o esforço físico, seja no trabalho braçal, seja até o prazer imenso de fazer um sprint de 1 ou dois km numa bike de roda fixa.

o brasileiro não pode sentir prazer no esforço físico! não pode ter endorfinas!  não pode sentir as pernas arderem!

e claro, isso se aplica à dona zefa, viúva, que carrega seu botijão de gás amarrado no bagageiro de uma bicicleta barra-circular de 30 anos de uso, como também se aplica ao ricardinho que tem 17 anos e conseguiu recentemente sair de casa sem os pais encherem muito o saco, e montou uma fixa num quadro de caloi 10, dos de aço antigos. mas também se aplica ao doutor josé carlos, que ao contrário dos amigos, prefere ir pedalar nos morros de minas gerais nas férias, em vez de pegar um pacote de turismo pra europa.

todo ciclista, se realmente pedala mais de uma vez por semana, entende outro ciclista.  só quem nunca foi uma criança ou adolescente em cima duma bicicleta não entende que criança e adolescente quer andar com uma roda a menos: se é bicicleta de duas rodas, tem que empinar. se é um triciclo praiano, tem que levantar a roda dum lado. e se for um monociclo, tem que ficar dando pulos….

o uso da bicicleta, não importa em que modalidade for, tem um elemento de prazer, de hedonismo, inegável. quem usa a bicicleta para transporte, quantas vezes, não conta do sprint pra escapar do motorista de ônibus que vinha babando atrás? quem numa bicicleta, nega que numa longa descida entendemos por que motivo o cachorro mete a cabeça pra fora do carro?

a bicicleta nivela a todos, o que separa são as estruturas econômico-sociais.  é nessa hora que as divisões ocorrem, principalmente na disputa de recursos. um lado não entende que o crescimento de outra perna do tripé também é necessário.

quem pedala nas estradas por lazer ou esporte, às vezes não entende que o maior respeito ao ciclista nas estradas vem justamente da luta de quem usa a bicicleta como transporte pela defesa da incolumidade do ciclista na via.  quem luta pra conseguir uma ciclovia no seu bairro não percebe que uma pista de BMX ou um velódromo trará outras pessoas para a bicicleta que vão, com o tempo, se somar a essa luta.  quem luta pela autorização pra construir uma pista pro BMX vertical no seu bairro não entende que o gestor público está insensível pois não usa a bicicleta com o transporte e, portanto, não entende, nem de longe, o que seja usara bicicleta também como esporte.

a cultura da bicicleta tem que crescer em equilíbrio, senão o tripé cai. pois a base, é a cultura do corpo e a técnica da bicicleta. isso nivela a todos.

discussões aparentemente bestas, como se tomar coca-cola melhora ou piora o pedal, ou que rolamento usar num cubo, são muito mais importantes do que parecem, muito mais.

elas são os elementos básicos daquilo que se constrói como cultura da bicicleta.

a cultura da bicicleta implica num olhar completamente diferente sobre o mundo, e as pessoas só entenderão isso pedalando. pois só ciclista compra calça jeans olhando a costura dos 4 panos  que se juntam ali embaixo… costura mal feita gera uma bola que machuca o períneo. ciclista não liga muito pra marca da calça, desde que consiga (ou não) pedalar com a tal calça. pois embora todo mundo tenha a bermudinha de ciclista, ela não é usada para qualquer pedal: só par aos mais longos. você não coloca sua “fantasia completa” de ciclista pra ir ao supermercado, coloca? ou para visitar um cliente?

ninguém se despe dos preconceitos quando monta numa bicicleta.  os preconceitos, de classe, de raça, de gênero, de escolaridade e etc, serão progressivamente desmontados na medida em que aumenta o tempo de pedal.

é o temo de pedal que nos faz olhar outro ciclista e entender seus atos, mesmo os errados e condenáveis.  como diz a falzoni, só quem pedala no trânsito sabe por qual motivo ciclista passa no farol vermelho.  só quem tem como único caminho avenidas perigosas entende por que razão a moça preferiu subir com a bicicleta pela calçada.

só quem pedala longas distâncias entende por que há bicicletas de estrada de fibra de carbono, caras,  equipadas com faróis e um selim brooks, e o dono trocou o câmbio dura-ace por um câmbio xt e colocou um cassete 11-36…

mas quem tem uma vaga ideia do que passa o amigo que pedala 300 km num dia, pode não entender, mas respeita. assim como quem pedala num acostamento ruim entende por que o rapaz que vai e volta para o trabalho em sua bicicleta reclama do buraco na ciclovia, ou quem já pedalou as américas de cima a baixo entende por que a moça acha ruim o paraciclo de gancho, que é difícil levantar uma bicicleta pesada pra pendurar…. e todo ciclista odeia paraciclo tipo “entorta-rodas”. adivinhe o porquê….

as situações comuns permitem o diálogo entre os diversos ciclistas, e isso permite a soma de experiências. que vão do uso das roupas ao uso das vias, da alimentação à estética dos capacetes, ou do seu uso ou não. esse diálogo é enriquecedor, pois permite a criação de redes que servirão para a mobilização de  recursos humanos necessários nas lutas pontuais.

por isso, conflitos internos muitas vezes degeneram em gasto de energia no mínimo desnecessário, pois às vezes patinam no vazio. por exemplo, verbas para esporte e transporte são separadas. ou seja, o dinheiro para construir um velódromo não é retirado do custo da ciclovia. são recursos separados. o dinheiro para a construção do velódromo ou da pista de BMX é disputado com as verbas que vão para o onipresente futebol. e o dinheiro do velódromo ou da pista de BMX  sequer concorre co o dinheiro dos campos de várzea: compete mesmo é com as verbas dos grandes e superfaturados estádios.

assim como o dinheiro pras ciclovias não compete com as verbas para a federação de ciclismo. o dinheiro das estruturas cicloviárias compete com as verbas para viadutos excludentes, por onde não passam sequer ônibus ou pedestres, e não possuem ciclovias.

mas, por outro lado, se a hoje usada bicicleta no transporte não parece uma bicicleta esportiva, grande parte de sua tecnologia foi nos esportes desenvolvida.  se sua bicicleta hoje tem marchas que permitem você subir um morro carregando sua filha no bagageiro, ou sprintar na avenida pois seu cliente está com o computador parado, é por que essa tecnologia foi desenvolvida numa estrada ou mesmo no barro. seu quadro usa o mesmo alumínio que era hype entre competidores no final dos anos 80 e começo dos anos 90.

na cultura da bicicleta, toda concorrência entre ramos degenera em perda de recursos, pois é a soma dos pleitos que dá a força. por exemplo, são os fixeiros de rua, com seus quadros de aço antigos fixados que apoiam os ciclistas de pista em seus pleitos. e não falo de brasil, mas de países onde a cultura da bicicleta está mais desenvolvida. e olha que não é o ciclista de pista que vai pedalar de levi’s commuter, e o fixeiro de rua não vai usar o capacete aero. mas são culturas que dialogam.

os freios a disco foram uma tecnologia amplamente desenvolvida pela turma do downhill, que nunca teve problema com o peso da bicicleta, e hoje equipam até bicicletas de estrada que europeus preferem usar no inverno, pelo disco não sofrer interferência da neve. se hoje temos freios a disco até em bicicletas para circular nas ruas, como a badboy da cannodale, é por quê essa tecnologia antes desenvolveu-se onde havia espaço para a experimentação.

numa outra ponta, é do ciclismo de estrada que vem a tecnologia dos câmbios eletrônicos, ainda não disseminada, mas também da disseminada tecnologia da fibra de carbono e do uso intenso do alumínio nos quadros, até de downhill, passando pelas bicicletas de uso cotidiano.

as tecnologias dialogam, os ciclistas também precisam dialogar. pois toda concorrência entre ramos é falsa, e estamos todos nivelados, seja pelo prazer em pedalar, seja pela sinistra morte por atropelamento (tanto pelo carro que invade a ciclovia, quanto pelo o ônibus que massacra o pelotão).

o fato é que há muito o que fazer ainda pela cultura da bicicleta no brasil. e por isso ainda há quem estranhe um quadro de estrada com guidão reto, ou uma mtb antiga com clip de triathlon, ou uma estradeira com paralamas, ou alguém com camisa de ciclismo e calça jeans.

mas isso é transitório. mais algumas décadas e isso mudará. aguardemos, pedalemos pois.

 

 

 

3 Respostas para “cultura da bicicleta: o tripé

  1. Sempre compartilho seus artigos no Facebook, poderia ter uma maneira de faze-lo mais fácil?
    Sempre ótimos!!!

  2. Falta muito ainda para que as pessoas entendam as áreas de interseção entre cada um desses tripés. Existe algo que me irrita muito aqui no Rio que é o fato de quem pedala de estradeira (e o faz nas avenidas da cidade) são os mesmos quem tem carros gigantescos e os usam para ir até o começo do treino a cerca de 4 km. Entendo que o medo de pedalar sozinho impeça elas de não usar o carro, mas isso mostra o abismo entre o transporte e o esporte. Eu adoro ciclismo de estrada e adoro o uso cotidiano da bike, mas, ao menos no Rio, parece que uma coisa é quase descolada da outra. As pessoas acordam de madrugada para pedalar 50 km, mas não têm coragem de andar 5 km até o trabalho. Aliás, isso é um dos motivos que me fazem desanimar a pedalar como esporte, entre outros, como a ostentação do equipamento.

    De toda maneira, é como você disse: estamos engatinhando.

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