14 de maio e a bicicleta

em 13 de maio de 1888 aboliu-se formalmente a escravatura no brasil. e de 14 de maio em diante, passamos a viver num país igualitário? não. mas talvez a bicicleta aponte alguns dos caminhos da construção de uma igualdade material entre os humanos que habitam o brasil.

um menino livre, sorrido para a liberdade

um menino livre, sorrido para a liberdade

no brasil, 51% da população é de negros. mas esse contingente humano responde por apenas 20% dos que chegam à pós graduação. quantas vezes você foi atendido por um médico negro, e que não fosse um médico cubano? e quantas vezes no bairro mais pobre da grande cidade onde você mora, você viu a maior quantidade de negros na rua, diferente do bairro chique da cidade?

o racismo estrutural brasileiro está às vistas.  mas está tão na cara de todo mundo, que muita gente nem vê. ou acredita que as coisas sejam assim mesmo.

e claro, sendo a branquitude hegemônica, são seus valores que são o tempo todo transmitidos e retransmitidos à sociedade inteira. e são os valores de uma certa branquitude.

duvida? preste atenção na estética dos cabelos. há brancos europeus de cabelos crespos. mas tanto eles quanto a grande massa dos afrodescendente s e seus cabelos cacheados são bombardeados por uma estética que privilegia os cabelos lisos e finos de uma certa europeidade.

e calor, a máquina perversa de uma economia de mercado que não se pauta por uma gama de valores externos à ela, trabalha dentro duma lógica de rebaixamento da auto-estima de quem não adquire esse ou aquele produto. o que inclui padrões de apresentação perante os demais: cabelos, roupas , e mesmo o carro.

eu me divirto com coleguinhas que vão à europa pela primeira vez e descobrem que europeus suam. “nossa, francês fede mais que negão!” disse um coleguinha do mundo jurídico, sem nem se aperceber da carga racista da sua observação.

não são valores da europa atual que são reproduzidos, mas os valores de uma elite escravocrata que outrora tinha raízes europeias. a pessoa vai para a europa e em amsterdam ela pedala, mas em são paulo ela não põe os pés no chão. pessoas que não querem se misturar à gentalha. pessoas que não vão ao shopping eldorado pois há um ponto de ônibus em frente à ele. duvida? leia aqui.

as estratificaões  social e racial brasileiras se misturam, se colam. preto, preto, pobre, cuidado, socorro!” ironizam os racionais numa música. são quase sempre os que não têm acesso às benesses de um país desigual. e as coisas são aceitas por serem assim mesmo.  as pessoas aceitam sim, que a faxineira deva chegar rápido ao trabalho durante a semana, mas que nos finais de semana não haja ônibus para seu bairro.

em gestões passadas da prefeitura, na zona norte de são paulo duas linhas de ônibus, que serviam o bairro de classe média onde moro e o bairro, ligeiramente mais pobre ao lado ao meu, se fundiam numa só. durante a semana, chegava-se rapidamente, do meu bairro ou do bairro contíguo a0 metrô. durante o final de semana, mais precisamente do sábado das 14 h em diante, as duas linhas eram substituída por um alinha de um trajeto muito mais sinuoso, percorrendo os dois bairros mais um terceiro. o caminho que durante a semana levava 20 minutos, aos domingos, sem trânsito, levava quase uma hora para ser percorrido. 

as desigualdades em moradia trazem imediatamente a desigualdade nos transportes. e as desigualdades em todos os serviços sociais geram a sede do acesso a eles, da forma particular, privatizada. quem pode, coloca seus filhos em escolas particulares, para que não fiquem relegados ao cercadinho da ignorância.

em meu tempos de professor na faculdade zumbi dos palmares, onde cerca de 90% dos alunos eram auto-declarados negros, um aluno uma vez me surpreendeu com uma frase: “esse negócio de ler livro não é coisa de branco?”. ele apenas manifestou como lhe impuseram uma barreira mental ao crescimento. em “o morro dos ventos uivantes“, heathcliff mantém o jovem hareton earnshaw analfabeto. é uma forma de dominá-lo. 

o fato é que menos de 10% dos brasileiros acima de 15 anos são analfabetos, mas entre negros esse índice sobe para 13%. e claro. os níveis de educação se mantém crescentemente desiguais até a pós-graduação, onde chegamos aos míseros 20% de pós-graduados negros.  qual o impacto disso?

se sempre relegamos um grupo a uma posição subalterna, é natural que ele procure ascender. e assim, ao ascender, o mercado se utiliza desse esforço para lhe vender mais coisas e o mantém, hoje, pelos financiamentos, amarrado a uma dívida que o escraviza.

o que ascende precisa afirmar que ascende. nesse sentido, confira-se essa entrevista com alguns pesquisadores americanos acerca de padrões de consumo.  note, nos e.u.a., a concentração de patrimônio de negros em… carros!

ora, o que é isso senão o resultado de uma campanha publicitária massiva nas últimas décadas enganando as pessoas ao dizer que ter essa lata com 4 rodas imediatamente sua vida seria melhor?

além dessa campanha massiva, a estrutura viária confirmando, fazendo o cidadão chegar mais rápido em carro do que em um ônibus ou uma bicicleta?

a se notar a estrutura das pontes que atravessam as marginais em são paulo: só agora, algumas, sendo adaptadas para travessias seguras de não motorizados. até um ano atrás, todas elas eram muros intransponíveis para não-motorizados, e e travessias lindas para motorizados.

a se notar a ponte estaiada: sem calçadas, sem ciclovias.  a ponte estaiada, na zona sul, indica que o caminho é apenas para motorizados: tenha um carro ou uma moto, ou dê a volta!

isso revela um apartheid social. como sair do gueto? a mensagem é clara: enriqueça. fique rico ou morra tentando, como manda o título do álbum de 50 cent. 

a se notar que nas américas o discurso de parte dos rappers é o discurso de afirmação permeado pela exposição de carrões. ora as américas caracterizam-se pela ausência (e.u.a.) ou mal-funcionamento, quando há, do sistema de saúde.  exceções são o canadá e e cuba. ora, o carro aparece como marca social da ascensão social. do aparentar, inclusive pra si mesmo, que se está no estamento social que tem acesso a tudo ou quase tudo.

e isso não se aplica apenas aos auto-declarados negros, afro-descendentes, mas à cultura latina como um todo. a se notar essa música do grupo cypress hill, falando da cultura latina low-rider a partir de imagens que sempre envolvem carros.

ora, e onde está o logro?

o logro está no custo da compra daquilo que lhe vendem dizendo que é o necessário para se bem viver. pois a compra é feita por crédito. quem com pra o carro à vista? nessa hora é que acontece a escravidão. conforme ladislaw dowbor demonstra, o cŕedito representa 60% do PIB. e assim a economia é drenada pelo crédito.  se quer entender como, leia aqui.

mas vai explicar pro caboclo que acabou de entrar na armadilha e coprou um carro novo com “taxa zero”, que ele caiu numa armadilha? ele acabou de descobrir que além do custo da mensalidade do carro, tem o IPVA, os combustíveis, a manutenção do carro, o seguro, os estacionamentos…. e ainda por cima a violência: não há sequestro-relâmpago de ciclistas…. mas de motoristas, por exemplo…

o proprietário de carro se sente injustiçado pelo mundo.  lutou par ater a maquininha poluidora, e não consegue andar nas vias congestionadas por outras pessoas iguais a ele. e o inferno são sempre os outros.

onde está então a boa vida? endividado e comprometido co o carro por pelo menos 36 meses, sobra algum dinheiro para outros consumos? sobra tempo para ir a um cinema? pode ele se dar ao luxo de fazer uma viagem de vez em quando? que não seja aquela viagem pasteurizada dum pacote de agências de viagens?

é essa escravidão, com correntes agora não mais de ferro bruto, mas de ouro e marcas caras, que transforma o cidadão em escravo de ganho.

a moça viu-se recém separa com uma criança. mudou-se do apartamento de 100 m² para um apartamento antigo em cima duma loja/boteco/padaria, que era onde podia pagar: o pai da criança pagava a escola, e só. ao menos er aperto da escola, e ela se virava nesse campo da mídia, dos jornais, revistas e etc, onde em terra de freela quem tem CTPS é rei.  o carro não conseguiu pagar, e foi-se. sobrou uma velha bicicleta caloi, do ex-marido. foi seu meio de transporte e de libertação: seus sucessivos problemas mecânicos  (claro, era uma caloi!) a levaram a oficinas comunitárias a conhecer gente, a conhecer uma cidade diferente. comprou uma antiga bicicleta de cromo.  certa vez comentou com uma amiga de outros tempos que tinha gasto quase 500 reais num selim brooks, e estava feliz. ouviu: “nossa, coo você gasta em bicicleta!”  –  e lembrou que antas gastava isso em cabeleireiro todo mês, e hoje não se sentia um espantalho se despenteada. a liberdade é leve.

bem viver, ao contrario do que se ensina a todo brasileiro,não é ter coisas. vem viver é bem viver. é ter liberdade de ir e vir, sem ter que passar pelo posto de gasolina. sem o medo de sofrer um sequestro relâmpago.

mas o escravo moderno, o servo moderno, não sabe disso. ele é o escravo de ganho não apenas do patrão, mas de todos aqueles que lhe vendem coisas e serviços que, no fundo, lhe são desnecessários.

pois quanto custa a alegria de descer a rua augusta num domingo de manã? ou saber onde tem aquela cachoeira na estrada de manutenção. ou onde tem um mirante na br-280, pra cima de corupá? ou a vista de cima da serra do rio do rastro?

quanto custa sair à noite de casa em tranquilidade, pedalar 6 ou 7 km até oponto de encontro com outras pessoas, e papear, ou simplesmente sair para um rolê de bike pela noite?  quanto custa pedalar todo dia para o trabalho e fazer quase 2 horas de exercício todo dia, não apenas não pagando,mas economizando em relação a outros modais? e ainda tendo boa saúde?  quanto custa não ficar doente?

são hoje as diversas formas de escravidão e servidão que estão por aí. uma delas é o culto ao carro e a dependência dele.

a grande máquina da escravidão, dos séculos XVI a XIX não deixou de existir. ela apenas transmutou-se. de toda forma o moderno servo/escravo é apena suma unidade de produção onde todas as suas atividades e relações são mediadas pelo dinheiro, até assistir um pôr do sol.

a bicicleta revoluciona pois ela permite uma real leitura de mundo. e a real leitura de mundo nos permite visualizar as verdades, e só a verdade é revolucionária.

por isso a bicicleta sofre tantos ataques. do taxista que atropela o ciclista ao projetista que projeta a ponte sem espaço para não  motorizados, passando pelo promotor que quer impedir ciclovias, e chegando ao governador que não mexe uma palha pra desimpedir o trânsito de bicicletas de são paulo a santos.

ninguém quer um cidadão que não sofre de ansiedade, que consegue dormir bem, e que prefere o gosto de uma banana ao gosto do strogonoff. ele não serve como escravo de ganho.

o escravo de ganho move a economia, mesmo quando, como bandido, parece agir contra as regras. ah, oque seria dos fabricantes de portas e janelas, de fechaduras, das empresas de segurança, dos serralheiros que fazem grades, dos fabricantes de viaturas, de armas, de munição, se subitamente desaparecessem os crimes? a economia quebraria….

é. do 14 de maio de 1888 a farsa se escancarou. escravos somos todos, enquanto nossas mentes se perdem em sonhos insanos de consumo. e não há libertação individual sem se tornar um reprodutor do sistema, um opressor do irmão, vizinho, igual a si mesmo.

pois até a revolta se mercantiliza.

pois até a revolta se mercantiliza.

é. muita há que se mudar. mas nada muda no futuro se não começarmos hoje, e a recusa à entrar na maquina sórdida de exploração representada pelo carro é uma de ao menos não participar da máquina de exploração e morte. 4600 mortos ao ano por males causados diretamente ou agravados pela poluição dos veículos em são paulo!  se isso não é capaz de lhe fazer pensar, nada mais o fará.

ah, paremos por aqui. o brasil continua de um racismo ora sutil, ora escancarado. e a melhor discriminação é aquela que conta com a contribuição do discriminado. e são muitos que contribuem voluntariamente e reproduzem ao extremo os valores opressivos e escravizadores.

continue gastando com sua aparência, com sinais exteriores de luxo, com seus carrinhos poluidores, com seu trânsito congestionado.

enquanto isso eu vou pedalar, pois o meu tempo é precioso demais para eu ficar parado num congestionamento; e sabe por que meu tempo é tão precioso? por que é a minha vida, oras!

e vida é algo precioso demais pra ser quantificado em dinheiro. fique aí parado com seu carinho novo ou seu carrão velho tunado, rebaixado, fica aí parado, que eu quero é sossego pra ouvir meu funk!

 

 

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