o horizonte utópico dos ciclistas

” o que vocês querem afinal? vocês querem destruir o mundo? o que vocês tem contra nós? ” foram as perguntas que ouvi hoje e que quero responder.

guri

 

é difícil descrever cores a um cego nato.é difícil descrever sons a um surdo nato. mas não é impossível fazê-lo.

o que peço é que se imagine uma cidade por onde se possa sair caminhando. simplesmente sair caminhando e ir a qualquer lugar.

não digo sair com a segurança de não ser assaltado, mas simplesmente sair. imagine-se sair andando com roupas simples, sem relógio ou jóias, ou celular, ou bolsa e simplesmente caminhar.

e ir a uma praça, sentar e olhar a grama crescer.

imagine-se numa cidade onde uma criança de 10 anos, para ir à escola, simplesmente coloca sua mochila nas costas, sobe em sua bicicleta e vai pedalando para a escola. e que a grande preocupação dessa criança seja apenas não cair da bicicleta.

imagine que haja uma cidade que se possa percorrê-la toda. a pé, numa bicicleta, num patinete. ou num skate, como preferem alguns.

imagine uma cidade com mais áreas verdes. não apenas parques. mas praças. com gramados, árvores. com locais a cada quarteirão pra pessoas sentarem. mesmo que sejam os desocupados, que hoje se aglomeram num lugar só, espalhados, não cometeriam seus pequenos furtos. pois só há cracolândias em espaços de alguma forma segregados.

imagine uma cidade onde todo mundo tem alguma atividade física, então ninguém mais sofre dos problemas de sedentarismo.  onde as pessoas sejam menos estressadas.

pessoas sempre têm problemas, mas imagine que elas os tratem de outra forma.

imagine uma cidade onde haja tempo pra tomar um café com um amigo ou amiga. onde as pessoas estejam calmas a ponto de não precisar de overdoses de emoções periodicamente, de tão chapadas pelas pressões que o cotidiano impõem. uma cidade onde as pessoas não percam um quarto da suas vidas no transporte. e, portanto, sobre tempo pra olhar pra esposa ou pro marido, e perceber que o filho pilantra não fez a lição da escola. que haja tempo pra almoçar com os pimpolhos e ensiná-los a comer da forma correta, com garfo e faca e de boca fechada.

imagine simplesmente uma vida mais tranquila, mesmo na cidade grande. uma vida sem sobressaltos que sejam produzidos por humanos. pois a natureza já nos dá preocupações: comer, não ficar doente, dormir, não ter dores. não bastam essas preocupações da condição humana natural, ainda nos agastarmos com essa correria atrás de ouro de tolo, correr atrás do vento?

pois ciclistas não sabem como construir uma cidade perfeita. mas sabem muito bem que a civilização do motor construiu o seu oposto, uma cidade distópica, que é barulhenta, poluída, violenta, excludente e ainda por cima, uma gigantesca ilha de calor.

ora, a civilização do motor é a civilização do ser pelo ter. com dinheiro, se compra o motor. compra-se o carrão, a motocicleta veloz, se envenenam motores. já ouviu falar no roubo das grandes trails, em especial bmw gs? sim, roubadas nas sextas, usadas nos “rolezinhos” em bailes de periferias de grandes cidades, onde os ladrõezinhos ficam exibindo-se em empinada se etc. e abandonadas nas segundas-feiras, às vezes com marcas de tombos.

isso é o que produziu a civilização do ter. o que se tem, com raras e louváveis exceções (como o conhecimento), pode ser furtado, roubado, subtraído.

mas, e o fazer? o fazer se furta, se rouba, se subtrai? não.

ok, bicicletas podem ser roubadas, mas são baratas e as substituímos. claro, o ladrão de bicicletas tem um lugar todo especial no inferno, sua alma estará condenada por maldições para todo o sempre.  mas não se rouba o pedalar.

ninguém consegue roubar o exercício que fez a menina que vai ao trabalho subindo a rua augusta pedalando. o efeito do pedalar nas suas coxas ninguém lhe tira. assim como não há como tirar a endorfina e a ocitocina que seu corpo produziu.

pode-se nos extremos roubar bicicletas. mas há sequestro-relâmpago de ciclista? o ladrão senta no bagageiro, armado, e ordena: “pedala!”??????

na civilização do ter, roupas caras são valorizadas. mas ciclistas compram calças jeans primeiro olhando as costuras…. a marca é o último fator a ser pensado na compra….

e selim de bicicleta? cada bunda tem seu selim. esse critério é anatômico, não há marketing que compense um selim que seja-lhe desconfortável. cada bicicleta tem um tamanho, e a escolha deve seguir a adequação, não um pseudo padrão de status….  pois de que adianta a bela bicicleta com cestinha mas sem marchas diante duma pirambeira? de que adianta a cara estradeira pra quem vai fazer compras no supermercado?

as cidades onde bicicletas predominam são guiadas por outros valores que não o ter. a bolsa tem que funcionar, e se for bela, ok, se não for, não deixa de ser usável. assim são os móveis, assim são as roupas, assim são as ruas.

na bicicleta a forma segue a função, não o inverso. e se pode-se, com dinheiro, andar prum lado pro outro na cidade com um jipão, não se faz isso com bicicleta de downhill. por isso o estilinho que o ciclista manifesta revela apenas tão somente a vida que leva, não a que quer para os outros mostrar. afinal, que beleza há em usar a calça com a perna direita levantada? ou um boné com aba curtíssima?

os valores da cidade do fazer são outros e talvez incompreensíveis pra quem vive na civilização do ter. como explicar a delícia que é uma descidona longa?

às vezes, como dizia uma camiseta do haase, só os cães entendem os ciclistas, ou melhor, só os ciclistas entendem por qual motivo os cães colocam a cabeça pra fora da janela do carro.

A_dog_riding_the_bicycle

aliás, não falta cachorro que ande com seus donos em bicicletas.

a cidade dos ciclistas é a cidade do fazer, construída com os escombros da cidade do ter. sim, pois com raras exceções, não se constroem cidades do nada. cidades existem e vão se refazendo o tempo todo.

e o que as grandes cidades do mundo inteiro estão fazendo hoje é se refazer e se reposicionar na escala do humano.é o modelo anti-brasília. é recuperar as esquinas como local de encontro.

calçadas alargadas, avenidas transformadas em bulevares, estacionamentos em praças, garagens em depósitos.  é isso que vem acontecendo ao redor do mundo, não sem resistência. mas as pessoas já perceberam o logro do ter.

singerautomythreality

 

 

o que os ciclistas querem é uma cidade onde as pessoas se olhem nos olhos, e não por trás de vidros com insulfilm. que a paisagem seja vista de forma aberta, e não esquadrinhada pela janela de um carro.

o que os ciclistas querem é que a distância se meça em quilômetros, não em horas de congestionamento. e que a secura do inverno seja só de ar seco, e não de ar sólido que precisa ser cortado em pedacinhos para se respirar, e produzindo uma coriza do tipo concreto.

na prática, vamos confessar: ciclistas são subversivos anarquistas. pois eles defendem bandeiras tão perigosas quanto aquelas bandeiras anarquistas do século XIX, que iam acabar com a civilização ocidental: igualdade entre sexos, livre escolha de parceiros, educação universal, saúde para todo mundo e etc. perigosas bandeiras, não é?

pois as novas bandeiras anarquistas são a reconquista da felicidade, da igualdade, do prazer, da paixão.  isso não se tem numa cidade poluída e congestionada, sem calçadas, toda asfaltada, seca, árida.

ciclistas no final querem muito pouco: pedalar em paz, sem serem atropelados, pois o resto, já fizeram: deram bananas pra sociedade de consumo. pois mais vale a água gelada duma fonte ao final da subida de 12 km do que um caro whisky.

mas como explicar que nos guiamos por valores que não se compram, e nosso consumo no final é todo guiado pelo fator uso apenas?

é… ciclistas são apenas o sintoma de uma sociedade que está com uma nova geração tornando-se hegemônica, progressivamente, com outros valores… outra axiologia!

ouça meninas conversando sobre mooncups, homens discutindo cozinhar, rapazes que chegam aos 18 e não querem tirar carta de motorista, meninas que não dão a mínima para homens com carrões….

bicicletadas não são um problema, mas o sintoma de que a sociedade antiga hoje se desfaz e se esgarça, e novos valores afloram.

ah, deixa pra lá. não dá pra descrever. quem quiser que pegue sua bike e vá tomar banho de cachoeira em algum lugar. como explicar isso pra quem não coloca os pés na rua, sai do elevador pro carro, e do carro pro elevador do shopping? pra quem vive num aquário? quem vive no aquário não entenderá todo o significado de uma foto como a que colo abaixo…

pier da vila da glória, esperando a travessia pra são francisco do sul.

só sei duma coisa. uma nova sociedade, a passos lentos mas firmes, emerge. e se você não percebeu e está resmungando pelos cantos contra faixinhas vermelhas no asfalto, sinto dizer: já ficou para trás. corra antes que se torne uma peça de museu, um registro ambulante dos valores ultrapassados.

então, em vez de achar que os ciclistas estão acabando com seu mundo (que já está acabado, ruindo por si só), pegue uma bicicleta e vá pedalar. domingão é para isso. tem muita faixa segregada, bem segura, pra quem tá começando. vá ser feliz. e vá ver a cidade com os nossos olhos, e ver que essa cidade tem muita coisa boa pra se ver. insisto, vá ser feliz.

 

 

3 Respostas para “o horizonte utópico dos ciclistas

  1. Ai, que delícia!

  2. muito amor por tudo isso!🙂

  3. Adorei o texto! Uma delícia de se ler! Meus parabéns ao autor!

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