8 de março

qualquer coisa que um homem fale nesse dia, dando palpites pra solucionar problemas femininos, é inapropriado. melhor não dar palpites.

eu não vou falar sobre mulheres em geral. nem sobre amigas e conhecidas. cada uma tem sua história, e nenhuma delas precisa que eu fale por elas. mulheres não  precisam que alguém fale por elas, as proteja ou o escambau.  são capazes de fazer isso sozinhas.  capacidade não lhes falta.

louise shutherland em 1978, atravessando a amazônia, numa peugeot aro 27.

louise shutherland em 1978, atravessando a amazônia, numa peugeot  mixtearo 27.

prefiro falar das mulheres da minha família. uma tia minha disse uma vez que vou morrer solteiro pois não encontrarei mulher alguma que seja igual às que eu estou acostumado, as inúmeras mulheres da minha família, uma família muito grande do lado materno.  elas são muito diferentes entre si, a não ser num detalhe: todas elas são fortes. ponto. 

na família os homens estão mal-acostumados, pois as mulheres sempre lhe foram iguais.  não fui criado num lar onde houvesse espaços separados e atividades separadas pra homens e mulheres. no máximo divisão de tarefas respeitando apenas capacidades e incapacidades, que tinham muito mais relação com as idiossincrasias de cada um do que características de gênero.  por exemplo, eu não gosto de matar baratas. minha irmã matava-as melhor que eu. eu preferia pegá-las na mão e soltá-las fora de casa.  e minha irmã matava ratos melhor que eu, mas não tão bem quanto maria eduarda, a duda, nossa teckel de pelo longo.

em nossa família, também no lado paterno, não tinha essa de não gostar de viajar  à noite. se tem que viajar à noite, viaja-se. minha avó paterna dirigia caminhões junto com meu avô. tirou carteira de motorista profissional nos anos 40 do século XX.  do lado materno, não é diferente. embora minha avó materna não dirigisse, trabalhava fora desde moça: era professora. e separou-se de meu avô, por motivos justos, numa época em que isso seria pior do que tacar pedra na cruz.

na geração da minha mãe, ou tias, e mesmo irmã ou primas, não é diferente. algumas são militantes feministas, outras são apenas o que são, mas, sei lá. o padrão da família é todo mundo parecer xena. aliás, não vejo nada demais nesse seriado, xena pra mim é o padrão normal, o que eu estava costumado a ver desde criancinha.

as mulheres da minha família com certeza preferem banho de cachoeira ou de mar a banho de loja. todas gostam de bichos, de gatos a filas-brasileiros, todas elas não recusariam a ideia de morar num sítio em alguma fase da vida, e não conheço nenhuma parente que tenha medo de dormir só num a casa de sítio.

aliás, se quiser ser zoado na família é dizer que tem medo do escuro ou medo de viajar só, aliás, medo de qualquer coisa. todo mundo, de todo lado, foi capaz de viajar só ainda na adolescência. não importa o sexo, não importa gênero, não importa orientação sexual.  saber lavar suas próprias roupas, fazer sua própria comida e saber viajar, só, todo mundo tem que saber, seja homem ou mulher e não se pode chegar à vida adulta sem saber tudo isso. pega mal não saber… pelo menos na minha geração da família, é mais ou menos assim, com pequenas variações.

no final das contas, rebeldia na família acaba sendo algo muito difícil de se manifestar daquela forma clássica que a gente vê por aí. quando sua tatatatatataravó correu atrás dum cobrador de impostos que queria extorqui-la, pois fazia pão pra vender, e sobreviver, correu atrás do cobrador de impostos com um machado nas mãos e não por alguns metros, mas por mais de um quilômetro (segundo relatos de uma tia minha- e não acertou o tal pilantra por pouco, várias vezes), e mais um monte de parentes tem um zilhão de histórias de situações de superação, nada que você faça é lá muito surpreendente, a não ser que você faça alguma besteira. e não é lá muito confortável ter notoriedade em razão disso, não é?

sei lá. não sou o primeiro da família a viajar em bicicletas, a chegar ao nível de escolaridade que cheguei, a ser professor universitário, a absolutamente nada. não há nada que eu faça que alguma mulher da família não faça melhor ou não tenha feito antes. elas não são mais fortes ou mais fracas que os homens. são apenas iguais. como deveria ser. como deve ser.

e sim, todos na família estranham as diferenças que há aí fora no mundo. pois as diferenças entre homens e mulheres não deveriam existir nas estruturas existenciárias, mas apenas nas diferenças idiossincráticas. naquilo que cada um tem de diferente na sua individualidade, e só.

é. mas há um dia internacional da mulher pois, infelizmente, é necessário que haja. ainda há muita desigualdade, muita opressão, muita violência. e isso tem que ser combatido. alguma coisa já foi feito, mas há que se fazer mais, e é bom ler esse texto aqui da renata falzoni.

eu vou passar esse domingo só. mas preferia estar numa roda de café com mãe, irmã, tias, primas, ouvindo as histórias doidas da família. a louça ia sobrar pra mim, no final, mas ia arrastar a nathassia pra me ajudar (ela odeia lavar louça, pode negar, mas eu sei! hehehe). vicky ia gostar de saber que aniversario com kropotkin, e amanda, que aniversario com la passionaria. minha irmã arrancaria uma verruguinha minha com um bisturi (ela é veterinária), dris me contaria alguma história, uma tia ia ficar tentando me casar com sei lá quem, outra riria da situação, e iria ser um falatório imenso, como sempre.

mas infelizmente, muito dos homens esquecem que nascem e são amamentados por mulheres e, no meu caso, até aprendem a ler e a andar de bicicleta pela mão de mulheres.

então, o que eu queria mesmo é que não precisasse de um 8 de março. que muita coisa fosse diferente, mas sei lá como. e que as pessoas todas fossem mais fortes, mais independentes, menos inseguras, pois insegurança faz muita gente fazer besteira: comprar carros, torrar dinheiro em roupas, e etc.  e as pessoas vendem suas vidas por conta dessas inseguranças, alimentadas por essa mídia doida que vende padrões inalcançáveis, de beleza, de consumo, de tudo.

pois o que me deixaria feliz é que histórias como a de louise shutherland, que em 1978, sozinha, atravessou a transamazônica de bicicleta, fossem mais comuns, e não causassem espanto.

eis que a verdadeira liberdade, que é estar simplesmente só, numa estrada , debaixo de uma lua cheia em uma noite estrelada, é coisa que muitas mulheres nem ousam sonhar, tamanho medo que lhes foi impingido desde criancinhas.

então, meninas, o que desejo, é que simplesmente pedalem. e mandem à merda os imbecis. simplesmente assim.

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