uma morte, um ônibus, uma bicicleta

é tudo diferente da ponte pra cá. e ninguém fica sabendo, pois da ponte pra lá ninguém quer saber.

da ponte pra cá a buraqueira reina. remendos. asfalto ruim. lama. sujeira. poças de água suja.

 

um corpo no chão. as bicicletas ao lado. uma esposa em choque.

um corpo no chão. as bicicletas ao lado. uma esposa em choque.

da ponte pra cá pneu fino faz a gente sofrer. uma hora a gente volta pro pneu largo. kenda flame 2.125 pol, pirelli bm-90 2 pol… ou o pneuzão de cravo que veio na bicicleta de supermercado mesmo.

da ponte pra cá usar bicicleta não é só estilo. é levar “só” uma hora, uma hora e meia pra chegar nos locais de trabalho, pois de ônibus se leva 3 horas. quem vai de bicicleta dorme um pouco mais, os sortudos conseguem dormir 8 horas por noite, pois da ponte pra cá muita, mas muita gente dorme só quatro horas por noite.

da ponte pra cá, nos recantos mais profundos e congestionados da cidade, muitas vezes não tem nem u-lock: prende-se com corrente mesmo, com cadeado grande.  e reza-se muito, ora-se muito, pra nenhum ladrão levar a preciosa bicicleta de quadro de aço carbono, com alavanquinhas não indexadas pra trocar marcha. preciosa não pelo preço, mas pela necessidade. pela economia que ela representa, que faz com que o filho do trabalhador-ciclista possa comer um pouco melhor, pois o dinheiro que ia pro ônibus  vira comida.

muita gente hoje adulta foi criada por pais assim: pegavam a bicicleta cedo pra ir trabalhar, voltavam no final do dia.  o dinheiro economizado virava comida. virava calçado, virava roupa, virava aluguel pago. virava uma vida um pouco menos difícil pra tanta criança, tanto adolescente.

bicicleta que também é o veículo do passeio. também é o veículo de ir pescar na represa (quando tem água) de carregar enxada, de levar bujão de gás, de ir pra mais longe. bicicleta é tudo. seu bagageiro de tubão carrega tudo, até gente.

mas a vida da ponte pra cá não é notícia. as tragédias acontecem e não sai em lugar nenhum, ninguém se interessa. noel não saiu em lugar nenhum.

noel moreno leite tinha 54 anos. numa bicicleta ele, na outra a esposa.

ali, uma faixa de ônibus. corredor, sei lá. e o ônibus pegou. se foi imperícia do motorista, ou não, não se sabe. mas falta uma ciclovia na avenida belmira marim, nos confins da zona sul, que começa na longínqua avenida teôtonio vilela, lá no grajaú, que inobstante os altos morros, é dos bairros onde mais se pedala em são paulo. pois pedalar, além de gostoso, é barato.

uma ciclista sentada na guia, chora. até quando?

uma ciclista sentada na guia, chora. até quando?

a esposa viu quando o ônibus pegou a bicicleta onde estava o seu marido, viu sua morte. ficou  horas ali, sentada na guia, e o corpo do seu noel no asfalto.

mas isso não saiu em lugar nenhum.

nesse domingo o andré quer instalar uma ghost-bike ali, para que lembrem de seu pai. se quiser não se omitir, fale com o paulo alves, aqui.

mas o silêncio… da ponte pra cá a gente tá acostumado. pois é tudo diferente da ponte pra cá, tudo diferente…

e precisa de ciclovia na teotônio vilela, e na belmira marim,não sei como, mas precisa. mas é tudo diferente da ponte pra cá.

 

4 Respostas para “uma morte, um ônibus, uma bicicleta

  1. Marlon e Noel são pessoas. São iguais. Ghost já!!!!!!!!

  2. Que bad que da esse tipo de coisa:/

  3. Vítimas acontecem a todo o momento no trânsito caótico do Brasil. Se faz necessário conscientização, atitude, precauções, ciclovias, política pública para o assunto violência no trânsito. Meu irmão NOEL MORENO LEITE é mais um. É mais um para as estatísticas, infelizmente.

    Domingo dia 08.02.2015 ativistas ciclistas farão uma homenagem a ele, valendo para todos os demais que perderam suas vidas, desta forma. VÁ SE PUDER. GRAJAÚ – SÃO PAULO-SP – Av. Dona Belmira Marin, altura do nº 4.700

    Na Holanda, o país da bicicleta, há muito tempo atrás tinham o mesmo problema. Lá o poder público foi inteligente, fez com que o PEDALAR TENHA SEGURANÇA.

    PODEMOS MUDAR TAMBÉM, é preciso vontade, iniciativa, sobretudo AMOR AO PRÓXIMO, AMOR À VIDA. QUEM ESTIVER EM São PAULO e puder comparecer, ou fazer algo, toda iniciativa é bem-vinda. (Marina Moreno Leite) – marina.leite100@gmail.com – irmã do Noel Moreno Leite.

  4. Daqui uns dias completa 1 ano que a tragédia com Noel Moreno Leite aconteceu. E aconteceram com outros, muitos outros. É triste! Oh saudades meu irmão. Quanta falta vc nos faz!

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