a bicicleta de transporte

em inglês, há um verbo interessante: ‘to commute”. que se trata de ir regularmente para um mesmo lugar: trabalho, ou escola, por exemplo. é o verbo que trata do seu transporte diário para suas atividades.

minha atual commuter: diamond back 1990. nesa foto, sem o bagageiro e os para-lamas que instalei nela.

minha atual commuter: diamond back 1990. nesa foto, sem o bagageiro e os para-lamas que instalei nela.

uma “commuter bike” é uma bicicleta urbana por excelência, ou bem urbanizada, a não ser que você more na área rural.  

e, em todo caso, será uma bicicleta que precisa ser confortável e capaz de carregar as tralhas que carregamos todo santo dia: uma muda de roupa, os kits de remendos e reparos leves, livros, comida (há quem leve sua marmitinha ao trabalho), capa de chuva e mais alguma coisa.

essa bicicleta também deve desenvolver uma velocidade adequada ao trajeto que fará. o conforto não pode ser óbice para um desempenho que lhe permita chegar bem do ponto A ao ponto B com segurança. uma bicicleta lenta demais pode ser um risco no trânsito.

mas também não pode ser uma bicicleta que privilegie tanto o desempenho que impeça-o de de carregar suas coisas, e além do mais, seja tão cara que não possa, sob hipótese alguma estacioná-la na rua. é, não é lá muito comum ver uma colnago c-60 presa por uma u-lock num poste, não é?

essa bicicleta não virá com um grupo campagnolo super record ou shimano dura-ace di ou xtr. aliás, é bem provável que, numa versão melhor, venha com pedivela com movimento central de ponta quadrada. e na versão mais popular, com pedivela monobloco.

o brasil produziu duas variações dum modelo urbano bem adaptado às condições brasileiras ao seu tempo, tanto que se tornaram sucesso de venda tão estrondoso que ainda estão em produção: monark barra circular e caloi barra forte. essa última não mais em produção, a primeira sim. e há quem venda também cópias.

essas bicicletas possuem versões com freio de varão, um engenhoso sistema de frenagem sem cabos mas alavancas, e também nos hoje mais comuns freios de aro com (cantilveres ou v-brakes) com acionamento por cabo.

o matias escreveu aqui sobre uma variação africana desse modelo. tem foto legais.

essa bicicletas apontam o caminho para que montemos nossa bicicleta de transporte: rodas fortes, peças duráveis e de baixa manutenção, confortáveis.

pode se construir uma boa bicicleta de transporte a partir de um quadro de MTB mais simples.  que, aliás, costumam ter olhais para instalação de bagageiros e pára-lamas.

há quem prefira construir a partir de quadros simples de estrada, que também possuem olhais para bagageiros e para-lamas em alguns casos, como na gama de entrada da trek.

ao montar a sua, escolha um quadro forte e resistente. não ligue tanto para peso. 400 gramas a menos no peso da bicicleta não fará a menor diferença no seu transporte diário, mas pode ser a diferença entre seu quadro durar mais ou menos, ter os olhais para bagageiros e pára-lamas ou não, e claro, custar bem mais ou não.

um coleguinha que não quer ter seu nome divulgado, que tem lá sua pequena coleção de bicicletas italianas de competição, usa no dia a dia uma bicicleta montada com um quadro rally usa da gios br que ele pintou com um spray. montou com um garfo de aço cromo-molibdênio e um mix de peças que sobraram de suas antigas mountain-bikes. a pedivela é uma antiga XT de ponta quadrada.

continuando a montar sua commuter bike: mas tendo o quadro da bicicleta escolhido, o garfo é importante. sim, garfo rígido. pois não dá manutenção. esqueça caros garfos de fibra de carbono. o bom e velho aço, seja na versão dos mais simples garfos de aço carbono que pesam 1,2 kg em média, ou nos leves garfos de aço cromo-molibdênio, pesando abaixo de 1 kg, é uma opção de baixo custo e baixa manutenção. e confortável também para quem sabe pedalar  desviando dos buracos e não faz do trajeto para o trabalho um treino de free ride urbano.

então você tem garfo e quadro. provavelmente um conjunto com medidas padrão de canote, caixa de direção, e caixa de movimento central de rosca inglesa.

vamos escolher a relação. lembre que essa não é uma bicicleta de competição. a relação tem que ser adequada para você chegar rápido ao trabalho ou escola, mas também permitir você pedalar ao final do dia com todo aquele cansaço. e eventualmente carregando trabalho para casa.  e claro, tem que ser uma relação adequada para o trajeto que vai fazer, não para dar a volta ao mundo.

quem mora em cidades praianas planas deve pensar bastante numa bicicleta de marcha única ou com poucas marchas. um cubo de 3 marchas internas pode ser uma ótima escolha, inclusive para “turbinar” uma bicicleta já existente, como uma barra-forte ou barra-circular.

mas se você mora em regiões com morros no caminho de sua casa, é bom pensar pelo menos num cassete com boa amplitude de marchas. eu gosto, nas minhas urbanas, de usar cassetes 11-32 ou 11-34.

a relação também não precisa ser de 9, 10 ou 11 velocidades no cassete. você não estará competindo! 7 ou 8 marchas atrás dão bem para o gasto.  e cassetes nessas velocidades são baratos, assim como a corrente, que não penas é mais durável que corrntes de 9, 10 ou 11 velocidades, mas custam bem menos.  você prefere gastar 30 ou 40 reais a cada troca de corrente, ou 150 reais? pense nisso.

essa bicicleta vai rodar bastante, custo de manutenção baixo é algo desejável. par ase te ruma ideia do quanto pode-se rodar apenas indo ao trabalho, faça uma conta simples: multiplique a distância da sua casa ao trabalho vezes 2 vezes o número de dias trabalhados num mês.

fazendo uma conta simples a partir dos meus trajetos habituais: 20 km de distância entre a casa e o trabalho. ida e volta: 40 km. 22 dias trabalhados num mês e eu terei pedalado 880 km. isso se eu não desviar meu caminho – o que faço co frequência, ou usar essa bicicleta para outros afazeres. note que em 11 meses de trabalho, terei pedalado 9680 km.

ora, cassetes e correntes duram em média, dos mais simples de 3 a 5 mil km.  sim, eu troco cassete e corrente de commuters que eu esteja usando duas vezes ao ano.  no mercado livre, na pesquisa que fiz agora, o cassete campagnolo chorus mais barato custa mais de 650 reais….  na mesma pesquisa, o cassete shimano de 8v mais barato custa 41 reais.  e a catraca de rosca de 7v da shimano mais barata (14-28) custa 25 reais.

sim, se for o caso deixe sua bicicleta com a roda traseira com cubo de rosca e use sim uma catraca de rosca. se você já tem essa roda, use-a. se não, monte com um cubo para uso de cassete.

bom, se vai escolher os cubos, acabará também escolhendo os freios.

bicicleta de ir ao trabalho não precisa dos lindos e fantásticos freios a disco. um bom freio de aro funcionará bem. sejam eles v-brakes ou ferraduras. que sejam básicos, mas confiáveis. nada de v-brakes com haste de plástico ou daqueles logan que a mola fadiga-se rapidamente. um par de v-brakes shimano bem básico custa em torno de 40 reais no mercado livre.  freios ferradura mais básicos, mas de dois pivots, tektro ou alhonga, também não são caros. e funcionam bem. capriche nas sapatas de freio.

freios a disco tem  um problema no uso urbano: “chamam” ladrão. chamam muita atenção. e a roda com cubos para disco possui uma raiação ligeiramente mais frágil que a roda sem disco. pela posição esquerda dos furos no cubo onde serão presos os raios. no caso do disco, a raiação do lado esquerdo é em ângulo mais alto em relação ao eixo da roda. quanto mais baixo esse ângulo, mais resistente é a roda. e lembre, sua bicicleta vai rodar muito, muito, muito…

não use rodas de competição. guarde suas rodinhas lindas com aros de fibra de carbono para outros usos. monte roda com 32 ou 36 raios, raiação simples com raios de inox. escolha os aros pela resistência, não pela leveza.

quanto a trocadores e guidão: para uso urbano, o guidão drop pode não ser adequado. se você tem que costurar muito no trânsito, embora o guidão drop seja estreito, ele dá pouca manobrabilidade em relação a um guidão aberto, reto, seja ele flat ou rise. não à toa o guidão drop foi abandonado logo no início do MTB. não é difícil montar uma bicicleta com quadro de estradeira e guidão reto. só fará alguma ginástica em compatibilizar o trocador esquerdo com o câmbio dianteiro. mas se estiver usando pedivela dupla, um trocador de MTB funcionará tranquilamente. a incompatibilidade aparecerá apenas quando usar um câmbio de estrada triplo com trocador de MTB.

aliás, o seu velho quadro de estrada, que era um número maior do que você deveria usar, ficará com um fit perfeito se montar com um guidão flat. pense nessa possibilidade.

quanto à pedivela, a não ser que você vá subir uma serra todo dia, procure usar as que possuem coroas maiores, que duram mais. pedivelas para MTBs, 48-36-26 ou 48-38-28 será uma ótima escolha. se forem com coroas aparafusadas e não rebitadas, você pode, após o longo uso para gastar coroas de aço, trocar apenas as coroas, e não a pedivela inteira. e se aparência é importante, use pedivelas com braços polidos, e não pretos. os pretos gastam a pintura em pontos de contato com sapatos.

um detalhe importante são os pneus: pneus de cravo na cidade, só gastam mais rápido e seguram a bicicleta de forma indevida. use pneus para asfalto.

quanto à largura, quanto mais finos, mais rápida fica a bicicleta, mas mais dura ela fica. quanto mais largos, mais confortável fica a bicicleta, mas muito mais lenta e pesada.

para aro 26, gosto de pneus de 1,25 pol ou 32mm. pra aro 700c/29, o máximo que consigo colocar na minha commuter montada a partir dum quadro trek é 25mm. mas no quadro surly 700c que está esperando ser montado, colocarei no mínio 28mm x 700c, o que dará uma roda beeem confortável.

o conjunto que gosto para commuting é aro 26. quadro dos anos 90 em cromo, com garfo idem. v-brakes. e relação de 8v, 48-3828 x 11-34. uma relação bem versátil pra uso urbano, que me permite tanto subir bem nas pirambeiras perto de casa, quando socar a bota nas avenidonas perigosas que tenho que cruzar para chegar ao trabalho. com pneus  kenda de 1,25 pol tenho conforto e desempenho, e facilidade de calibrar em postos de gasolina as 65 libras necessárias.

lembre ao montar sua bicicleta de ir ao trabalho: esqueça a beleza, não perca tempo com fetiche pelas peças caras. conforto e durabilidade devem ser os critérios utilizados na escolha das peças. e claro, que não seja uma bicicleta cara, pois ela pode sim ser furtada num dia qualquer que estiver presa em algum lugar. e aí eu pergunto: o que vai lhe doer mais no bolso e na alma, perder uma pedivela tourney ou xtr? um quadro de aço ou de fibra de carbono? pneus kenda ou schwalbe? e em caso de atropelamento – o que pode ocorrer sim – prefere amassar aros vzan ou mavic?

pense nesses detalhes quando montar sua bicicleta de ir ao trabalho ou estudo. e lembre, o que de fato faz seu desempenho, é sua perna, não sua bicicleta.

então, largue de preguiça e medinho, e vá trabalhar de bike!

(e não esqueça das luzes!)

 

 

 

 

 

 

 

6 Respostas para “a bicicleta de transporte

  1. Muuuiiito boa essa matéria!!! Tirou praticamente todas a minhas dúvidas, já no meu primeiro dia vindo para o trabalho de bicicleta! Parabéns e obrigado!!!

  2. Gosto do realismo com o qual você descreve a bike como meio transporte. Na minha experiência, talvez para mim, o que mais me incomoda no uso da bike no dia dia é a questão do cansaço físico e do conforto. Depois de um dia puxado, ter que pedalar muito, principalmente nos meus trajetos que há bastante subidas, fica realmente desinteressante montar na bike. Quero fazer mais uso da minha bicicleta, até mesmo como ativismo, só que as vezes o busão parece ser a melhor opção. O que fazer? =/

    • use marchas mais leves. eu às vezes peno pra voltr pra casa, tarde da noite, é nesse momento que uso as marchas mais leves, principalmente pois às vezes carrego muito peso entre livros e trabalhos de alunos, e estou exausto depois de ter saído de casa 20 horas antes, engfrentando morros ao chegar em casa. marchas leves dão um alívio. ou às vezes apenas desço e empurro um pouco. mas não deixo o meu corpo pensar em não pedalar.

      • Nessas horas você daria prioridade no conforto ou no desempenho da bike? Porque uma bike mais rápida te deixaria mais cedo em casa, já uma bike mais confortável deixaria a viagem menos massantes ou talvez mais prazerosa. Qual sua opinião? Sem querer lhe incomodar, mas já o incomodando. Haha

  3. uma bike muito rápida é pesada nas subidas, em razão das marchas. há que se procurar um equilíbrio nas escolhas.

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