imprestável

imprestável. é assim.

“Quem anda de bicicleta não presta, hoje nós sabemos disso. São pessoas não qualificadas.” – francisco augusto da costa porto, 74 anos. n’o estado de são paulo.  leia aqui.

eu pensava nessas palavras quando parei em cima da ponte das bandeiras, do lado onde está pintada a faixa vermelha, exclusiva para bicicletas.

olhei a marginal.  o rio tietê, um canal de esgoto. as vias asfaltadas, lotadas de carros com uma pessoa só dentro. o ar pesado da poluição dos veículos.

aragonez uma vez descreveu aquele pedaço da cidade como “inóspito”. e é. adiante da ponte, a praça campo de bagatelle, com sua rotatória que assusta até motoristas, o que dirá ciclistas. antes, a santos dummont, com pistas de até 8 faixas em cada direção (duvida? conte no cruzamento dela com a avenida do estado).

e em cima da ponte, vindo duma passarela situada antes da ponte e em frente ao antigo clube tietê, e seguindo até apenas imediatamente após a ponte, cruzando uma alça, a faixa vermelha.

“liga nada a lugar nenhum essa faixa!” avisou-me um colega hoje de manhã. e sobre ela eu parei, e fiquei pensando… sim, imprestável.  não a faixa vermelha. não eu. imprestável a forma de pensar que permitiu que uma área antes bucólica da cidade virasse aquela coisa inóspita.

nessa ponte as torres marcavam as regatas. sim, o tietê já tive regatas antes de se tornar um canal de esgoto. mas… o tal progresso fez aquilo, transformou o bucólico em deserto.

eu já fui atropelado na campo de bagatelle. socorro negado, arrastei-me pra fora do asfalto. ninguém que viu o atropelamento me ajudou. nenhum motorista sequer esticou o braço pra fora. apenas pararam e esperaram eu me arrastar. o motorista atropelador parou o carro longe e veio andando, pra chegar mais perto e me xingar. e foi embora. isso foi em julho de 2011.

o enzo bertollini, também atropelado ali perto. também um sofredor no deserto inóspito de solidariedade.

tsc. pergunto-me quem é imprestável. quem apenas suplica por uma faixa vermelha pra ter um pouco de segurança, ou quem acelera, polui, e eventualmente atropela.

é um dia pra se pensar nesse bikelash que estamos presenciando em são paulo. entenda esse bikelash nesse texto do felipe meirelles. leia também o belo texto da renata falzoni acerca das imprecações do dr francisco augusto da costa porto.  até onde sei, juiz aposentado.

é… no dia do seu próprio aniversário, é de se pensar. sim, hoje é meu aniversário. uma teça. nasci numa terça.

há 2 anos, meu aniversário coincidiu com a descida da rota márcia prado.  nada mal aniversariar num pedal com mais de 10 mil ciclistas. mas hoje eu ganhei a ciclovia em cima da ponte.

a ciclovia não integrada ao entorno. mas me pergunto se a quero ligada ao mundo ao redor.

enquanto eu estava lá, à tarde, olhando aquela multiplicidade de veículos a combustão, cheirando aquele ar horroroso, passaram 7 ciclistas. todos na direção centro-bairro.

do outro lado da ponte, 4 ciclistas passaram, na direção bairro-centro.

mas, mesmo inóspita a região, as pessoas passam pedalando. mesmo sofrendo com os riscos, passam pedalando, pois sim, a bicicleta vem se impondo como veículo nas grandes cidades. sim isso acontece no mundo inteiro, e só não vê quem não quer.

mas de cegos à realidade o mundo está cheio.  de inseguros com as novidades, o mundo está cheio. na prática, o planeta terra sempre rodou sobre seu eixo e ao redor do sol, mesmo assim humanos demoraram a perceber que o mundo não era plano… yep!

hoje demoram a perceber que sim, o futuro é à tração humana. não há mais condições de se manter um sistema de transporte e ocupação urbana que mata 20 pessoas ao dia. essa é a conta que nos passa o dr. paulo saldiva.

ora, diante disso, por que deveria eu olhar aquela faixa vermelha que ganhei no meu aniversário com a emoção que senti? talvez pois só eu saiba o quanto eu mesmo sofri pra que aquela tinta vermelha fosse pintada,  ou por que só uma parcela de pessoas consiga enxergar o quanto de esforço coletivo há para que consigamos fazer o poder público perceber a necessidade de mudar a matriz de transporte de uma cidade: motorizado, só o coletivo.

rodei a cidade e resolvi voltar pra casa no horário do rush. gente, que caos! como costurei no meio dos corredores, com carros e ônibus se espremendo. dá pra manter essa realidade? as pessoas com aquela cara amarrada.  e claro, muita gente subindo o vidro ao perceber uma bicicleta no corredor. pois até os ladrões já perceberam que bicicleta dá mais mobilidade.

é.

mas enquanto isso, o governo do estado conseguiu pela segunda vez impedir que os ciclistas se enxameassem para descer a rota márcia prado. será que a descida no meu aniversário foi a última? ou será que não haverá um tempo pós-governo da falta de água, da falta de metrô, da falta de segurança, e da falta de lazer em cima da bicicleta?

é, os tempos estão mudando. tudo o que é sólido desmancha no ar. gerações criadas vendo ayrton senna correr em seu bóldio poluente agora não raro pedalam. e os que ainda mantêm a fixação nos motores sofrem nos congestionamentos. carros possantes que andam a 10 km/h…. e a bicicletinha velha – eu hoje com minha db apex 1990 – a mais de 20 nos corredores….

não há diversão para quem está no carro, mas há tanta para quem está na bicicleta! mas talvez não seja bom que eles descubram isso. que mantenham seu mau-humor generalizado. que gastem sua grana em carros, e depois em plásticas!

é, minha panturrilha não tem silicone. só tem açaí, pão com margarina, feijão com arroz… e muito café.

deixa pra lá. quer saber, melhor que a ciclovia da ponte das bandeiras, a minha, permaneça não ligada ao se entorno. que permaneça desajustada. pois como disse krishnamurti, “não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma
sociedade profundamente doente.”

deixa pra lá. eu sou um desajustado mesmo. um imprestável. sou professor universitário, portanto, segundo um “amigo”, apenas um reprodutor do sistema. é…

mas no meu aniversário ganhei uma faixinha vermelha. que vai do nada ao lugar nenhum, mas é minha!

o resto que se dane. cansei.

Uma resposta para “imprestável

  1. Primeiramente, Parabéns Odir, amigo e professor!

    Depois eu pergunto, seria esse tal de bikelash um pós-Hype? Vocês ai em São Paulo já estariam entrando num novo patamar do qual se possa distinguir no horizonte uma mudança ou pelo menos aceitação da bicicleta como meio de transporte?

    Abraços desajustados!

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