a ecovias não gosta de ciclistas. entenda por quê.

renata falzoni saiu estarrecida da reunião. discutiam-se os assuntos relacionados à realização da descida da serra, pela rota márcia prado, a ser promovida pelo instituto ciclobr.

lembre que rota é só um caminho.  o caminho está lá. quando quiser fazê-lo, faça, é seu direito. apesar de ações como essa da polícia, no video abaixo, na bicicletada interplanetária.

mas o evento anual, em dezembro, não apenas serve para rememorar márcia regina de andrade prado, que comemorou um aniversário fazendo esse caminho, e faleceu assassinada atropelada por um ônibus na avenida paulista, quando trafegava com sua bicicleta não apenas seguindo as regras de trânsito como também usando um inócuo capacete.  mas a discussão não e sobre capacete.

a esta altura você já sabe que a ecovias, empresa que administra o sistema anchieta-imigrantes, a estradas que ligam são paulo à baixada santista, colocou tamanho óbice para a realização do evento que o inviabiliza. para ler mais, clique aqui e veja o completo post do willian cruz no vá de bike

renata falzoni saiu indignada da reunião do dia 05, com tamanha desfaçatez de ecovias, artesp e der, basicamente, portanto, governo do estado de são paulo, diante do evento. entenda a justa – e eu diria tímida – indignação que, pra quem é do pedal, é de dar vontade de de sacar a u-lock e rachar alguns crânios pra ver se as pessoas param de ser cínicas.  entenda, lendo aqui.

note que renata já frisa na primeira frase: fala como cidadã.

cidadão e consumidor não são palavras sinônimas. consumidor compra serviços e bens. e paga por isso, de acordo com seu poder de compra. essas relações seguem as lógicas comerciais.

cidadão exerce direitos e deveres. deve cumprir a lei e exigir que cumpram a lei. paga tributos. e exerce seus direitos. a lógica que rege essas relações não é comercial, consumerista, mas a lógica dos direitos.

o estado mudou no século XX. no século XIX, qualquer mente lúcida seria contra a própria existência do estado, que era um estado que servia única e exclusivamente para servir aos interesses econômicos de uma minoria, e o resto recebia tratamento na base do cacete. os impérios do século XIX são algo bem diferente da república que os franceses fundaram após a revolução.

franceses inventaram esse troço de cidadania. de achar que todos os humanos são em essência iguais e possuem direitos básicos iguais. claro, a ideia te sido construída aos poucos desde há muito tempo. talvez a raiz esteja no erro de averróis ao interpretar a doutrina da alma de platão, mas isso não interessa à grande parte das pessoas, mas só à quem quer descobrir a raiz das coisas.

cidadão e consumidor não são iguais. mesmo um conservador como alexis de tocqueville, em sua obra “da democracia na américa” percebeu que o indivíduo consumidor não é o cidadão. aliás, dizia que o maior inimigo do cidadão é o indivíduo.

o estado do século XX, depois do fascínio pelos totalitarismos na primeira metade, ao poucos volta-se à participação popular. de alguma forma, de algum modo, classes baixas participaram dessa forma de estado, que também lhe garante direitos: saúde, educação, moradia, transporte. e nas democracias, também um espaço de liberdade individual que, precisamos lembrar, é sempre resíduo da liberdade coletiva: é no coletivo que realizamos nossas grandes realizações.

uma dessas liberdades individuais é o direito de ir e vir. nos totalitarismos, essa liberdade não existe. hitler confinou pessoas em campos de concentração antes de exterminá-las, moveu populações. stalin manteve os passaporte internos que já existiam no antigo império czarista, como forma a impedir pessoas de mudarem de suas cidades dentro da antiga união soviética, fechou fronteiras.

nas democracias, ninguém pode ser restringido ao direito de ir e vir nas áreas públicas: nas ruas, nas estradas. podem-se restringir veículos automotores, mas pessoas e seus veículos à propulsão humana não. tanto que no CTB, ciclomotores não podem ser pilotados sem capacete, ao contrário das bicicletas.

a lógica co CTB é essa: diferenciar bem o veículo automotor do veículo de propulsão humana. o ciclomotor, co motor a à explosão ou elétrico, é veículo que deve andar com luzes acesas o tempo todo e com condutor trajando capacete certificado pelo inmetro (o que exclui os capacetes utilizados pelos ciclistas) . já do ciclista nada se exige, pois ele nada mais é do que um mero pedestre que subiu numa bicicleta.

do ciclista não se exige habilitação ou permissão. é cidadão, e pedalar é um direito básico, uma das formas básicas do direito de ir e vir. andar e pedalar, ninguém pode ser proibido de o fazê-lo.

mas existem os pedágios da anchieta e da imigrantes. mas existe a ecovias….

pedágio é taxa. não é preço de compra. é uma modalidade de tributo,  “a contraprestação de serviços públicos ou de benefícios feitos, postos à disposição ou custeados pelo Estado, em favor de quem paga ou por este provocado”, na definição de aliomar baleeiro. pedágio se cobram nas rodovias de veículos automotores. aqueles que precisam de permissão para trafegar.

você não pode construir um carro no fundo da sua casa e sair por aí dirigindo. precisa de uma habilitação para dirigir, e seu carro passará por um licenciamento.  mas uma bicicleta você pode fazer no fundo da sua casa. dependerá apenas da sua habilidade técnica, não de uma permissão legal.  aliás, muitas bicicletas reclinadas são feitas assim.

mas existem a ecovias….

ecovias é uma empresa do grupo eco-rodovias, que, por sua vez, tem entre sócios, a empresa cr almeida. leia no site deles aqui.

cr almeida é uma das empresas implciadas no escândalo dos cartéis do metro e cptm de sãopaulo, e financiou campanha de geraldo alckmin. leia a reportagem da folha aqui.

alckmin é do PSDB, o partido das grandes privatizações. portanto, do desmonte da organização estatal. mas sejamos justos, a privataria não é exclusivamente tucana.

na prática, hoje se vêem os fatos como sempre foram, mas antes encobertos: as relações espúrias entre empresas e estados. não é só petrobrás e não é de agora. é quase tudo.

o PT corrompeu-se quando passou a usar os esquemas do PSDB – se duvida, há um bom livro para se ler, do repórter lucas figueiredo demonstrando isso.  chama-se “o operador”, é centrado em marcos valério. que começou seus esquemas com eduardo azeredo, então governador de MG pelo PSDB. o resto da história vc conhece.

por sua vez, o PSDB corrompeu-se com o “pacto da governabilidade” firmado por FHC com jader barbalho e ACM.  não lembra disso? não era nascido nessa época? não sabe quem era o serjão? mendonça de barros é um nome que não lhe diz nada?

no mundo inteiro se debate a forma como direitos serão efetivados. o canadá tem um sistema de saúde totalmente público.  mas não tem uma saúde de ponta como se pode supor quando se desconhece esse país. já os   EUA tem um sistema de saúde totalmente privado, e com isso tem hospitais de ponta, grandes laboratórios e etc. mas 40% de sua população não tem qualquer tipo de assistência de saúde.  veja aqui o documentário de michael moore sobre o assunto.

nos EUA, e na europa, há estradas pedagiadas. grandes autoestradas. as autbahns alemãs são famosas por terem pistas sem limite máximo de velocidade, onde porsches e ferraris voam baixo.

mas nesses países há outra estrutura viária de estradas menores, vicinais, e de redes de ciclovias. dá pra circular a europa inteira em bicicleta sem pegar as grandes estradas, assim como nos EUA.

já entre são paulo e santos só há 3 caminhos públicos asfaltados, do mais antigo ao mais recente: SP-148, a estrada velha de santos, fechada para tráfego, por diversas razões. SP-050, rodovia anchieta, e SP-160, rodovia dos imigrantes.

uma estrada com tráfego fechado, e as outras duas interditadas para pedestres e ciclistas.

portanto, ferindo-se o direito de ir e vir. ferindo-se o direito de escolha do cidadão que não queira andar num carro, numa moto ou num ônibus.

e a questão é sim, dinheiro. é sim o pagamento de pedágios, que sendo taxas, deveriam ir para os cofres do estado e vão para os cofres de ecovias, que alega que no seu termo de concessão não se previa a construção de estruturas para tráfego de bicicletas.

claro, essa é a cínica alegação de quem quer colocar um contrato acima das leis. a cínica alegação de quem quer fazer um contrato se sobrepor a um direito humano fundamental, um direito constitucional.

quem organiza eventos lucrativos em espaço público deve ser cobrado. quem organiza eventos nao lucrativos não, pois é livre o direito de reunião. uma procissão deve ser pedagiada? uma romaria? uma manifestação? uma passeata? um passeio de pessoas a pé ou de bicicleta, que simplesmente se reúnem para tanto?

a ecovias quer tratar a descida da serra como competição e evento lucrativo. e cobrar por isso. entenda, é sim uma questão de manter lucros. lucro$.

isso pois a estrutura viária foi privatizada, e esse grupo não consegue entender que transitar por área pública é direito, e não um serviço a ser vendido.

está na hora de não apenas se abrir um caminho asfaltado e seguro para ciclistas nesse trecho do estado de são paulo, mas até de se questionar essa concessão.  pois não pode uma concessão qualquer simplesmente ferir um direito constitucional fundamental do cidadão.

e por que essa concessão não é revista? bom, releia o link lá em cima acerca do financiamento de campanha, implicações em cartéis e etc.

a ecovias não gosta de você, amig@ ciclista. e o seu governador mexe uma palha para mudar isso. pois a lava jato só está centrada na petrobrás, e assim você não percebe coisas muito piores que estão bem abaixo do seu nariz, nas estradas onde circula, na água que não chega na sua casa, nos trens e metrôs lotados que pega, na polícia que não acha sua bicicleta roubada

logo aparece a tropa dele me desancando...

logo aparece a tropa dele me desancando…

lembre, ir de são paulo a santos em sua bicicleta é direito seu. e essas pessoas estão tentando de todo jeito impedir que você o exerça. pois afinal, essas pessoas são aquelas que acham que ciclista é uma pessoa que não presta.  e pessoas que não prestam que se danem?

yep, a questão é sim de direitos. um dia o brasileiro aprenderá sobre isso. mas, até lá, os predadores estarão no poder.

5 Respostas para “a ecovias não gosta de ciclistas. entenda por quê.

  1. DE QUE ADIANTA A LEI????
    Lei nº 15.318, de 13 de fevereiro de 2014
    (Projeto de lei nº 760/13, do Deputado José Bittencourt – PSD)
    Institui a Política de Mobilidade Sustentável e Incentivo ao Uso da Bicicleta e dá outras providências.
    O GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO:
    Faço saber que a Assembleia Legislativa decreta e eu promulgo a seguinte lei:
    Artigo 1º – Fica instituída a Política de Mobilidade Sustentável e de Incentivo ao Uso da Bicicleta no âmbito do Estado de São Paulo.
    Parágrafo único – O incentivo ao uso da bicicleta como forma de mobilidade urbana sustentável visa priorizar os meios de transporte não motorizados e promover a melhoria do meio ambiente, trânsito e saúde.
    Artigo 2º – A execução da Política de que esta lei trata se dará por meio de:
    I – promoção de ações e projetos em favor de ciclistas, a fim de melhorar as condições para seu deslocamento e segurança;
    II – integração da bicicleta ao sistema de transporte público existente;
    III – promoção de campanhas educativas voltadas para o uso da bicicleta.
    Artigo 3º – São objetivos desta lei, entre outros:
    I – possibilitar a redução do uso do automóvel nos trajetos de curta distância;
    II – estimular o uso da bicicleta como meio de transporte alternativo e sustentável;
    III – criar atitude favorável aos deslocamentos cicloviários;
    IV – promover a bicicleta como modalidade de deslocamento urbano eficiente, saudável e ecologicamente correto;
    V – incentivar o associativismo entre os ciclistas e usuários dessa modalidade de transporte;
    VI – estimular a conexão entre cidades, por meio de rotas seguras para o deslocamento cicloviário, voltadas para o turismo e o lazer.
    Artigo 4º – O Poder Executivo poderá promover campanhas publicitárias de educação e conscientização da Política de Mobilidade Sustentável, dando ênfase à aplicação de normas de uso da bicicleta.
    Artigo 5º – Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.
    Palácio dos Bandeirantes, aos 13 de fevereiro de 2014.
    Geraldo Alckmin
    Saulo de Castro Abreu Filho
    Secretário de Logística e Transportes
    Bruno Covas Lopes
    Secretário do Meio Ambiente
    Jurandir Fernando Ribeiro Fernandes
    Secretário dos Transportes Metropolitano
    Edson Aparecido dos Santos
    Secretário-Chefe da Casa Civil
    Publicada na Assessoria Técnico-Legislativa, aos 13 de fevereiro de 2014.

  2. Direito de ir e vir não é igual a direito de ir e vir de bicicleta.

    Ciclista é mimado, quando lhe interessa bicicleta e veículo, meio de trasporte… Quando não convém ciclista é igual a pedestre.

    O governo federal incentiva a compra de carros e aumenta o imposto sobre bicicletas, e o Tonho da Lua que está sentado na cadeira de prefeito aqui em São Paulo fica pintando sarjetas e buracos e chamando de ciclovia.

    A Concessionária proíbe a circulação de bicicletas alegando falta de segurança.

  3. Ciclista é mimado? Realmente seu argumento foi muito forte e profundo, tá de parabéns. Apenas sugiro que você estude mais antes de tornar pública suas significativas reflexões. Sobre seu desconhecimento do Código Brasileiro de Trânsito, bicicleta é um veículo não motorizado e não um “pedestre”. A internet está ai, procure saber mais, é fácil, rápido e o melhor (que o governo paulista deve odiar) é de graça e sem pedágio!!!

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