leave no traces

“leave no traces” é um conselho dado a trilheiros ao redor do mundo, que deveria ser algo tatuado no braço das pessoas.

lixo trazido pela arrebentação, acumulando-se em pedras à beira-mar, em são francisco do sul - sc. foto de juliana diehl.

lixo trazido pela arrebentação, acumulando-se em pedras à beira-mar, em são francisco do sul – sc. foto de juliana diehl.

quer dizer basicamente: não deixe traços. ou seja, não ferre mais ainda o meio ambiente.

quando eu faço audaxes, eu, que não tenho o menor pendor para esportes de resistência e faço sempre lá na rabeira… se tem uma coisa que me deixa de mau-humor, e me atrasa mais, é embalagem de suplemento energético deixado por outros ciclistas: carb up, barrinha de cereal, bcaa e etc.  acabo parando e recolhendo um monte.  e me pergunto se o peso dessas embalagens é tão grande  para os caras a minha frente jogarem fora na beira da estrada. isso quando não jogam coisa pior: câmara de ar furada.  dá pra imaginar quanto tempo essa câmara de ar ficará lá secando debaixo de sol, depois se quebrando toda, virando pó de borracha, pra impregnar solo e ar?

isso sem falar que uma câmara furada pode ser remendada e reutilizada, portanto tendo sua vida útil alongada.  reuso é uma das palavras de ordem na preservação do meio ambiente.

mas tem coisa pior.  como você parar na beira da estrada pra tirar fotos de um mirante e, quando chega nele, aquele lixo amontoado pelos cantos…. nunca esqueço duma cachoeirinha  na beira da estrada entre cunha e parati: latas e garrafas pra tudo quanto é lado, as pedras todas pichadas. não deu nem vontade de fotografar. da lixeira, um rato me observou.

de fato, humanos já alteraram bastante o meio ambiente. acho que já é o suficiente.  não deixar traços da própria passagem deixou de ser escolha, passou a ser necessidade.

usar a bicicleta como transporte é uma das formas de deixar menos traços. mas do que adianta usar a bicicleta inteira e nas férias pegar avião seis vezes? dá na mesma. mas as férias são sagradas, não é?

pois é. hoje se trabalha com o possível colapso do sistema cantareira. duvida? leia aqui. mas claro, lavar sua calçada ainda é sagrado, não é?

pois é. deixamos traços sim, traços, rabiscos, sujeira, empesteamos o mundo. tente pelo menos não ferrar ainda mais o mundo quando for fazer uma trilha. quando acampar fora de campings, use rede, que não amassa a vegetação. aprenda a consumir menos, qualquer coisa.

não deixar traços não apenas nas trilhas, mas também nas cidades, não sobrecarregar as cidades com nossas existências mesquinhas.

aprender a não deixar traços é o que precisamos fazer, todos. antes que desapareçamos, também sem deixar traços.

e isso pois nós, humanos, no mais das vezes não nos vemos parte de todo um sistema chamado terra. mas ver as coisas assim significa repensar um monte de hábitos, e quem quer deixar de se entupir de coisas? ninguém, né? então… toca tirar o sarro de quem reaproveita coisas já existentes, e socar a burra no consumo. e viva os carros acelerando, o ar empesteado, o lixo no chão. consumo consciente, ou seja, cada vez menos consumo, nem pensar. well…

bom, pra quem ainda sente um pouco de desconforto com o mundo atual, pesquisar um pouco sobre ecologia profunda ajuda. ou pelo menos não atrapalhar quem já esteja fazendo algo. pois tem muita gente tomando pequenas atitudes, muitas vezes desqualificadas como mero pão-durismo, mas que são muito eficientes, pois no mais das vezes as boas soluções do ponto de vista ambiental também são as mais baratas, como se deslocar por bicicleta em vez de usar carro, por exemplo.

mas pra quem sabe ler os sinais, as mudanças já se apresentaram. a seca no sudeste brasileiro é só um sintoma, dos mais leves, do que está por vir. outros virão. e se no insulamento ocorre o processo de nanismo das espécies, pois os animais menores se viram melhor que os maiores quando escasseiam recursos, acontecerá algo parecido com a espécie humana: os menos gatadores de recursos é que acabarão, de uma forma ou outra, vivendo melhor. pois quem não toma leite não sente a alta do leite, quem não tem carro não sente a alta da gasolina. mas isso é só pra quem tem olhos de ver. quem não tem, não enxerga.

como o cidadão que hoje à tarde interrompeu a alimentação das maritacas empoleiradas no jerivá de frente da minha casa. com seu carro com som nas alturas, par ao quarteirão inteiro ouvir, as maritacas levantaram voo.  é. nas pequenas coisas é que se percebe está aí para contribuir e quem só está pra dar trabalho e despesa. até que a conta fique alta demais.

bom, pra quem tem um pouco de neurônios, vale a leitura desse texto. principalmente aos arquitetos, urbanistas, engenheiros. e conhecer as ideias de arne næss, rapidamente visualizadas nessa entrevista aqui, também é sempre algo importante.

talvez se tirarmos as vaidades humanas do centro das preocupações, erros banais deixarão de serem cometidos. pois é nas pequenas coisas que A coisa se revela. pois de nada adianta o político dizer que bicicleta é importante se o diretor da GET na hora de implantar a ciclofaixa quer obrigar o ciclista a fazer o caminho mais longo. é assim que se percebe que não, a bicicleta não é importante para esse diretor. é apenas um elemento a mais pra lhe atrapalhar o cotidiano de gestor de tráfego. ou seja, ele não entendeu que bicicleta não é só bicicleta. mas talvez seja a única forma de transporte individual que possa a vir a funcionar num futuro, talvez não muito distante.

mas estas são palavras de cassandra. é só quando troia for destruída, que as palavras serão acreditadas. e daí inês não é apenas morta, mas estará podre.

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