estilo para pedalar

infelizmente vigora entre alguns meios a ideia de que o ciclista urbano tenha que parecer-se com a formiga atômica ou o frango da sadia: permanentemente encapacetado e paramentado como se fosse fazer  paris-roubaix ou cape epic.

detalhe de calças em tweed para ciclistas, por davies & son. clique na imagem par air ao site desta alfaiataria

detalhes de calças em tweed para ciclistas, por davies & son. clique na imagem para ir ao site desta alfaiataria

de outro lado, como sói acontecer com uma burguesia recém ascendida e ainda muito insegura de sua posição social, afirmações explícitas de classe se fazem comuns. pois o neto do analfabeto desespera-se para diferenciar-se do filho de analfabeto. assim, desespera-se para manter a possibilidade do uso de seu recém adquirido símbolo de status, por exemplo, um carro.

isso explica, por exemplo, o fetiche do motorista paulistano urbano pelos jipões. trata-se de tentar parecer-se com aquela antiga nobreza plebeia brasileira que mantém posses de terras e sim, aos finais de semana escapa para longe de são paulo passando por estradas ruins.  mas o recém acendido não tem essas terras, mal tem os 40 ou 50 m² onde mora, não raro em aluguel.

de fato, a moradia é precária inclusive para a classe média, que mora em cubículos verticais, uns maiores, outros menores, mas em espaços apertados, e que não raro não peguem sol.  e aqui não vale contar aquela pequena réstia que em ângulo atinge a parede da sala, mas sim o sol que permite secar as roupas lavadas, que areja a casa dos ácaros. sim, muitos apartamentos bonitos na foto são gelados como túmulos.

mr gary fisher, em terno feito por grahma browne. clique na imagem.

mr. gary fisher, em terno feito por graham browne. não visível na imagem, “action shoulders” permitem melhor movimento dos braços. clique na imagem.

 

lugar ao sol para suas roupas, apenas as pontas da sociedade: a casa do  realmente rico e com espaço, ou o topo das lajes das moradias de periferias sem estrutura.

mas o morador do túmulo com condomínio precisa afirmar sua classe, por isso o fetiche pelo automóvel. esse fetiche que forçou a CET em são paulo readequar a posição de uma faixa na praça vilaboim, em higienópolis, um trecho de 30m que muda de lado, mas comemorado nas mídias como se fosse uma “vitória” de comerciantes indignados contra ciclovias.

eu imagino como deve observar esse episódio em específico alguém da alta classe londrina. devem ver com uma ampla curiosidade, surpresos com essa alegria pueril.

pois agora, findado o verão londrino, as bicicletas passam a usar para-lamas.  mas não deixam de ser usadas como meio legítimo de transporte que são e, na sua origem, da alta classe, não da baixa.

ingleses, escoceses, irlandeses, são habitantes de ilhas de clima frio e úmido, isso explica o desenvolvimento de vestimentas um pouco mais pesadas, como os ternos.

mas lembremos que ternos ingleses são vestimentas para pessoas que vivem, e não que ficam paradas como manequins, como não raro são feitos os ternos no brasil.

em algum lugar da escócia, abotoaduras e fixa.

em algum lugar da escócia, abotoaduras e fixa.

assim, britânicos em geral pedalam usando ternos, para seus trabalhos, para suas casas, para seus lazeres. aliás, gosto do estilo britânico das bicicletas, com selins brooks, bolsas carradice, para-lamas em alumínio…  meu selim preferido é o modelo b17 da brooks, produzido desde 1898, da mesma forma.

o fato é que uma certa classe média brasileira, paulistana, além de brega, é muito insegura. faz questão de  ir a restaurantes próximos às suas casas em carros, pois teme andar a pé. restaurantes e lojas, preocupados com esses clientes que sim, consomem muito seus produtos para afirmar sua classe social, preocupam-se esses comerciantes com locai para estacionar os carros fumacentos, mas mesmo esses comerciantes também não possuem lugar para estacionar os carros. assim, as ruas viram estacionamento, área privatizada momentaneamente pelos comerciantes para tanto, assim como fazem camelos com suas bancas nas ruas e calçadas.

polainas com refletivos, por dashing tweeds. clique na imagem.

polainas com refletivos, por dashing tweeds. clique na imagem.

na essência não há diferença entre essas atividades. é comércio, e é preciso acomodar os seus clientes, mesmo que em detrimento de todo o resto da cidade.

mas…. a próxima geração dessa pequena burguesia arrivista e carrólatra será diferente. com melhor acesso às informações e vivendo num mundo com outros valores, e claro, já segura de sua posição social, não terá os mesmos medos, e assim pedalará pelas ruas, seguros de si que serão esses que ainda virão ocupar as ruas no futuro.

pois são paulo vive hoje um momento de virada, como houve no século XIX. até 1827 a cidade era uma vila acanhada, cujas igrejas não tinham bancos e os homens assistiam as missas em pé, pelos cantos, e as mulheres, usando xales tao pesados que lembravam burqas, sentavam ao chão com suas mucamas durante os atos litúrgicos. a língua das ruas era o nheengatu.

mas em 1827, por ordem de d. pedro I, criaram-se dois cursos de direito n brasil, um em olinda, a se instalar no mosteiro de são bento, e outro em são paulo, no mosteiro de são francisco.

são paulo então recebeu professores estrangeiros e sobretudo os alunos, vindos de fora, alguns brilhantes, como o jovem manuel antônio.  o impacto na cidade foi brutal, com o surgimento de jornais, chegada de estrangeiros como líbero badaró e julius frank. foi sua primeira virada civilizatória.

hoje são paulo vive uma segunda virada civilizatória, que abandona o padrão industrial de pensar. são paulo não é mas a são paulo s/a de luiz sérgio person, outro egresso do largo de são francisco.

e agora, nas mãos do talvez mais bem preparado intelectualmente prefeito de são paulo, ex-presidente do c.a. XI de agosto, vive uma segunda virada civilizatória, na direção do humano, da humanização da cidade.  e, como toda grande mudança, não se faz de forma fácil e/ou linear.

sim, há as resistências toscas às mudanças necessárias. como há 3 décadas, os que temiam a chegada dos computadores pessoais nas empresas, ou há várias décadas atrás, achavam que o mundo iria acabar com as mulheres usando calças compridas e entrando no mercado de trabalho. os que hoje temem as faixinhas vermelhas pela cidade no fundo são os mesmos que temem o casamento entre pessoas do mesmo sexo (pois não perceberam que não ato obrigatório, mas facultativo e apenas para os gays!) ou então a entrada de negros nas universidades.

o conservadorismo é temeroso por natureza, e o que se apresenta como novidade causa temor. faixas vermelhas então? ó meu deus, o mundo irá acabar!

paciência, no fundo, é tudo uma questão de estilo mesmo. saville row rende-se a gary fisher e, sendo a rua sede de alfaiatarias de 200 anos ou mais, não teme a bicicleta. apenas pena saville row produzir apenas roupas para seu clima. pois talvez quem melhor entendesse de roupas para climas tórridos como os de são paulo (lembrando que acima de 18 graus o clima é tórrido), era o falecido flávio de carvalho, que, como eu, odiava o calor.

e, enquanto a segunda virada civilizatória não termina, aguentemos os temores dos bregas desinformados e carrólatras enquanto não surge em são paulo um alfaiate como o descolado parker dusseau, de san francisco.  afinal, quem melhor para vesti-lo que não um alfaiate que também é ciclista?

(p.s. antes de fazer seu discursinho pró-capacete, favor verificar se o seu é certificado pelo inmetro. se não for, oferece tanta proteção quanto um boné).

 

 

 

 

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