música

eu raramente ouço música pedalando. pois me atrapalha a concentração às vezes.

certa vez, há muitos anos, pedalando por santo andré tomei um tombaço numa esquina pois estava viajando na música. ouvia “viagem ao centro da terra” do rick wakeman, num walkman – sim, histórias do tempo das fitas cassete – e pluft! chão, ao ritmo de um solo de teclado.

não tenho desses aparelhos de mp3, e acho fones de ouvido às vezes de uma sonoridade pobre. mas às vezes ouço rádio pedalando.

muda tudo com música. é fato. mas em viagens não gosto. parece que a paisagem muda demais com música e perde-se o tempo do momento vivido naquele local. não consigo imaginar o ponto da br-280, no meio da descida da serra, onde gosto de parar a bicicleta e subir num muro de contenção da encosta, ficando a uns 5 metros acima da estrada, e olhar o vale adiante, ouvindo música. uma das coisas que gosto de ouvir ali é o barulho do vento na vegetação.

mas tenho colegas de pedal que não pedalam sem música. parecem ter horror aos sons dos ambientes por onde passam. ou sei lá, sentem-se sós, como disse uma amiga minha, que pedala com música pra não se sentir solitária (o que não entendo direito, pois a solidão é uma das características do ser humano, gregário por exelência, pero no mucho).

música tem o condão de nos isolar dos sons ambientes e nos transportar pra outros locais. quem já ouviu a sagração da primavera ou a nona sinfonia de olhos fechados, sabe do que falo. ou o terceiro movimento do concerto de verão das quatro estações, o meu preferido desta obra de vivaldi, tão conhecida pelos acordes dum dos movimentos do  concerto de primavera. o presto de vivaldi é algo que não tenho como descrever!

mas… e se não queremos estar isolados do local naquele momento? essa é a questão. há anos atrás um comprador de uma ferrari, americano, ligou para a fábrica e indagou sobre com deveria passar a fiação para os alto-falantes de um sistema de som que iria instalar. não ouviu impropérios, mas não muito delicadamente, a voz do outro lado explicou, como se tivesse sindo insultada, que a música que se ouve dentro duma ferrari é o ronco dos motores.

no caso das bicicletas, eu adoro o silêncio delas. aquele barulhinho de carretilha de alguns cubos campagnolo eu dispenso. gosto de bicicletas silenciosas, das quais mal se ouve o barulho dos pneus tocando o chão.

e é graças a esse silêncio que certa vez, descendo a estrada de manutenção da rodovia dos imigrantes num grupo reduzido, eu e daniel santini, entre outros, vimos muriquis.  muriquis fogem da presença humana, mas passaram sobre nós, pelas copas das árvores.  não os veríamos se não os ouvíssemos. e não os ouviríamos se houvessem fones de ouvido em nossas orelhas.

não ouço música nem nos audaxes. afinal, toda pedalada longa precisa de alguma forma ser bem sentida, vivida, e os sons do ambiente incorporam-se à paisagem. pena não ficarem registrados nas fotografias…

mas sim, quando pedalo com música, ela dita o ritmo das pedaladas. se pedalo com música em são paulo, é o celular funcionando como rádio, baixo, mas sintonizado na kiss FM, cuja programação é basicamente de rock. nunca esqueço do dia em que chegando à praça campo de bagatelle, a rotatória de alta velocidade que até alguns motoristas sentem desconforto ao por ali transitar, começou essa música, tão adequada ao local.

é, a relação entre música e pedal é sempre individual. o que não vale, apenas, é a música estar tão alta que não se ouça os veículos do entorno.  pois às vezes operigo não se faz ver, mas apenas ouvir.

 

 

 

3 Respostas para “música

  1. nos dois casos a sonzera é monstra, mas particularmente por segurança pessoal prefiro pedalar pela cidade sem som, uso um fome Bluetooth para atender o celular somente.

  2. Gostei como sempre, Odir. Acho música tão importante que não gosto de ouvi-la embaralhada com outros sons enquanto pedalo. E pedalar e interagir com o entorno é tão importante que não desejo a presença de música para diluir a experiência.

  3. Deixei de ouvir música pedalando por causa do trânsito muito barulhento. Ou teria que aumentar muito a música, e não ouvir as coisas em volta, ou ficar com dois zumbidos distintos nos ouvidos.

    Mas quando filmo alguma pedalada, geralmente fim de semana, gosto de escolher alguma trilha sonora. Música não diegética, se me permite o pedantismo😉

    Como isso, por exemplo:

    Abraços!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s