a ponte

e eu abracei a renata falzoni, e estávamos os dois, de alguma forma, emocionados. cada um à sua maneira.

um dos mapas que analisávamos

um dos mapas que analisávamos

não é só uma faixa vermelha, não é só uma lombofaixa, não é só uma discussão sobre qualidade de asfalto. é uma mudança de cultura. 

ver tanta gente ali que está há décadas trabalhando no trânsito de são paulo e só agora estão percebendo que trânsito é uma questão de direitos humanos e, portanto, é sim necessário que haja soluções para pedestres e ciclistas poderem transitar em territórios antes a eles proibidos, é uma mudança e tanto de cultura, pois falamos dos reais donos do poder, que não são os eleitos para os cargos de governo, mas os que compõem a burocracia de todo órgão  estatal desse nosso país.

não, o mundo não é perfeito e nem a ciclovia da ponte da casa verde o é. mas é um marco, um ponto de virada. ver uma lombada numa alça da marginal pra reduzir a velocidade dos carros que por ela afluem é algo fantástico, por mais que eu ache que essa lombada tenha que ser ainda mais alta. é fantástico por que quebra o paradigma da supremacia do carro  nas prioridades do tráfego, do ponto de vista das políticas públicas de trânsito.

pois como renata falzoni sempre afirmou, cansamos de ver papeis em gavetas: leis descumpridas, projetos de redes cicloviárias nunca implantados, e tudo feito a partir de um certo olimpo habitado por deuses e semideuses do planejamento que nunca consultavam nós, os mortais que vivemos n mundo real e sentimos a aspereza do asfalto e o vácuo que produz o ônibus que tira a fina, quando não a dureza do aço da carroceria do carro que nos atropela.

pois vimos o inverso. como citou meu amigo paulo lowenthal, o que vimos são pessoas perguntando dos trajetos que fazemos, e pensando junto em soluções. sim, pois quem projeta nem sempre vive o trajeto, e quem vive o trajeto nem sempre pode nele interferir. e juntar os dois pode ser a melhor forma de fazer surgirem as soluções.

as ciclovias e ciclofaixa ainda não estão perfeitas. ainda possuem asfalto ruim em muitos locais, ainda há pontos em que são precisas algumas intervenções aqui e ali. ainda acho que deva haver estrutura para se atravessar o viaduto da avenida pacaembu e o viaduto antártica. muita coisa a se reparar.

mas de fato, está se formando uma rede. é isso que estamos vendo emergir: uma rede cicloviária de fato, que como tal, não tem centro, por ser uma rede. no máximo tem nós.

e essa rede permite que muitas pessoas de fato usem a bicicleta, e não apenas ogros como eu que atravessam a campo de bagatelle todo santo dia. conte, nesse link, do ponto A ao ponto B, quantas saídas e entradas de alta velocidade há à direita. é insanidade fazer esse trajeto em bicicleta, eu sei. portanto, sirvo de parâmetro? não.

até recentemente, bicicleta em são paulo era basicamente apenas para os ogros. e digo, cansa ser ogro. às vezes dói no corpo, quando dum atropelamento. às vezes a musculatura casa de tanto sprint, todo santo dia.

pois uma coisa é treino de tiro na estrada, outra coisa é sprintar várias vezes pra escapar de ônibus, caminhão, carro… a adrenalina é outra, tóxica.

uma cidade de fato ciclável não exige isso. uma cidade ciclável é aquela onde qualquer um se sinta à vontade pra usar a bicicleta como transporte.

não, o mundo não é perfeito e ainda há muito o que se fazer para tornar a cidade de são paulo um primo de ciclabilidade. mas houve de fato uma inflexão. o caminho está correto, são apenas correções pontais de rotas a serem feitas daqui adiante.

pois já há obras na ponte das bandeiras e haverá intervenção na praça campo de bagatelle. haverá. qual? ainda não sei, mas haverá. e então dificilmente se repetirá o que aconteceu comigo em 2011.  pois a sensação de se sentir estatelado no asfalto, e o desespero para levantar e sair da via para não ser atropelado uma segunda vez

é fato, há uma mudança de mentalidade em curso. é isso que emocionou a mim e à renata, e ao takeda, e ao paulinho e a outros tantos.

o rumo foi corrigido e a são paulo do futuro será outra.  caminhemos, pois, ao futuro sustentável para a espécie humana só se chega a pé ou de bicicleta, e como diz a renata, a pé é muito devagar…

 

 

 

 

3 Respostas para “a ponte

  1. Muito bom perceber as coisas sendo esclarecidas em SP, que não é apenas uma mudança para os ciclistas é uma mudanças para as pessoas na cultura de paz, a bicicleta é um das janelas pra podermos enxergar tudo isso!

  2. muito legal….eu aqui paulistano que sou…biker que sou…mesmo longe abracei-os tambem…estamos vivos pra ver a mudança…e issoé emocionante…é emocionante…

  3. Parabéns a todos nós, ciclistas antes de haver a tal rede, e agora depois dela. E mais ainda a vocês que são pioneiros nessa luta que, no fim, é por todos, não só pelos ciclistas.

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