a ponte e o gueto

atravessar as pontes sobre as marginais hoje são o maior desafio para os ciclistas urbanos em são paulo. não pelas pontes em si, sua largura. mas pelo que as antecede e as sucede: as alças rápidas de acesso às marginais.

se as ruas fossem  fossem como ciclovias....

se as ruas fossem fossem como ciclovias….

curzio malaparte foi facista, mas depois atacou hitler e mussolini num livro. foi preso várias vezes. mas durante a II guerra, foi oficial italiano e acompanhou o que os nazistas faziam no leste europeu (vindo depois a lutar ao lado dos aliados). num de seus livros, “kaputt“, relata como nazis tratavam os judeus dos guetos do leste oriental. é uma narrativa do horror nazista, um livro estranho.

a estrutura viária das marginais de são paulo esteve sob administração do DER até pouco tempo. assim sua administração era feita do ponto de vista rodoviarista, pensando apenas em carros e caminhões.  assim, quanto mais recente a ponte, menos espaço ela tem para qualquer coisa que não seja motorizada. pontes antigas guardam vestígios de calçadas. as novas nem as possuem.

num dos guetos da então iugoslávia registou a diversão de alguns oficiais nazis: “caçar ratos”. os guetos estavam sendo fechados e com isso, o fluxo de víveres para dentro deles também. havia quem construísse túneis para conseguir contrabandear comida pra dentro do gueto.  no mais das vezes eram crianças e adolescentes que faziam isso, pelo menor tamanho do corpo. meninos em geral.

o motorista paulistano normalmente é um frustrado: compra um carro que anda bastante e, no rush, anda bem devagar. nos horários de pico, a velocidade média é de meros 15 ou 16 km/h.  mas quando a avenida está livre, ele acelera, e muito. há muitos “acidentes” por excesso de velocidade. pois nem toda estrutura é adequada para se ir acima de 70 km/h. pistas com irregularidades, curvas sem a inclinação adequada. um exemplo é a avenida pacaembu, com uma curva em seu túnel, sem a menor inclinação. carros e motos em velocidade acabam fazendo essa curva e invadindo a pista contrária ou indo parar na parede do túnel.  (já registramos a morte de um motociclista, numa noite, morte imediata ao chocar-se com um táxi em direção contrária).

“caçar ratos” era o trabalho “divertido” de alguns nazis em torno dos guetos. consistia em cumprir a ordem de não deixar ninguém sair ou entrar, mas de uma forma ainda mais perversa do que a própria ordem. tratava-se de ficar de um ponto alto com um bom rifle caçando, como se caçam animais, ratos, toupeiras, raposas, mas desta vez caçando humanos. 

o urbanismo paulistano tem se orientado, nas últimas décadas, única e exclusivamente em direção ao transporte motorizado. assim, formou gerações e gerações de técnicos que pensam dessa forma e não de outra. assim, é difícil para essas cabeças velhas entender outras prioridades que não o fluxo de carros e motos. pois muitos técnicos são contra até faixas exclusivas para ônibus.

hannah arendt acompanhou o julgamento do nazista adolf eichmann em ïsrael. do seu relato, elaborou o monumental “eichmann em jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal”. é um livro que não pode ser ignorado. nesse livro adrendt cunha a expressão hoje banalizada, “banalidade do mal”.

quando olhamos boa parte da cidade de são paulo, não encontramos quase nenhum espaço para pessoas que não estejam em veículos motorizados.  o asfalto preto toma grande parte das ruas, e pedestres espremem-se em calçadas, às vezes ultra congestionadas.  nos transportes públicos, tudo congestiona nos horários de pico: ônibus lotados, plataformas de metrô lotadas.

adolf eichmann, na visão de hannah arendt, não foi um carrasco sádico, mas um homenzinho desprezível e um grande administrador. isso, um administrador de um sistema.  de fato, uma pessoa que gerenciou muito bem a logística que permitiu o transporte de judeus aos campos de extermínio. 

o transporte congestionado nos horários de pico é a marca das cidades onde o urbanismo separou muito bem o local das atividades principais do local de moradia das pessoas. não é assim em qualquer lugar do mundo. é assim apenas onde a ocupação urbana se deu de forma errada, afastando a moradia das pessoas da sua atividade econômica. e aumentando os custos totais do transporte.

eichmann chegou a, nos anos 30 do século XX, tratar de alguma forma da criação de um estado judaico na palestina e transferência dos judeus da europa pra lá. viajou várias vezes pelo oriente médio. não era o sádico atirador “caçando ratos”.  mas foi a presa perfeita da “banalidade do mal” que hannah arendt percebeu: pessoas boas também participam de estruturas perversas. 

hoje os bairros de são paulo tem cor. quanto mais centrais mais brancos, quanto mais periféricos mais negros. quanto maior o trajeto a ser feito, mais escura a pessoa. o índice de brancos é maior na vila madalena que no jardim peri. sim, existe um aspecto de racismo estrutural na forma da ocupação da cidade, por mais que muita, mas muita gente negue esse fato. mas há. e sim, há brancos no jardim peri, como havia brancos no quilombo de palmares. e há alguns negros no jardim europa, raríssimos, mas há. são as exceções que que confirmam regras.

durante o nazismo, algumas famílias judias endinheiradas conseguiram fugir, gastando fortunas. mas a grande massa dos judeus, ao contrário das lendas anti-semitas, era de pessoas pobres. os endinheirados que fugiram foram explorados, no mais das vezes,  por quem permitiu de alguma forma sua fuga. esses enriqueceram durante o nazismo. compraram boas obras de arte por preços mínimos, instrumentos musicais, jóias  e etc. havia nazistas corruptos.

regina p., meyer, professora da fau-usp, declarou numa entrevista que no dia em que são paulo tiver 200 km de metrô talvez a cidade fique tão cara que os parentes dela não conseguirão morar nessa cidade. é fato isso, o processo de gentrificação avança fortemente na cidade.  aumentando o preço da moradia, o uso da bicicleta no lugar do carro é uma forma também de economizar, senão no preço do veículo, mas no preço do seu estacionamento.

o holocausto foi uma expressão máxima do racismo.  השואה não é um genocídio como tantos outros na história da humanidade. pois foram aplicadas técnicas de administração ao extermínio. como citado, a. eichmann foi um grande operador logístico. é a alienação do sentido do que se faz que caracteriza também a banalidade do mal.  é a fala do carrasco para a vítima: “só estou fazendo meu trabalho”.  enquanto isso a vítima tem seu corpo chicoteado, esquartejado…

enrique peñalosa, o prefeito de bogotá que interferiu no trânsito da cidade quando da sua gestão, certa vez declarou que ciclovias era importantíssimas para as camadas mais pobres da cidade colombiana: a economia chega a 20% da renda da pessoa. de fato, sabemos que quem passa a usar bicicleta como transporte transfere o dinheiro para outros consumos, de roupas a lazer, mas muitas vezes indo parar apenas numa alimentação melhor, para si e/ou para seus familiares.

o nazismo só foi possível graças a uma imensa indiferença de muitos, não apenas na sociedade alemã, mas em outros países, com o que acontecia com judeus, ciganos, homossexuais, testemunhas de jeová, artistas e doentes mentais levados aos campos. muitos até pensavam: “puxa, realmente, a situação do seu jacob é terrível, mas o que eu posso fazer?” essa indiferença é sempre a maior aliada de todas as grandes violências, das físicas às psicológicas.

mas interferir no transporte é fazer escolhas. quando se faz uma faixa exclusiva para ônibus, sim, está se retirando carros dessa faixa, pelo menos num certo horário. e claro, os contrários sempre afirmam não ser contra determinados, fatos, mas ser contra a forma como isso é feito. é o discurso de comerciantes em são paulo, é o discurso de alguns moradores de bairros e até de alguns agentes de trânsito, conforme eu já presenciei.

a soma de uma indiferença generalizada e de uma cultura da superioridade “natural” de alguns sobre os outros elegeu hitler governante da alemanha nos anos 30 do século XX. é preciso uma cultura da diferenciação em essência entre as pessoas para que os grandes genocídios, as grandes discriminações, a estruturas racistas se instalem. pois hoje há sim um racismo ambiental e estrutural, que relega aos mais pobres as piores condições em tudo aquilo que é do mundo da vida, da “gramática da vida”, para usar uma expressão de jürgen habermas. e há sim nazimos em achar que isso é natural.

e assim, técnicos indiferentes melhoraram a inclinação das alças de acesso às pontes, nas gestões passadas, de modo a carros chegarem mais rapidamente às pontes das marginais e suas avenidas contíguas, e motoristas fazem questão de andar rápido, indiferentes ao pedestre ou ciclista que tenta atravessar as alças. e outros recusam-se a meter a mão nesse vespeiro, não fazendo nada para evitar que isso aconteça, continue acontecendo.

o fantasma do nazismo sempre nos ronda. ele aparece das mais diversas formas, escondido nos cantos, disfarçado. às vezes ele vem disfarçado sob a frase: “eu não sou contra, mas…”, como fez o deputado joaquim de souza reis, em 21 de julho de 1871, que não era contra a abolição da escravatura, mas… mas a lei do ventre livre iria deixar as escravas insolentes dentro das senzalas, em razão de terem filhos livres… baixe o documento aqui e leia o discurso sobre “o elemento servil.” 

de fato, hoje, é sim um risco atravessar essas pontes em bicicletas. sobretudo à noite. quem trabalha até tarde, como eu, enfrenta riscos. não por falta de visibilidade, pois que atravessa pontes normalmente anda como uma árvore de natal, de tão iluminado. mas por que as vias estão mais livres e sim, os veículos todos aceleram e não respeitam a preferência das bicicletas sobre todos os demais veículos automotores. foi próximo à ponte das bandeiras, na praça campo de bagatelle, em sua rotatória gigante e amedrontadora até pra motoristas, que fui atropelado em 2011. o detalhe é que o motorista parou apenas pra me xingar, enquanto eu arrastava-me no chão. afinal, ciclista é inferior a motorista não é? meu crime era existir naquele momento naquele lugar. sim, eu não teria o direito à minha própria existência….

quando o inferior está em sofrimento, seu sofrimento é questão menor. o ovo da serpente está sempre sendo incubado quando questões essenciais para um outro grupo são consideradas menores. quando a questão das pontes, por exemplo, é um mero estorvo, e não uma questão de direitos humanos, de proteção ao princípio da dignidade humana. o nazismo, antes do extermínio, tirou a dignidade dos judeus. antes de matá-los, tornou-os indignos da vida. 

hoje, a travessia das pontes e viadutos por pedestres e ciclistas, nos locais onde ainda não foram construídas estruturas de proteção, são sobretudo indignas. no caso da travessia da ponte da cruzeiro do sul, no sentido centro bairro, as faixas de pedestres são ignoradas pelos motoristas que não diminuem sua alta velocidade ao saírem da avenida cruzeiro do sul em direção à marginal.  pessoas com sacolas de compras correm como loucas, em direção ao outro lado onde está o terminal tietê. como se atravessar a via fosse um crime, e não o exercício do direito de ir e vir.

vida digna é o motor dos movimentos sociais. pessoas lutam por moradia, renda, transporte, saúde. o mínimo para se viver, nos limites mínimos da dignidade. quem tem pouco ou nada a perder sempre luta muito. e não se convence apenas com meros discursos, mas com soluções efetivas. e, de fato, endurecem seus corações nessas lutas. tornam-se extremamente corajosas nas suas lutas. por isso o movimento de moradia é tão aguerrido: são pessoas lutando por um local fixo para morar. uma moradia digna.

apenas quem passa os terrores das travessias entende o quanto há de descaso na solução desses problemas. descasos que estão presentes em todos os locais onde não há quem atravesse. sim, como dizem os racionais, na música, bem lembrado pelo naílson lá da zona sul, o mundo é diferente da ponte pra cá. e claro, até quem pedala por aí, mas não atravessa ponte, não liga para essas questões.

são paulo criou uma forma bem refinada de racismo, o just in time de gente. o cidadão acorda e chega no trabalho justo no tempo de trabalhar, sai e chega na sua faculdade , no seu curso noturno, justo no tempo de assistir as aulas, e sai da faculdade justo no tempo de chegar em casa e dormir algumas horas, e assim se repetem os dias. nem no final de semana percebe como é sua casa, pressionado que está para consumir tempo e dinheiro na rua: filas para entrar no cinema, para estacionar o carrinho velho num supermercado, pressionado por uma série de problemas criados apenas para mantê-lo dominado.

o hoje militante do movimento de moradia é filho daquele que nos anos 70 esperava a casa do BNH para comprar e não foi construída. quando bandeiras sociais não são contempladas além do discurso, mas na prática, é comum que as ações se radicalizem. isso é da natureza dos povos. a pesquisa do ibope encomendada pela rede nossa são paulo indica 600 mil viagens/dia em bicicleta no município, e esse número tende a crescer ainda mais. 80% da população aprova a criação da rede cicloviária. passou do tempo de procurar soluções rápidas e pragmáticas para a travessia segura. se as pontes, suas alças de acesso e as vias locais das marginais tivessem velocidade máxima, fiscalizada fortemente, de 30 ou 40 km/h, nenhuma estrutura precisaria ser construída, pois a convivência seria possível.

existe muito de nazismo no raciocínio de que a travessia de pedestres, ciclistas e cadeirantes deva ser sacrificada em nome da velocidade dos motorizados. é fato, e como nos lembra wittgenstein no tratactus, “o mundo é a tolidade dos fatos, não das coisas”. existe muito de nazismo quando faixas são pintadas de vermelho e não há guinchamento do veículo nela estacionado. existe muito de nazismo na fala do agente de trânsito que diz que o ciclista não deve estar na avenida. existe muito de nazismo no não treinamento dos motoristas para passarem ao longe de bicicletas que trafeguem na via. 

existe urgência na interferência na forma como hoje estão configuradas as pontes, suas alças, seu entorno. se ainda não aconteceu uma morte, foi por sorte, como ontem, quando um caminhão “lambeu” a mim numa dessas alças, às 23 hs, quando eu voltava do trabalho. por meros centímetros estou aqui vivo e incólume escrevendo esse texto. sim, foi quase. e passei a noite me perguntando por que é que eu, que me desloco sem poluir, sem fazer barulho e sem sobrecarregar o viário, é que devo correr riscos como se estivesse cometendo crimes ao pedalar pela cidade, e não quem acelera e polui.

quando os movimentos sociais se cansam, se radicalizam. o mpl moveu multidões pelo cansaço com o descaso de governantes. junho de 2013 parece ter sido uma lição não aprendida por muitos, e estamos no meio do circo processo eleitoral. mas se em algumas manifestações as pedras foram contra agências bancárias, elas serão muito mais comuns se forem contra o aparelho estatal ineficiente. em itu-sp, a população manifestou-=se de forma violenta por conta da falta de água. se um dia algum trabalhador for atropelado numa ponte, quem sabe o que pode advir como reação?

mas lembrei que sou periférico e, como tal, minha vida vale menos… pois quem não mora no centro expandido, mas está além pontes, está na periferia, não importa seu poder de compra. e periferia é periferia. e eu que corra riscos, como tantos mais, pois somos cidadãos inferiores, até que sim, toda ponte sobre a marginal tenha uma travessia segura e rápida por bicicleta, a pé, ou cadeira de rodas.

 

7 Respostas para “a ponte e o gueto

  1. Odir, você se supera a cada post. Parabéns!
    É um prazer ler um texto com tanto conteúdo e ao mesmo tempo tão “saboroso”.
    Mas inegavelmente me assusto com cada vez que você usa a palavra “quase”, pois sei o que vem depois.

    Fique vivo meu caro. Sua voz é muito importante!

  2. Quem compara o trânsito, a demografia, ou passeios de bicicleta com nazismo está demonstrando desconhecimento da história ou uma falta de respeito por quem sofreu de verdade com o nazismo.

    Leia sobre a Lei de Godwin, quem sabe isso não lhe ajude um pouco.

    • não vou expor a minhas relações pessoais com a shoah. mas a citação em hebraico no texto não é aleatória. sobre as relações sutis explicitadas no texto, favor conferir “as origens do totalitarismo” de hannah arendt.

  3. Ter relações com a Shoah não lhe concede direito de banalizar o nazismo.
    É o clássico “tenho um amigo gay, logo não posso ser homofóbico”.
    Totalitarismo e nazismo são diferentes (apesar de um fazer parte do outro a recíproca não é verdadeira).
    Controle essa sua mania de reforçar suas idéias com analogias nazistas.

    • 1. releia meu texto. 2. o eixo não e a shoah, mas a forma como se estabelece uma administração pública perversa. por isso as menções recorrentes a hannah arendt, não a primo levi, por exemplo. 3. sim, hannah arendt, em “eichmann em jerusalém”, vai muito além do nazismo e enxerga na administração pública, qualquer delas, a banalidade do mal. 4. se qualquer citação à shoah é banalização, então discutir qualquer coisa em torno do conceito de soberania, que passa por carl schmitt e seu conceito de soberania seria proibido, e 90% das aulas de direito de estado que eu assisti seriam banalização. 5. não existe como discutir administração pública e seus dilemas orais escondidos debaixo das escolhas técnicas, pseudo neutras sem tocar no tema. 6. favor ler “a questão da técnica” do m. heidegger, pra entender a não neutralidade da técnica.

  4. E o que vc me diz de um comentário meu, no post anterioir, que vc agindo como censor, fez questão de não publicar?
    Isso é nazismo? totalitarismo?

    • nem vi… em todo caso, favor lembrar que é um blog pessoal, sem patrocínio, e esses anúncios que às vezes aparecem, são do wordpress. quando tiver tempo livre, vou ver pq não saiu publicado.

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