as segundas mortes de márcia e julie

se houvesse uma ciclovia na avenida paulista desde 2008, márcia regina de andrade prado (2009) e juliana ingrid dias (2012) não teriam morrido atropeladas por ônibus.

márcia prado eu não conheci, mas muitos dos meus amigos conheceram. julie era minha amiga.

julie dias

você que lê esse texto sabe o que é angústia que se sente ao ouvir que alguém foi atropelado numa via onde vários amigos seus transitam? e o desespero em saber que é uma pessoa amiga que foi morta apenas por estar em sua bicicleta?

espero que não saiba. espero sinceramente que nunca venha a saber, pois dói demais. eu soube da pior forma: vivenciando.

eu não sei quais foram as últimas palavras de márcia, se as proferiu, instantes antes do ônibus fechá-la e atropelá-la. eu sei que julie acenava e gritava par ao ônibus que vinha da direita: “olha eu aqui!”, e então foi derrubada e o ônibus que vinha atrás atropelou-a, mesmo sem intenção por parte desse segundo motorista.

“olha eu aqui” é o grito de todo ciclista numa cidade onde até pouco tempo ciclistas eram invisíveis. mas em havendo um prefeito que os vê, e começa, bem ou mal, construir finalmente uma estrutura cicloviária permanente e não faixas provisórias dominicais. uma estrutura volta a pessoas como márcia e julie, que usavam a bicicleta diariamente, e não apenas aos domingos, que aparecem os assassinos….

existem várias formas de cometer-se um crime: a ação direta, a omissão, a ação contrária ao ato que protegeria contra o crime… aquele que dá a arma ou, podendo, não impede seu uso, também não é responsável pelo resultado?

pois é. bastou a municipalidade anunciar finalmente a construção duma ciclovia na avenida paulista que os assassinos e os seus asseclas colocassem as manguinhas de fora. para eles qualquer argumento é válido para não se construir uma ciclovia:

– retirada de vagas de carros…

– atrapalhamento de entradas de igrejas, bingos, clubes de xadrez ou bocha…

– estreitamento de vias com 4 ou 5 faixas

quando a municipalidade encontrou uma forma de construir essa ciclovia sem mexer em pontos de ônibus, sem diminuir faixas de rolamento (estreitando-as em 20 cm de cada lado, lembrando que são 4 faixas de cada lado da avenida paulista) e instalando-a no canteiro central, sem atrapalhar a entrada de nenhum imóvel, tiveram que achar um outro argumento. desta vez, foi uma pretensa proteção ao entorno do masp, leia aqui os argumentos .

aloysio nunes ferreira chega a chamar a ciclovia de resultado do “delírio autoritário” do prefeito.

está escrito no   שמות  (êxodo):  לא תרצח  (não matarás).

esse mandamento é um delírio autoritário? ou uma norma de bom senso para que humanos possam conviver em paz?

aquilo que é feito para proteger vidas não pode ser feito com urgência?  alguém acusa uma organização como os médicos sem fronteiras de serem autoritários ao não pedir autorização para entrar os locais onde as calamidades grassam e dar assistência aos desvalidos? e quanto os bombeiros arrombam uma porta para salvar pessoas de um incêndio são acusados de invasão de propriedade?

a construção de uma estrutura cicloviária em são paulo, aliás em são paulo inteira, está atrasada, é urgente. não apenas para proteger a vida de ciclistas mas também diminuir o uso de carros e proteger a vida de todos aqueles que sofrem com a poluição, e eventualmente morrem em razão dela.

mas os que, por motivos diversos, querem que genocídios aconteçam odeiam organizações como a dos médicos sem fronteiras. os que querem que continuem a morrer 4.600 pessoas ao ano só em razão da poluição em são paulo também odeiam estruturas cicloviárias.

é. eu tenho saudade da minha amiga julie. muitos dos meus amigos também, assim como têm saudades de márcia. e hoje sabemos quem mais, além dos dois motoristas de ônibus, mataram julie e márcia, e continuarão matando.

eles estão por aí, botando um monte de empecilhos, burocratizando, partidarizando, e atravancando a construção de ciclovias em são paulo. pois todos os que apunhalaram césar o mataram. e estão todos soltos por aí.

e a nós, sobra o último grito de julie: “olha eu aqui!”. e um dia seremos muitos, e seremos a maioria. até lá, nos resta sobreviver ao trânsito e a essa corja assassina. pedalemos pois.

5 Respostas para “as segundas mortes de márcia e julie

  1. pedalemos pois…só assim…manteremos viva a memória, a cidade e a civilidade…pedalemos pois.

  2. O PSDB vai entrar com ação para impedir a ciclovia na Paulista

  3. Viu o resultado da nova pesquisa da Folha sobre a aprovação das ciclovias e das faixas exclusivas de ônibus?

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