a menina e a ponte

pontes, em tese, são para ligar locais separados por rios ou vales profundos. mas desde sempre quem controla as pontes controla as passagens por ela.

quando criança eu adorava um filme de guerra chamado “a ponte do rio kwai“.  perdi a conta de quantas vezes vi esse filme, repetido nas sessões da tarde…

mulher em sua bicicleta, no jardim helena, são paulo. foto de Antonio Miotto

mulher em sua bicicleta, no jardim helena, são paulo. foto de Antonio Miotto

mas como bom filme de guerra, não aparecem mulheres. claro, mulheres são mais espertas que homens e não correm esses riscos. são os homens que mais morrem em acidentes de carro em alta velocidade. são os homens que morrem em motos a 200 km/h nas estradas e mesmo nas grandes avenidas das cidades. mulher não é besta como homem. pelo menos não grande parte delas.

não é à toa que não vemos quase mulheres atravessando as grandes e perigosas pontes sobre as marginais e rios de são paulo.  são pontes com acessos rápidos e saídas rápidas, sempre à direta da via. uma saída e um aceso da marginal antes da ponte, e depois da ponte uma saída para margina e uma entrada da marginal para a avenida que segue além da ponte. essa é a configuração mais comum. clique nesse link aqui e conte quantos acessos e saídas à direita, portanto com veículos que podem cruzar na sua frente e/ou entrar na sua frente, temos nesse trecho de 3 quilômetros.

esse é um trecho dum caminho que faço com frequência, há anos. já vi vários ciclistas aí. nunca vi uma mulher pedalando nesse local.

e o porquê disso? pois esse trecho exige sprints fortes, paradas bruscas, e alta tolerância a riscos. não à toda foi justamente nesse trecho onde tive meu atropelamento mais sério. é uma área inóspita para ciclistas na cidade de são paulo. e só se veem ciclistas homens, sempre correndo riscos. tanto na ida quanto na volta.

pode não parecer, mas há formas refinadas de discriminação. são as formas estruturais. são as formas como um ambiente é configurado de modo a fazer com que determinadas pessoas sintam-se mal naquele lugar e, assim, não o frequentem.

o urbanismo de são paulo segue essa lógica. em muitos locais o ambiente está formatado com a finalidade de assustar e afastar pedestres, ciclistas e cadeirantes.

e as primeiras pessoas a serem fastadas do local, em razão da violência possível que está implícita naquele ambiente, são as mulheres, que, justamente por se afastarem dos ambientes onde a violência é possível, vivem muito mais que os homens.

homens morrem mais por excesso de velocidade, por suicídio, por uso de armas.  homens têm expectativa devida mais curta, em geral. homens pedalam atravessando as pontes sobre as marginais. e homens são a grande maioria dos atropelados em cima de bicicletas nas periferias de são paulo.

esse urbanismo de são paulo, no que tange ao viário, no que tange ao entorno das marginais e suas pontes, é estruturalmente machista. é a forma de fazer com que mulheres não motorizadas não saiam de seus bairros. não acessem o centro expandido ou não saiam dele. pode até não ter sido pensado assim, mas é assim que funciona.

se queremos ser uma democracia, urge combater esse urbanismo machista. urge transformar a região das pontes em geral em locais onde ciclistas, pedestres e cadeirantes transitem em segurança, e não em áreas onde só os ogros pedalam.

pois eu mesmo estou cansado de pedalar só nessas áreas. todas as vezes que alguma namorada acompanhou-me ouvi depois a mesma fala: “nunca mais eu passo ali”. é o instinto de autoproteção.  imaginem então uma mulher em sua bicicleta  com um filho na cadeirinha?

pois com uma criança na cadeirinha ninguém sprinta pra chegar a 40 ou 50 km/h e escapar do carro ou ônibus que venha rápido da alça lateral. ninguém. nem homens. nem ogros.

dá para sprintar carregando filho na bicicleta? foto de Antionio Miotto

dá para sprintar carregando filho na bicicleta? foto de Antionio Miotto, no jardim helena.

cidadão ou cidadã é quem habita a cidade e tem o direito à mesma. direito não apenas de usar a cidade como hoje ela é, mas também de construir como ela será ou deve ser, de modo a não ser exclusiva para alguns, mas verdadeiramente inclusiva. mas como fazer isso se o mais básico dos direitos do cidadão ou cidadã, que é o direito de ir e vir pelas próprias pernas, é ferido pela sua estrutura viária?

mas talvez as coisas estejam dessa forma há tanto tempo que ninguém mais percebe tamanha exclusão materializada pelas marginais e a travessia das suas pontes. nem o velho engenheiro da CET que nunca projetou uma calçada até as feministas dessa cidade, passando pelos movimentos de moradia e até por vários cicloativistas.

mas falar de ponte se tornou assunto chato…  “você parece uma daquelas mulheres chatas que só falam de estupro“, criticou-me uma vez um coleguinha de luta, quando perguntei por que um certo projeto de via ciclística não ia além da ponte subsequente àquela avenida. criticou assim simultaneamente a mim e à todas as mulheres que lutam contra violências, na mesma frase.

mas ok. ponte é assunto chato, ninguém quer resolver, ninguém tem coragem. mas uma verdade manter-se-á: enquanto não houver formas de se atravessar todas as pontes sobre as marginais, a pé, em bicicleta ou cadeiras de rodas, essa cidade terá um viário excludente e machista.

e enquanto isso perdurar, a menina continuará segurando o guidão da sua bicicleta e mirando a ponte à frente, sem poder, no entanto atravessá-la.

(esse texto é dedicado à renata falzoni, que fez aniversário essa semana e que certa vez declarou que, apesar de ter pedalado por mais de 20 países, não atravessa pontes sobre as marginais de são paulo pedalando nem andando. )

 

 

 

 

2 Respostas para “a menina e a ponte

  1. “imaginem então uma mulher em sua bicicleta com um filho na cadeirinha?” isso é inimaginável, não dá, não é possível. Estou ensaiando a bike que acopla na minha, canadian XTRail pra Nina pesalar até a escolinha. Dos 7 aos 9/12/14, depende da criança e do tráfego existe o chamado “GAP” odeios palavras metidas, entnao existe o intervalo entre a cadeirinha e a pedalada da criança na rua. Não quero colocá-la pra pedalar na calçada, ela disse não querer, quero ela na rua, é um direito nosso… e somos excluídas (sem ter ponte) imagina com ponte

  2. Algumas vezes tive que passar pela ponte do Limão, à noite, sozinha. No mesmo dia, dois sustos, um a caminho da Casa Verde, um motoqueiro e um automóvel se trombaram na alça de saída para a Marginal. Quando parei no grupamento do Corpo de Bombeiros do outro lado pra avisar do acidente, dois bombeiros se entreolharam, um terceiro estranhou meu aviso, achou que eu era uma senhora fora do senso – ou que estivesse alcoolizada -, por passar pela ponte de bicicleta. E eu estava toda produzida para um evento. Ficaram parados na minha frente, pensando… Aí eu falei brava: Então? Vocês não vão fazer nada? Querem que eu assine algum papel? Aí começaram a se mexer.
    Na volta, pela mesma ponte, lá pelas 23:40, uma cegonha, carregada de automóveis, subindo pela alça da ponte, resolveu acelerar, buzinando, quando me viu à frente, subindo para a ponte. Gente, aquilo foi um filme de terror. Aquela buzina e o som do motor não me deixaram dormir naquela noite.
    Pensar que eu tenho que passar por lá ainda muitas vezes,,,

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