migalhas

domingo foi um dia… com uma tristeza escondida. domingo, 24 de agosto, fez um ano que meu amigo foi assassinado morreu em cima de sua bicicleta. igor gabia. ontem, 25, houve uma missa, à qual não pude ir, por estar trabalhando no mesmo horário, e também um passeio de alguns ciclistas pela s novas ciclovias instaladas ali na santa cecília e barra-funda, bairros de são paulo.

em parte foram pra ocupá-las, em parte para conhecê-las.  hoje há um outro perfil de ciclista nas cidades: o novato, classe média, já vindo numa bicicleta urbana, adepto do hype, às vezes hipster, adora o cycle-chic, e etc.

e eu acho bom que essas pessoas estejam pedalando. é a classe média finalmente aderindo à bicicleta. 

há anos atrás só tinha 3 tipos de ciclistas nas ruas de são paulo: speedeiros, mountain-bikers e peões de obra. bicicleta com para-lamas era barra -forte ou barra circular.

e a preocupação era simplesmente não morrer. e não tomar geral da polícia só por estar numa bicicleta. lembro que, em 1994, quando num sabadão fui do jaguaré a santo andré numa caloi aspen (em aço carbono, pelo menos essas não quebravam à toa) fui parado na marginal pinheiros e depois na avenida bandeirantes.  um guarda me chamou de louco. outro pediu meus documentos (não mostrei a carteira da OAB, só o RG) e perguntou pra onde eu tava indo e por quê de bicicleta. estava indo visitar meus pais e menti dizendo que estava sem dinheiro pra condução. foi ali pertinho do cruzamento da bandeirantes com a moreira guimarães.

acho que tomo finas em cima da bicicleta dese sempre. já fui atropelado 3 vezes, uma a pé, as outras duas em bicicleta. só uma vez tentaram me levar a bike enquanto eu estava em cima dela. escapei.

escapei de muita coisa, mas meu amigo igor não. na verdade basta um fato só para que um grande dano, uma grande dor, aconteçam.

domingo, minha forma de homenagear meu amigo foi trazer mais alguém pra bicicleta. uma amiga de longos anos atrás. a fiz pedalar além da conta, mas apenas nos locais seguros: o centro expandido.

sim, o centro expandido de são paulo é mais seguro. o asfalto é bem melhor, em termos gerais. nenhuma das novas ciclovias da cidade, que não primam pelo asfalto liso, é mais esburacada do que todas as ruas num raio de 1,5 km da minha casa. aqui nesse link uma curva onde normalmente eu passo a 40 por hora. nesse trecho tudo treme. pois não dá pra usar pneu largo: segura muito a bike. e nem suspenção: pesa e deixa a bike lenta nas subidas. e sabe como é: em rua estreita a gente às vezes tem que sprintar na subida pois o ônibus que vem atrás não tem espaço pra desviar. as bicicletas precisam ser rápidas, portanto duras.

é fato, grande parte dos ciclistas mortos em são paulo perdem suas vidas fora do centro expandido. é fora do centro expandido onde o asfalto é pior, onde não chegam os marronzinhos da CET, onde não há fiscalização e onde os carros só tem a velocidade limitada pelo trânsito ou pelos buracos. como nessa via, cujo asfalto é todo irregular, embora isso não fique claro nesse link. ela é toda cheia de remendos que afundaram. a bicicleta treme… e é uma descidinha.

fora do centro expandido somos espremidos, quando em cima da bicicleta. nesse link aqui, um trechinho da rua maria amália lopes azevedo.  dá pra ver a qualidade do asfalto, sempre castigado pelos ônibus da viação sambaíba (é nessa rua que fica uma das garagens dessa empresa). se abriu o link, dá pra ver que o asfalto é ruim e a sarjeta ainda pior. e a via é estreita, bem estreita. calçada não é uma opção.

esse é o padrão do asfalto fora do centro expandido de são paulo. não à toa quem pedala só pela sua região adora um pneu largo como o kenda flame. se eu só rodasse no meu bairro, usaria esses pneus: largura de 2.125!

mas com pneus largos a bicicleta fica lenta. e quem atravessa ponte precisa sprintar. e nem sempre o asfalto é bom. nesse link, veja o remendo no concreto da praça campo de bagatelle. uma concessionária quebrou o concreto pra passar uma tubulação embaixo. e claro, remendou com asfalto. e claro, remendos…. no link até que tá bonito. ali o asfalto não dura 3 ou 4 meses sem abrir um monte de fissuras. e a não ser que o trânsito esteja 100% parado, não se anda na campo de bagatelle a menos do 35 km/h. por uma questão de segurança.

em 2011 eu fui atropelado nesse trecho da campo de bagatelle. relato aqui.

mas passando a campo de bagatelle e a ponte, é só alegria. asfalto bom. ou então menos ruim. é incrível a diferença geral da qualidade da estrutura viária quando a gente sai do centro expandido. pra qualquer lado da cidade é assim.

são paulo sofre de uma discriminação estrutural sistemática na administração da cidade. embora o prefeito atual, fernando haddad tenha nos surpreendido, é fato que 90% dos funcionários concursados da prefeitura foram formados no perfil burocrático-autoritário-elitista que sempre marcou a administração pública da cidade nos últimos… 200 ou 300 anos, com raras e notáveis exceções.

é só perceber a estrutura da CET: pequena para estar na cidade inteira a contento. não vai ser em uma gestão que se muda isso. sem falar no sem-número de técnicos de trânsito com formação atrasada e carrólatra, que ainda não entenderam que o padrão de mobilidade das cidades grandes do mundo está mudando.

(o ideal seri ano mínimo duplicar o número de funcionários da CET, mas daí já dá pra imaginar amídia paulista falando em cabides de empregos e trens da alegria…)

há muitos técnicos empenhados em mudar o padrão de mobilidade da cidade. mas enfrentando dilemas e barreiras diárias.  e trabalhando que nem uns doidos pra dar conta de uma demanda que é grande pra própria estrutura de gestão de trânsito da cidade.

são paulo é uma cidade caótica com soluções difíceis. e que sempre foram pouco acessíveis das pontes pra fora. ainda o são. enquanto ciclistas do centro expandido reclamam dos parcos buracos das ciclovias e ciclofaixas já construídas, os da ponte pra fora estão ansiosos pra chegada de faixas vermelhas sobre as pontes e em nossas maiores avenidas.

pois o que pra quem está de barriga cheia são migalhas e comida a ser jogada fora, pra quem tem fome é alimento necessário. pois sim, a morte ronda por perto.

bom, uma coisa eu sei. eu ando muito cansado. sinto falta dos meus amigos  igor gabia e julie dias, que não puderam ver essas mudanças na cidade, e estou cansado dessas pessoas que querem frear o processo de construção dessa estrutura, pois desprezam o risco que eu e outros corremos todos os dias.

eu só queria ser um ciclista qualquer, e não um selvagem da bicicleta. eu só queria que os músculos das minhas pernas fossem o resultado de finais de semana subindo serras, e não de sprints diários fugindo de carros, ônibus e bicicletas;  e estou cansado de pedalar sozinho nos caminhos que sou obrigado a fazer, se quiser sair de casa de bicicleta. pois até o pedro está desistindo de pedalar no meu pedaço, por conta das finas e fechadas.

é. talvez meu cansaço seja só o ar poluído que eu não poluí, e a falta de água que eu não gastei.

mas tudo poderia ser pior: eu poderia estar dentro dum carro em uma cidade administrada por quem hoje ainda administra (mal) o estado. quem sabe um dia as coisas de fato mudem.

quem sabe um dia a cidade de fato mude, e seja habitada por cidadãos, e não meros conservadores consumidores. e então ela será melhor e mais habitável, uma cidade de verdade.

 

 

 

 

Uma resposta para “migalhas

  1. Você não está sozinho, lembre-se disso. Pedalo 3 dias por semana Itaquera/centro/Itaquera, sei como sente, é uma droga encarar tudo isso, mas é necessário, faz parte da mudança. Permaneça constante! Nosso trabalho de mudar a cidade vai ter efeito. Aos poucos, mas vai.

    Abraços e boa sorte!

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