uma foto

eu não sei dizer a cor exata dos seus olhos. eram claros, às vezes me pareciam verdes. às vezes não. os cabelos lisos e negros.

tinha um silêncio sagaz, e uma capacidade de falar algo bem incomum como se fosse a coisa mais natural do mundo. um ou outro comentário bem mordaz com um sorriso maroto. bem mais nova que eu. e um olhar luminoso.

uma foto guardada, uma imensa saudade

uma foto guardada, uma imensa saudade

bem mais nova que eu, e crescida distante de mim. quando criança, ela e a irmã, vicky, eram dois pares de bochechas com cabelo chanel. cresceram lindas. vieram à formatura de minha irmã, e um dia saímos todos a excursionar por são paulo. no masp eu e caro ficamos de alguma forma grudados. vimos todos os quadros e peças do museu juntos. ela tinha um interesse por arte incomum. pintava. nos deliciamos discutindo velázquez e toulouse-lautrec. vicky, mais nova, estava de mal de mim naquela tarde. eu havia aprontado com ela, e caro rira muito. caro, e não carol, como minha sobrinha. caro, carolina. diminutivo entre nós. carol na escola talvez. não entre nós.

caro, cariño, te echamos de menos…

a foto acima é daquele dia. tinha 14 anos.

cursava duas faculdades. um interesse grande pela área de humanas, assim como vicky, eu, amanda, e outros tantos de nós. ainda lembro da sua forma de rir. seus cabelos negros (ora longos, ora curtos) e aqueles olhos luminosos. aquele sorriso.

saudade às vezes é uma palavra muito pequena. tem muitas coisas que não cabem em letras. nessas horas entendemos a imensa limitação das nossas racionalizações. há coisas que não superamos, apenas aprendemos a suportar. e daí cada um segue do jeito que dá. mas saudade realmente é uma palavra muito pequena. sete letras apenas.

era o dia 07, às 5 da manhã. voltava num táxi para casa, com um amigo. o taxista também conhecido. trafegavam pela rua nilo cairo.tinha 22 anos.

existem os ébrios, existem os que estão com os humores alterados por diversas substâncias. e existem as armas. quando se juntam, problemas acontecem. problemas não acontecem se os meios não estão disponíveis. mas ali estava a combinação trágica. um bêbado e uma arma de quatro rodas, que abalroou aquele táxi, às 5 horas do dia 07 de agosto. 10 anos no exato momento da publicação desse texto.

cada um leva adiante do jeito que dá. eu transformei meu luto num motor interno, numa militância que não é exatamente apenas pela adoção das rodas raiadas, mas pelo abandono dos motores. motoristas matam muito, motociclistas morrem muito. ciclistas apenas são mortos. como escreveu meu tio um ano depois: “vítimas sim, que assim seja, agressor jamais.” escrita muito dura para quem no dia dos pais de 2004, 08 de agosto, enterrou a filha no túmulo que minha avó comprara para si.

é irreal pregar uma abstinência generalizada. humanos drogam-se: café, álcool, maconha, cocaína, diazepan, o escambau. mas se vamos correr, melhor não ter tesouras nas mãos, não é? mas aquele motorista não estava numa bicicleta, mas num carro.

pois é. então se deve deixar de usar os carros, mesmo quando não se tem a intenção de matar? motoristas matam no mais das vezes sem intenção…

é preciso criar uma cultura do transporte não motorizado. é preciso transformar todo pedaço de asfalto em via ciclável, mas não apenas isso. ensinar a usar a bicicleta não apenas num ensolarado domingo usando roupas de final de semana. é preciso saber usar em dia de chuva com a sua roupa de trabalho ou aquela de ir à balada.

é preciso saber consertar a bicicleta na rua, é preciso lutar por lugares onde estacionar a bicicleta, assim como vias protegidas em determinados locais. é preciso desalienar o ciclista da sua própria bicicleta.

é preciso criar uma cultura de baixo carbono, ou seja, desestimular o uso de automóveis, e a adoção do transporte coletivo e dos meios não motorizados. portanto, é preciso também mudar nossas cidades, intervir nelas, torná-las espaços seguros sim para a vida.

ora, mudanças necessárias para que mais famílias não passem a dor que minha família passa. pois reitero: luto não se supera, apenas se aprende a suportar. pois há coisas que são de uma natureza que as palavras não conseguem conter: um filho que perde os pais é órfão, mas e os pais que perdem a filha, que nome se dá a eles? que nome se dá ao irmão e irmã que perdem a irmã? ao primo ou prima que perdem a prima? ao tio ou tia que perdem a sobrinha?

pois há famílias, às vezes imensas, no entorno daquele que se vai.

sim, é preciso rever hábitos e deixar de contribuir para a divulgação da cultura motorizada. desligar a TV durante a corrida de F1, por exemplo (por isso não se irrite quando digo que ayrton senna não é meu herói nem modelo pra ninguém, por ter sido um difusor da cultura motorizada). é preciso sim rever nossas preferências e parar de glamourizar os motores.

pois assim paulatinamente diminuiremos as tragédias, pois as mortes naturais são mais bem aceitas que as trágicas. infelizmente afirmo isso por experiência própria, e espero que ninguém tenha que concordar comigo por passar pela mesma experiência, que não cabe numa palavra de apenas três letras: dor.

pois, passados 10 anos, uma simples foto adquire outro status: relíquia. alguns espaços ficam intocados, ou objetos são doados ou então guardados. em alguns momentos, nas reuniões de família, um coração aperta e aqui ou ali uma lágrima surge em meio a um sorriso triste.

lembranças, saudades, tristezas.

então, que as pessoas entendam que ciclovias não atrapalham a vida de ninguém, muito antes pelo contrário, salvam vidas, e não falo da vida dos ciclistas, mas dos que ao pedalar em vez de dirigir, por impossibilidade de meio, deixarão de matar e aleijar. pois se aquele motorista bêbado estivesse numa bicicleta, hoje seria um dia como qualquer outro para nós. mas não é. e um vídeo como o abaixo postado, não seria tão dolorido de se ver.

pois “mais amor, menos motor” não é apenas um slogan, mas um lema de vida, para todos nós que muitas vezes temos como relíquia apenas uma foto.

 

 

 

 

7 Respostas para “uma foto

  1. Emocionado com o texto! Sensacional Ogum!

  2. puxa odir… preciso falar contigo e preciso da sua ajuda. Esse texto tem a ver. Adorei. sinto muito
    mais tarde faço contato ou em breve, beijos

  3. Fora do contexto, mas. Vc sabe me dizer se há uma posição FISICAMENTE melhor para os raios internos e os externos de uma roda em função da força aplicada à roda/raios? Vou tentar esclarecer… quando vc pedala, um ponto da roda toca o chão e o movimento de força é em um sentido. exemplo, se tivermos vendo a roda pelo lado direito da bicicleta, o sentido de movimento da roda é o sentido horário. Sendo assim, o ponto da roda que está no chão está recebendo uma força no sentido contrário, ou seja, de trás para frente, sendo assim, os raios que está voltados (angulados para trás, vão receber uma força maior; correto ou estou equivocado?
    Para ilustrar melhor, tenha como base a roda do link https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRFgovizAs3LtbveP9-llAh0LwhSzuLynj_L4Tq0K3pNkDReDWsEA, Esta roda estaria rodando no sentido horário e os raios AZUIS é que estariam recebendo esta força “direta”. Sendo assim, quais deveriam ser estes raios: os externos que cruzam os outros três, passando por baixo do último, ou os internos. Bem, não sei se fui claro. Espero que sim e que vc possa esclarecer algo. Pergunto isto, pois se houver um raio específico, há uma posição melhor para a roda, ou seja, inverter a posição da roda não seria indiferente.

    Valeuuu!!!

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