praça de bolso do ciclista, ou invertendo paulo freire

o local é pequeno, um terreno pequeno no final da rua são francisco, antiga rua do fogo, a mais antiga rua de curitiba. bem na esquina da rua presidente faria.

um antigo pedaço de muro ou parede, que parece ter bem mais de 100 anos e que é testemunha da época em que ali era o limite da cidade de curitiba, a parte mais baixa,  e onde havia as prostitutas, isso no século XIX, permaneceu ali.

e ali o homem de olhar doce e calmo explica pra moça novinha, bem vestida, ambos ali agachados, num canto, como escolher o melhor lado da pedra portuguesa branca a ser assentada naquela farinha que misturava 3 partes de areia e 1 de cimento.

o terreno foi nivelado, mesmo tendo um suave declive. uma passagem na diagonal, cercando a área com os blocos vazados já assentados como piso, que receberão nos seus buracos grama. ali serão instalados paraciclos.

na lateral, bancos de pedra e madeira, e aquele caminho que, quando feito, formará o desenho das marcas de um pneu de bicicleta. desenho em petit-pavé, o desenho em pedras portuguesas brancas e negras.

lourenço ia instruindo a todos. como escolher as pedras. como assentar. como alinhá-las. aquele trabalho de nivelá-las, martelando uma tábua por cima, que de longe parece simples, mas de perto se nota toda uma arte de posicionar a madeira na posição correta de modo a nivelar o trecho martelado com o anteriormente colocado.

semana passada carregava-se o andaime de um lado para outro, para se fazer o tratamento do muro do fundo: seu reboco, e a passagem da massa fina.

ali, um trabalho comunitário: são os ciclistas de curitiba que estão lá, aos finais de semana, já há meses, com seu trabalho lento por inexperiência, a não ser por lourenço, a construir aquela pequena praça num cantinho de quarteirão.

e ali, lourenço, com sua suavidade e doçura, invertendo paulo freire, e inventado uma nova didática.

paulo freire, na pedagogia do oprimido, nos ensinou a ensinar a partir do cotidiano. o pedreiro se alfabetizando a partir da palavra “tijolo”, aprendendo “ta, te, ti to, tu”, “ja, je, ji, jo, ju”, “la, le, li, lo, lu”, e depois formando frases como “tu já lê?” (tu já lês?) ou “jetulo” (getúlio).

aqui lourenço inverte: realfabetiza os já bem alfabetizados nas  letras, mas analfabetos dessa materialidade do trabalho manual, dessa manualidade, nesse saber fazer as coisas.

lourenço ensina a misturar cimento, a assentar as pedras no murinho de pedra construído, a seguir no chão o desenho da madeira que serve de guia para o assentamento das pedras. a preservar o espaço que depois será usado pelo construtor do prédio ao lado para terminar a construção, mas sem afetara a praça e seu urbanismo.

lourenço também é ciclista, fixeiro,  jogador de polo, mas nesses finais de semana nos quais trabalha junto com os outros é professor, mesmo sem o saber. ali estão todos construindo e aprendendo a construir, no mesmo ato. uma classe média  (não importando se classe média baixa, média ou alta) urbanizada e criada dentro dos padrões de divisão de mão de obra do sistema capitalista, que faz com que o filho do médico não saiba sequer lavar as próprias cuecas, onde a advogada não saiba que pode engraxar seus sapatos de couro, que faz com que o filho do engenheiro tenha que ir à austrália num intercâmbio pra aprender a lavar o prato que usou.

é dessa classe média que saem os filhos que estão ali, não importa a idade, de 15 a 60 anos, todos criando rachaduras nesse sistema de alienação do fruto do próprio trabalho e da incapacidade de satisfazer por si só suas próprias necessidades. hoje não se faz, se compra.

e ali estão, a cada final de semana, fazendo o inverso. construindo aquela parte da cidade. e, portanto, construindo a sociedade de outra forma,  e criando espaço público que seja de todos, e não terra de ninguém.

essas pessoas estão indo muito além do que as estruturas sociais permitem. misturam-se as classes sociais. quem vier para ajudar será bem vindo, diz cristiano, professor de matemática e catador das pedrinhas que caíram nos buracos do tijolo vazado do piso de parte da praça. retirar os pedriscos, necessário, para deixar o espaço para plantar grama. ficar ali abaixado, acocorado, retirando uma por uma. as pernas ardem de se ficar tanto tempo abaixado. as bordas do tijolo ferindo nossos dedos de pele fina, macios da ausência de trabalho fisicamente pesado.

o trabalho é lento, mas as pessoas conversam, riem, dançam enquanto trabalham. lourenço coloca jimi hendrix pra tocar naquela caixa de som ligada a um celular. alguém traz um copo de vinho quente, que em curitiba é chamado de quentão, pra aquecer naquela tarde de vento muito gelado, fazendo com que a temperatura de 11 graus pareça ser ainda bem mais baixa do que de fato é.

pessoas ali trabalhando à temperatura de 9 graus e uma sensação térmica bem mais baixa, dado o vento. amanhã seguirão suas vidas de estudantes e profissionais. mas hoje estão ali, martelando pedras. um rapaz chega com o filho num carrinho de bebê. coloca o carrinho numa posição em que o menino possa vê-lo, e começa a assentar pedras, com um cuidado e um atenção de um neurocirurgião operando um cérebro.

uma moça agacha-se e martela uma pedra. começam a faltar pedras e paulo levanta-se e vai encher um balde de pedras brancas, escolhendo uma a uma. pois pedrinhas de um formato serão assentadas na lateral e de outro formato mais no meio. carregando pedras, vão assim o dia inteiro.

um ipê roxo foi plantado bem próximo à esquina, e no seu entorno será construído um banco para as pessoas sentarem.

– imagina esse ipê daqui a 20 anos, florido?  – perguntou lourenço e eu imaginei. e imaginei que cada um ali poderá, daqui a 20 anos, reconhecer o cantinho onde trabalhou, o que fez naquela praça.

quem não participa dessa construção talvez não tenha ideia do quanto há de conhecimento sendo aplicado ali. um conhecimento que nem sempre está sendo ministrado nas escolas, mas é o conhecimento que em tempos de antanho todos deveriam saber: construir, fazer. e que hoje se especializa e se afasta da cotidianidade. quantos não tomam banho gelado por dias até que achem que lhes troque a resistência queimada do chuveiro?

mas essas pessoas de curitiba estão fazendo o inverso. aprendendo  fazer e construindo algo que só existe completo em projeto. construindo de forma a seguir um abstrato mas detalhado plano, que, bem realizado, deixará uma praça para que pessoas usem, um marco urbano, e que durará muito.

impossível ter observado tudo isso e não lembrar do muro das lamentações em jerusalém. diz a tradição que aquele último muro em pé do antigo e grande II templo, teve construção comunitária.  foi a parte do templo construída pelos mais pobres dentre o povo judeu, aqueles que para doar para a construção do templo só tinham a própria mão de obra. e foi essa parte do templo, justamente a parte feita pelos mais pobres, que sobreviveu à destruição de jerusalém feita por tito, no ano 70 da era comum.

não que essa praça de bolso do ciclista, tão pequena, venha a ser um local sagrado. mas um local onde todos os ciclistas de curitiba poderão sentir como seu, não como propriedade privada, mas como propriedade comum, pública, no melhor sentido da palavra: o que é de todos, e todos contribuíram pra fazer.

é essa noção de bem público que falta ao brasileiro. nossa história colonial e escravagista nos faz perceber o espaço público como mera área de predação. “achado não é roubado”, repetimos sempre. mas como, não havia dono antes? para quem constrói o público, sim, para quem apenas é predador, não.

o revolucionário, portanto, nesse longo trabalho de construção, que já dura meses, é a feitura desta outra noção de espaço público. não apenas no mundo das ideias, mas no mundo real. não apenas como conceito, mas como fato. e wittgenstein já nos ensinava: “o mundo é  a totalidade dos fatos, não das coisas”.

mas sem pensar em nada disso, apenas fazendo, ali vão construindo. e lourenço sempre ensinando, com calma, o sentido ao varrer o cimento, a linha a seguir no fixar a s pedras, o cuidado ao martelar as pedras e depois nivelá-las… e assim permitindo a cada um que siga suas orientações que faça parte da história da construção daquela pequena e singela praça, mas tão cheia de significados e de história.

ali, na esquina da presidente faria com a são francisco, se constrói um mundo novo. e corra, curitibano, para dar sua contribuição, antes que esse mundo novo o ultrapasse.

 

3 Respostas para “praça de bolso do ciclista, ou invertendo paulo freire

  1. Capturou muito bem uma grande parte da alma do que está rolando.

  2. Quem é o autor? Que belo texto!!!!!!!!!!!!!!

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