quem não vive a realidade não pode mudá-la

é fato. o brasil teve já há anos planejadores urbanos fazendo planos cicloviários e etc. werner zulauf é um nome do passado a ser citado.

nunca foram implantados pois seus interlocutores, que detinham poder de decisão, nunca se predispuseram a fazer nada nesse sentido.

em sentido contrário, movimentos de massa, de base, não precisam de interlocutores. os interlocutores que se desesperam e os procuram, no sentido de aliviar a pressão que sofrem pois, num plano extremo, bem extremo, chega-se às revoluções.

mas uma coisa muitas vezes se ignora: desde maio de 1968 nota-se os movimentos sociais fragmentando-se. quanto mais se sem ampliam as capacidades de comunicação, mais os movimentos se fragmentam. isso é uma característica mundial, já estudada por j. habermas. a. melucci, a. touraine, n. frasier e outros teóricos que se dedicam ao assunto.

por isso é que muitas vezes se fala – erroneamente – num neo-anarquismo, quando o correto seria falar num autonomismo, cujas fronteiras não estão ainda bem delimitadas e nem isso deve acontecer tão cedo. e, por isso, o “pensar globalmente mas agir localmente” não pode ser feito de forma coordenada, pois se faz de foma descentralizada, autônoma.

assim, hoje, o grane desafio pras democracias formais é conseguir dar vazão a essas falas – vide a atuação do MPL em 2013, em são paulo, que forçou o prefeito a consular o conselho da cidade e revogar o aumento das passagens de ônibus. MPL nunca recusou o diálogo, mas recusou a negociação. mostrou sua força na rua, não apenas levando pra elas seus militantes, mas por criar uma percepção hegemônica na sociedade: o aumento não deveria ocorrer.

mais recentemente, sabe-se muito bem que o atual plano diretor da cidade de são paulo, bem avançado e que pode sim transformar a cidade, foi aprovado pela intensa pressão dos membros do MTST na porta da câmara de vereadores, sem medo de esculachar em público o vereador que atravancava a votação, denunciando-o bem como denunciando os financiadores de sua campanha.

note que essas conquistas não se deram em mumunhas de corredores das câmaras municipais. nem em reuniõezinhas em departamentos de marketing de empresas.

o que o cicloativismo brasileiro ainda não percebeu que é que pode sim ser um imenso movimento de massa. mas precisa circular pela massa. já aprende a institucionalizar-se e munir o poder público de dados, mas não sabe dialogar com as periferias. mas porquê? por que tem medo de ir a elas.

e as periferias sabem o que esperar dos poderes públicos: porrada ou esmola, nunca diálogo. por isso a massa soube ir junto como MPL, por exemplo, em 2013. as manifestações tinham repressões sucessivas, mas a coisa muda, não quando uma repórter da folha se fere, mas quado há manifestações na avenida m-boi mirim, no extremo sul. mas não só lá. a periferia manifestou-se, com pouca cobertura da mídia – até por que o que tem de repórter que não sai do centro expandido de forma alguma – mas a CET percebeu os congestionamentos, e a PM também…

claro, os termos esquerda e direita estão deturpados pela política partidária. e eu vejo muita gente que tem ideias de esquerda, práticas de esquerda e valores de esquerda dizendo-se de direita, e gente que tem práticas, valores, valore$ e ideia$ de direita se dizendo de esquerda. então não quero usar esses termos aqui.

mas é fato que uma política que privilegia a bicicleta torna a cidade mais igualitária. e se ela vem da base, funcionando cada vez mais em rede e não de form hierarquizada, não capitaneada por um partido, é autonomista.

e claro, não podemos esquecer: o que nos define não é o que pensamos que somos ou os outros pensam que somos, mas o que fazemos, como interferimos na realidade.

é nessa hora que precisamos entender que não há neutralidade no mundo, tudo o que se faz tem sim impactos no entorno, muitas vezes nem sempre possível mensurá-los. até por que estamos doutrinados a só enxergar o que se institucionaliza.

mas ao escolher usar a bicicleta não estamos apenas nos proporcionando um momento de prazer ao pedalar, mas naquele momento não estamos usando um carro, nem pagando uma passagem de transporte coletivo, nem usado uma moto, nem pagando uma viagem de táxi. afetamos todos esses outros meios quando escolhemos ir de bicicleta. não estamos apenas não poluindo, mas também estamos interferindo na economia.

e interferir no econômico é interferir no político, não necessariamente politico-partidário, mas sim incomodando os partidos. o que não é ruim, mas importante sim fazer.

é interessante sim, notar que mesmo os pensadores sociais mais conservadores, como um niklas luhmann, teórico dos sistemas, não via um movimento social como algo negativo. luhmann via os movimentos sociais como uma espécie de alergia necessária para apontar o que não estava funcionando nos sistemas. movimentos sociais aperfeiçoam as sociedades.

e aqui vale lembrar sim o exemplo de amsterdam e o movimento no sentido de parar as mortes no trânsito, que ocorreu junto com a crise do petróleo dos 70, e muda amsterdam não apenas no plano do transporte, mas muito mais no social, econômico e cultural.

ora, chega de achar linda a bicicleta holandesa, e que se passe a entender o que lá aconteceu e o que está acontecendo em outros locais do mundo. chega de se pensar que se está só pedalando, pois não há ato neutro.

e aí entender que caminhar apenas e tão somente dentro dos caminhos da institucionalização, nos desligamos do movimento social que, por natureza, age fora dessa institucionalização. movimentos sociais age fora de partidos. fora de empresas. mas nas ruas. ou seja, pertence a quem vive nas cidades: os cidadãos.

é aí que se deve procurar o equilíbrio que muitos grandes movimentos sociais já conseguiram estabelecer: a institucionalização mínima apenas para usar o s canais formais de comunicação, mas mantendo a liberdade da desestrutura na ação nas ruas. pois sim, expandir o uso das bicicletas implica sim em pedalar e chamar mais gente pra pedalar. implica sim em mexer na bike e ensinar a mexer na bike. e no político-partidário, até permitir quem do movimento social vá pra política, mas impedir a todo custo o movimento contrário: denunciar os pilantras que tentam surfar uma onda que não é sua.

é aí que os sábios percebem que a coisa não é só a bicicleta, mas é a cidade para pessoas, e não para máquinas. é quando o ciclista aprender a dialogar com o pedestre e o cadeirante, que são mais fraco que o ciclista e por eles devem ser protegidos no trânsito, e os trouxerem para o seu lado, isso se torna um movimento de massa. pois o brasil tem mais de 60 milhões de bicicletas em uso. e pelo menos mais de 90% das pessoas são pedestres de alguma forma, mesmo que portem deficiências.

assim, o norte é sempre o cidadão. não a empresa, não o partido. e lembrarmos que somos essencialmente gregários (tanto que ciclistas adoram pedalar em grupo e muitos paulistanos adoram filas), portanto o cidadão não pode ser pensado como indivíduo, mas como coletividade. ou seja, toda vez que se usar o cidadão pra promover o partido ou a empresa, se erra. e se acerta quando se faz o contrário.

passou do temo de se deselitizar  o uso da bicicleta. passou do ponto de se conseguir passar as pontes. com faixas vermelhas (cor regulamentada pelo contran) ou na marra. pedalemos pois.

(em tempo 1: historicamente, mulheres participam muito mais dos movimentos sociais do que dos partidos. mas eu não sou a pessoa mais apropriada para explicar esse fenômeno).

(em tempo 2: pra se ver uma atitude pilantra de quem quer surfar a onda da bike, basta prestar atenção em quem  faz publicidade promovendo bicicleta mas não tem paraciclos nas suas agências).

 

 

 

 

 

 

 

 

7 Respostas para “quem não vive a realidade não pode mudá-la

  1. Muito bom, em tempo, precisa ficar claro que o movimento de bicicleta apenas não nasce onde as pessoas tem visibilidade na midia, que fazem coisas legais em eventos, mas sim onde as pessoas usam das mais diversas formas o modal!

  2. Texto equivocado em muitas coisas! Cara o MTST não passa de instrumento de partido político, financiado e utilizado como massa de manobra.
    Esse mesmo MTST fez um protesto fechando ruas na periferia e prejudicando milhares de trabalhadores para, pasme, protestar contra a qualidade da telefonia móvel!!!
    Os protestos de 2013 não saíram da periferia… eu fui em um que saiu do largo da Batata e estava mais para micareta do que para protesto. “Passeata Gueri-Gueri”!

  3. Parabéns pra vc que esta satisfeito com o que paga de celular e pelo serviço que tem, e por cima reclama de quem vai as ruas pra manifestar contra isso, mas se juntar no guerigueri foi;!

  4. Muito bom. Vou ficar de olho se Bradesco e Itau tem paraciclos. E excelente texto. Concordo 100%.

  5. Gostei do artigo.

    Tenho um ponto a ponderar: andar de bicicleta, para algumas pessoas, principalmente nas periferias, é uma coisa simples, normal, corriqueira, sem mistérios – com ciclovia ou não – para adultos e crianças. Fatalidades por lá sempre aconteceram, mas só foram noticiadas ou seriamente consideradas nas estatísticas de trânsito muito recentemente.

    De alguns anos pra cá, por moda ou consciência, mais pessoas estão pedalando pela cidade, dentro e fora do centro expandido. A bicicleta começou a aparecer nas estatísticas oficiais porque outras vozes puderam ser ouvidas com mais clareza, pela facilidade de acesso aos meios de comunicação e aos órgãos oficiais.

    Agora, temos sim uma obrigação moral com as periferias, que nos fornecem os números que agregam valor às estatísticas e ajudam a justificar, para todos, as melhorias da ciclabilidade da cidade.

    Isso deveria ser exemplo para todos os modais. Se o transporte coletivo está num estado tão deplorável a um custo tão alto, a culpa é de quem abandonou o hábito de utilizá-lo para trocar pelo que considerava melhor no momento em que pode arcar com uma despesa maior.

    (Eu gostaria de ver o que fariam as concessionárias de transporte coletivo se houvesse uma “greve” de condutores de veículos particulares… Que sonho digno de Quimera!)

    Com as calçadas, para pedestres e cadeirantes acontece a mesma coisa, aumentam cada vez mais as guias rebaixadas, com degraus e lombadas a serem transpostas pelos que transitam por elas em sola de sapato ou cadeiras de rodas.

    Trânsito é trânsito, até no modal sapato. Ainda assim os acidentes ocorridos nas calçadas não entram nas estatísticas, porque a responsabilidade da conservação das calçadas é do proprietário do imóvel.

    (Em seu tempo 1: Partidos são menos dinâmicos que os movimentos sociais. São estáticos em seus idealismos filosóficos de esquerda ou de direita e não se permitem usar de “uma certa” sensibilidade diante de situações pontuais. Será por isso?)

    Em tempo: Estamos pensando em ciclovias onde nossas crianças e jovens poderão pedalar para ir à escola e onde mais quiserem? As crianças da periferia vão…

  6. eu acho que os partidos politicos sao machistas, patriarcales e “falicos” (nao sei como se fala em portugues), por isso as mulheres tem mais participazao nos movimentos sociais.. abrazo

  7. Odir

    a luta de boa parte da classe média que aderiu à bicicleta é:

    – não ser considerado pobre (entenda-se: continuar frequentando seu meio social sem se sentir rebaixado)

    – e, obviamente, segurança. segurança até exagerada, como ciclovias em ruas pequenas e de bairro (bairro do centro expandido, claro!)

    já participei de instalação de ghost bike na periferia (uma perto da minha casa, outras no outro extremo da cidade), e em todas elas comentava-se o medo de ser roubado.

    aí meu amigo, só falando em bom português: é foda!

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