hobsbawm e os pavés

o toni lembrou-me do eric hobsbawm:

“Até mesmo a forma de transporte que nos libertou era barata, pois nós, ou nossos pais, seguimos o conselho dos anúncios na traseira dos ônibus londrinos de dois andares: “Desça desse ônibus. Ele jamais será seu. Compre uma bicicleta por dois pence por dia”. Com efeito, com poucas prestações semanais podia-se comprar a bicicleta – no meu caso uma brilhante Rudge-Whitworth, que custava mais ou menos cinco ou seis libras. Se a mobilidade física é condição essencial da liberdade, a bicicleta talvez tenha sido o instrumento singular mais importante, desde Gutenberg, para atingir o que Marx chamou de plena realização das possibilidades de ser humano, e o único sem desvantagens óbvias. Como os ciclistas se deslocam à velocidade das reações humanas e não estão isolados da luz, do ar, dos sons e aromas naturais por trás de pára-brisas de vidro, na década de 30, antes da explosão do tráfego motorizado, não havia melhor maneira de explorar um país de dimensões médias com paisagens tão surpreendentemente variadas e belas. Com a bicicleta, uma tenda, um fogareiro a gás e a novidade da barra de chocolate Mars, explorei com meu primo Ronnie (que a pronunciava “Marr”, como se fosse em francês) grande parte das belezas civilizadas do sul da Inglaterra, e, numa memorável excursão de inverno, também as mais selvagens do norte do País de Gales.”

(HOBSBAWM, E. “Tempos interessantes: uma vida no século XX”. ISBN 85-359-0300- 3. S.Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp. 107-108)

 

hobsbawm era um marxista e, portanto, puco afeito a noções de nacionalidade. de fato, samuel johnson certa vez afirmou que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. millôr fernandes corrigiu: “O patriotismo é o último refúgio do canalha. No Brasil, é o primeiro”. de fato, sendo menos radical do que eles, sempre fico um pouco como o pé atrás acerca de fortíssimas afirmações nacionais. o único hino que, às vezes me emociona é a marselhesa, por ser um hino  revolucionário e por conhecer o imenso legado da revolução francesa, que vai sim até as bicicletas, e não por ser o hino da frança.

rudge-withworth de 1940. clique na imagem pra ver mais fotos.

de fato, hoje a economia mundial desmontou fronteiras. o capital não tem mais fronteiras. só há fronteiras para as pessoas desprovidas de controle sobre o capital. e a divisão entre classes não é mais geográfica, mas difusa em matéria de geografia: um industrial no brasil vive no primeiro mundo, um sem-teto novaiorquino vive no terceiro mundo.  e ressalte-se: há muitos homeless nos e.u.a. e na europa.

a bicicleta é de fato liberdade. é isso que o trecho citado acima das memórias do eric hobsbawn explicitam. se prestarmos atenção nos que hoje estão dando as voltas ao mundo em bicicletas, veremos que não são endinheirados. no mais das vezes o fazem exercendo pequenos trabalhos aqui e ali. virando-se. o world-traveller atual não é tão diferente assim do hobo dos anos 30. claro, está em condições materiais muito melhores. mas em razão de o mundo também ter uma outra distribuição de bens.

no esporte, não há como não lembrar da forma como eram feitas as competições de bicicleta na primeira metade do século XX. o tour de france de 1919 teve a etapa mais curta (strabourg-metz) com 315km, e a mais longa com inacreditáveis 482km (les sables d’olonne – bayonne). e isso com bicicletas ainda sem marchas e sem pinhão livre.

col du tourmalet, TDF, 1954

eram carnificinas essas corridas. e aí está a origem da cultura do doping: para aguentar esa carnificina. e por que aguentá-la? se você é de um país arrasado pela I guerra, num continente arrasado pela I guerra., os trocos de ganha ao correr essas provas é uma forma de sobreviver.

pouco mais de uma década depois os e.u.a. entrariam na grande depressão e então veríamos algo semelhante: maratonas de dança. pessoas ficavam uma semana dançando se mexendo, para ganhar um prêmio.  e claro, como sempre produzindo notícias para os jornais.

as pessoas em geral ignoram o que move os esportistas profissionais. não apenas aquelas incensadas dedicação e disciplina que são citadas no blablablá das palestras motivacionais, mas as necessidades diversas.

lance armstrong, por exemplo, até se tornar um grande nome do ciclismo era o quê? um rapaz vesgo que sequer conhecia o nome do seu pai. ter se tornado o então maior vencedor do tour de france trouxe-lhe fortuna. mesmo que às custas de um doping até então inédito mas não exclusivo. lembremos que l.a. começa a ganhar e se tornar um nome de projeção logo após o escândalo da equipe festina.

aí o esporte se mostra não imune ao que acontece com todos os esportes profissionais, que geram receita aos seus praticantes pois  se tornaram espetáculo: o doping. mas do ciclismo não há como citar escândalos na construção de estádios, só sobra como notícias as vitórias surpreendentes e o doping. e o doping alimenta a vitória surpreendente.

não que l.a. seja uma mera vítima dum sistema. não se pode esquecer sua atuação contra greg lemond e outros. o garoto pobre, vesgo, que não sabe o nome do pai e que sobreviveu a um câncer (sobre o qual há a justa suspeita de ter sido causado por outra forma de doping) revelou-se uma pessoa desprezível mas útil, durante um tempo, a uma certa máquina econômica. que como outras é perversa, porém menos que outros megaeventos que causam a remoção de famílias e o ferimento a direitos fundamentais.

hoje, na etapa de ypres a aremberg/porte du hainaut, com 152 km mas vários trechos de paralelepípedos, sob chuva, uma pequena carnificina. vário ciclistas tomaram seus tombos e pelo menos um grande favorito a levar a prova, crhistopher froome, abandonou após cair duas vezes hoje e uma ontem.

chris froome após a primeira queda

mas nem de longe as competições de hoje parecem-se com as carnificinas do passado. salvo raríssimos casos, tombos geram arranhões. esses atletas são remunerados, embora nem de longe tão bem remunerados quanto os grandes nomes do futebol. tanto que ex-atletas continuam trabalhando pesado.

eddy merckx, aliás, barão merckx, era nobre de nascença. mas rico? nem pensar. como ele mesmo chegou a afirmar certa vez, não poderia escolher prova: tinha que se inscrever em todas as possíveis e ganhar o máximo delas, em razão dos prêmios. ganhou cerca de metade de todas as corridas que participou: nada menos que 525 vitórias. não à toa ganhou o apelido de “canibal”. num giro d’italia, num tempo em que não havia ainda os rádios, viu uma faixa sobre a rua e arrancou para ganhar os pontos de sprint intermediário. mas só bem perto percebeu que era uma faixa que pedia votos ao partido comunista…. merckx sobrevive fabricando bicicletas, realizando eventos e etc.

aqui é preciso lembrar: a bicicleta não formou megamilionários.  não há um henry ford das bikes. com exceção dos donos de algum mega-fabricante, nem milionários são. que o diga mike sinyard, cuja empresa, specialized, está sofrendo uma concorrência desleal causada por produtos chineses falsificados e de péssima qualdiade, e cuja empresa chegou à reação neurótica de atacar um bike-café canadense chamado “roubaix”. roubaix não é apenas o nome da cidade francesa onde termina a mais monumental das clássicas, paris-roubaix. é também marca da specialized nos e.u.a. e canadá, aplicada a um modelo de bicicletas. a ação contra o bike-café, um erro, gerou uma tormenta na internet e posteriormente uma visita do mike sinyard em pessoa pedindo desculpas no café.

e essa não concentração de negócios no mundo da bicicleta, seja na construção de grandes estádios, administração de grandes times, fabricação de produtos esportivos, que no mundo da bicicleta não existem, decorrem da sua própria natureza. a mecânica das bicicletas é uma mecânica cuja sofisticação decorre da sua própria simplicidade. e aí voltamos ao hobsbawn.

hobsbawn demonstrou que no mais das vezes o nacionalismo é fruto da ideologia das elites dominantes de forma a legitimar sua própria dominação. não dista, aí, hobsbawn, do grito constante da última frase do manifesto do partido comunista: “Proletários de todos os países, uni-vos!”.

de fato, no mundo há exploradores e explorados, estando o mundo das bicicletas no mais das vezes ao lado desses últimos. qualquer um que pedala sabe que o fetiche pela mercadoria no mundo ciclístico não resiste à primeira pedalada longa e à primeira assadura na bunda. escolha de selim é individual e não condicionada por poder de compra: sua bunda pode, independentemente da sua classe social, requerer um selim de 40 ou 400 reais. e isso nada melhor que a longa distância pedalada para nos revelar.

o uso da bicicleta instaura uma outra relação com o artefato e com o mundo lá fora. uma relação de uso, não de mero consumo. no uso que não é meramente instrumentalizado, o ser da coisa ali em questão se revela. é aí que toda aquela construção que o marketing impõe “agregando valor” às coisas se mostra tão sólida quanto um castelo de areia à beira do mar.

um exemplo são as bikes que usamos na pedaladas de longas distâncias. é uma mistureba de peças,uma lambança de conceitos. a bicicleta que richard dunner usou no paris-brest-paris mais de uma vez e para fazer o ainda mais longo londres-edimburgo-londres é de deixar de cabelo em pé os puristas: usa suspensão na frente, v-brakes, guidão drop, alavancas de quadro, e quadro de aço cromo-molibdênio. e bagageiro!

o próprio sucesso dum pequeno fabricante de quadros e garfos, a surly, é de deixar os gênios de marketing coçando a cabeça. surly contraria aquilo que a indústria tem feito nas últimas décadas. seus quadros de aço são pesados, moles, cheios de buracos para aparafusar coisas. e são uma delícia pra se andar, ou seja, o valor de uso se sobrepõe a tudo. e, para os padrões norte-americanos, são baratos.

a relação das pessoas com suas bikes é tão pouco determinada pelo fator marca que é comum que se refiram a elas por nomes próprios. pessoalizam as bicicletas. principalmente as de quadro de aço, que possui “alma”, expressão usada pra caracterizar o comportamento do quadro na buraqueira com o ciclista em cima. por outro lado, os que se rendem à marca e compra produtos falsificados que imitam os originais normalmente quebram a cara – às vezes os dentes, um braço – quando o produto falsificado dá pau. numa descida, não importa a marca do freio, importa que ele freie…

francis martin, ciclista sul-africano. orgulhoso de sua speed.

hoje vivemos um mundo que não é, obviamente, aquele do tempo de marx. o mundo está num daqueles períodos de intensa modificação. estamos em meio à terceira revolução industrial, que caracteriza-se por uma capacidade de comunicação inusitada na história mundial, que permite que pessoas entrem em contato entre si mesmo havendo grandes distâncias físicas entre elas. e essa comunicação nos permite ver no outro o que há de semelhante conosco e, portanto, olhar para o mesmo horizonte que ele mira.

nesse contexto, nacionalidades perdem cada vez mais o sentido, principalmente nos grandes centros: não à toa muitas vezes só reconhecemos que o rapaz é um palestino pelo keffieh, pois suas camisetas, jeans e tênis não diferem dos nossos: foram todos feitos na china.

quer saber? vá fazer como o hobsbawm e vá pedalar sua bicicleta. leve uma comidinha e mande ver. se quiser, assista competições de bicicleta, in loco ou televisionadas. aqui você as vê de graça. e veja sem culpa: nenhuma família perdeu sua casa para que a corrida fosse feita. aprenda mecânica básica de bicicletas e tenha um mínimo de autonomia. ache o selim certo pra sua bunda. e ensine alguém a pedalar, e a consertar uma câmara furada. e assim seja livre e estenda a sua liberdade ao outro, tornando sua liberdade infinita. e aí os pavés serão confortáveis e cicláveis. pedalemos pois.

(p.s. nem perca tempo rotular de marxista por citar marx. sou groucho-marxista, isso sim.)

e agora vou ler um livro escrito por um já falecido ciclista que nas horas vagas era professor de literatura, e se recusava a dirigir carros.

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Respostas para “hobsbawm e os pavés

  1. Deixo de ser um leitor silencioso para parabenizá-lo não só por este excelente texto mas também por tantos outros que tive o prazer de ler em postagens antigas. Parabéns.

  2. Junto-me a Enrico para lhe dar os parabéns: que texto delicioso! O groucho-marxismo é o máximo…Obrigada por alimentar meu amor pelas bicicletas. Todas.

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