downhill, track-stands…

quem já foi a uma prova de downhill sabe que loucura é essa modalidade de ciclismo. @s doid@s se despencam a velocidades alucinantes, sejam em pistas no campo, seja em pistas urbanas.

uma das provas do circuito mundial acontece na cidade de santos:

não escolhi esse vídeo à toa. notem que é um vídeo produzido para o exterior do brasil. mas notem as escadarias do mont serrat, até hoje um bairro dos menos prestigiados de santos.

a forma como a modalidade parou lá fala muito do que é o mundo das diversas modalidades ciclísticas ao redor do mundo.

bicicleta é algo que tem em tudo quanto é lugar. e um moleque querendo fazer algumas acrobacias também. a primeira modalidade do MTB é justamente o downhill. que consistia, nos anos 60 e 70, em pegar bikes antigas e descer morros na califórnia. diversão de hippie, de pobre. eram usadas antigas schwinns. e foi assim que um tamanho de roda que só era usado pelas schwinns se tornou disseminado pelo mundo: o aro 26 (559mm) que conhecemos.

claro, quem só vê as competições de alto nível só verá bicicletas caras. são essas que ganahm mídia. mas no mundo inteiro, seja no downhill, seja no cross-country, as bikes que predominam são as baratas.

é comum também que os competidores venham das categorias profissionais que empreguem a bicicleta. no MTB-XC, nos anos 90, um dos melhores ciclistas brasileiros era ivanir teixeira lopes, conhecido como “leiteiro”, pois na infância e adolescência trabalhava com o pai, sitiante e pequeno produtor de leite em viçosa-mg. ivanir era encarregado de entregar o leite, carregado em uma bicicleta sem marchas, passando por estradas de terra cheias de buracos, de forma rápida e sem derramar nada. certa vez houve uma prova perto do sítio onde morava, e com a mesma bicicleta que usava para entregar leite participou da prova, obtendo bons resultados e assim começou no cross-country, indo à olimpíada de atlanta.

a cultura das fixas é fortemente marcada pelas bicicletas de pista, não sem um motivo. em cidades americanas e europeias, participavam de provas de velódromo os bike-messengers, antecessores dos moto-boys. é claro que a mesma bicicleta usada pra trabalhar ia para a pista,sem os freios. e assim os pinhões fixos ganhavam as ruas.

o track-stand, que é a arte de se manter equilibrado na bicicleta com a mesma parada foi desenvolvido nas provas de sprint em pistas, que começavam com os ciclistas parados. um esperando o outro fazer o primeiro movimento. sair em segundo permite usar o vácuo do oponente e salvar forças pra arrancada e vencer a prova.

hoje, é claro que as fixas de rua mantém em comum com as verdadeiras pisteiras apenas o pinhão fixo. uma pisteira autêntica não pode ir às ruas pois não tem resistência para as irregularidades do asfalto.

mas se aqui no brasil faltam velódromos, em diversas cidades do mundo eles são tão numerosos quanto quadras de futebol de salão o são por aqui.

abaixo uma das corridas do mundial de ciclismo de pista de 2014, ocorrido na colômbia:

o ciclista brasileiro de classe média, que paga caro por estradeiras básicas que custam um quarto do preço fora do país (não culpem só a tributação, lembrem da margem de lucros dos vendedores) estranham que essas estradeiras básicas venham com furação para bagageiros e pára-lamas em seus quadros e garfos. pois desconhecem que seu público consumidor, fora do país, é de quem usa a mesma bicicleta para transporte, e mesmo trabalho, retirando bagageiros e pára-lamas quando vai participar de competições amadoras.

esse é o imenso público consumidor das peças de estrada dos grupos mais básicos. sim, muita gente ao redor do mundo compete usando grupos básicos. e mesmo aqui. aquele que chega a profissional do ciclismo raramente vem das classes mais altas, em qualquer lugar do mundo. no mais das vezes vem das classes mais baixas.

e é por isso que o ciclismo, tanto de estrada quanto fora de estrada, é extremamente popular em diversos locais do mundo. sua identificação é com as camadas mais populares. isso talvez não se repita exatamente da mesma forma, mas não muito diferente, no brasil, em razão do alto custo da bicicleta. mas fora do brasil o ciclista competidor acaba por não ser muito diferente de um certo tipo de consumidor de bicicletas no brasil. numa certa bicicletaria da zona sul de são paulo – prefiro não citar nomes pra não alertar a ladroagem – um dos proprietários segredou-me que quem normalmente vem comprar as bikes mais caras traz o dinheiro na meia. sim, compra em dinheiro mesmo. compra com aquele dinheiro juntado nota a nota. e assim bicicletas de 30 mil reais são vendidas…

mas se hoje essa realidade é menos comum no brasil, não foi bem assim o tempo todo. o ciclismo já foi um esporte extremamente popular nas ruas de são paulo décadas atrás, antes da primeira explosão de venda de carros, nos anos 60.

até os anos 50 a então chamada 9 de julho, prova de rua realizada no dia 9 de julho, por isso seu nome, parava as ruas de são paulo. há anos ela foi transferida para o autódromo de interlagos, e hoje, 9 de julho, ocorrerá no interior de são paulo, em idaiatuba.

e nessa 9 de julho aquilo que é uma constante mundial se repete: na categoria expert masculina, correrá nosso amigo pedro cruz de souza, 18 anos, bike-messenger em são paulo, com sua bike com um quadro que tem mais idade do que ele.

no centro, pedro cruz de souza, bike-courier. à esquerda, claudio clarindo, cilista profissional, que já participou de várias edições da RAAM.

no centro, pedro cruz de souza, bike-courier. à esquerda, claudio clarindo, cilista profissional, que já participou de várias edições da RAAM.

claro, haverá bicicletas caras lá. mas nenhuma delas custando mais que um carro. aí outra característica do ciclismo mundial, em qualquer modalidade: a bicicleta do mesmo modelo do campeão que você admira custa menos que o carro do seu vizinho. e se você tem como comprar um carro igual, pode comprar aquela bicicleta. uns escolhem carros, celulares, televisões. outros bicicletas (eu sou um deles…hehehe).

claro, a contra-propaganda como um todo dá um jeito de tentar classificar as modalidades de ciclismo como elitistas. talvez um evento ou outro talvez o seja, mas não na sua totalidade. o fato é que onde há meia dúzia de bicicletas alguém arma uma corrida, mesmo que seja uma disputa não oficial, um alley-cat, como o london calling, acontecendo já a anos em londres:

abaixo o documentário de lucas brunelle, line of sight, com diversos desses alley cats:

(só assista o vídeo acima se tiver muito estômago pra ver cenas de arrepiar de pedaladas insanas no meio urbano ao redor do mundo)

essas disputas não oficiais estão para as corridas oficiais, seja de estrada, de pista ou fora de estrada, assim como os rachas de rua com carros envenenados estão para o automobilismo profissional.

e claro, as versões esportiva do uso da bicicleta são parte daquela imensa cultura da bicicleta, que envolve não apenas transporte, mas também moda e mesmo urbanismo.

esse esporte, a bicicleta, com exceção das corridas de velódromo, prescinde das grandes estruturas especialmente construídas. é o caso, por exemplo, das grandes voltas, de 3 semanas, que circulam países inteiros, e vistas por milhões de pessoas que não pagam ingresso, simplesmente se postam ao lado de ruas, avenidas, estradas. e levam eventos de projeção mundial a rincões onde às vezes moram apenas 200 pessoas…

e não apenas no chamado primeiro mundo. basta lembrar que uma das mais prestigiosas competições de mtb-xc do mundo acontece na áfrica do sul: cape epic.

mas o desconhecimento acerca da bicicleta aqui no brasil é tão grande que se tem como elitista o mundo da bicicleta. e isso se dá em razão da não disseminação do uso da bicicleta, que leva a esse desconhecimento. afinal, pode-se chamar o ciclismo de elitista numa holanda onde as bicicletas reinam?

o esporte é apenas uma vertente da cultura da bicicleta. as outras são transporte e o lazer. e estão todas interligadas. as tecnologias são as mesmas, com um amplo intercâmbio em todos os campos, inclusive na moda, passando sim pelo desenvolvimento técnico tanto das bicicletas quanto do urbanismo, para recebê-las da forma adequada.

são paulo, que inicia por ora um projeto de instalação de 400 kms de ciclovias terá logo uma massa de ciclistas que alimentará o esporte bicicleta. espero que daqui a alguns anos haja uma pressão forte sobre o poder público pela construção de um velódromo na região central da cidade. e aí as pessoas entenderão por que há tantos links na internet para se ver gratuitamente as competições transmitidas pelas tvs a cabo, pagas: nem todos os que querem assisti-las podem pagar os pacotes de tv…

e talvez um dia, no brasil, se repita o fenômeno já observado lá fora: a predominância do MTB nos meios rurais, do ciclismo de estrada na cidades de médio porte (interligadas por estradas) e do ciclismo de pista nos grandes centros (dotados de velódromos e dum trânsito que estimula o ciclismo de explosão). ainda teremos versões brasileiras de clássicos como  “the complete book of long distance cycling”, do ed pavelka e do edmund burke, escrito claramente para amadores, que são a grande massa de ciclsitas de longa distância ao redor do mundo.

o fato é que, no futuro, a bicicleta superará outros esportes. em razão do crescimento das cidades, é cada vez mais difícil manter um espaço de terra reservado para uma prática esportiva. mas ruas e estradas sempre estarão por aí. e também escadarias, pq não?

(e pra ver como se faziam as coisas antigamente, alguns filminhos):

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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