bicicletas à esquerda

tenho saudades da motofaixa da avenida sumaré, em são paulo, e explico o porquê.

motofaixa na rua vergueiro, com bicicletinha pintada por ativistas

motofaixa na rua vergueiro, com bicicletinhas pintadas por ativistas

 

bicicletas podem circular pela esquerda da via? sim, em vias de mão única. em avenidas divididas por canteiros centrais.

o CTB é claro:

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

o CTB não usa a palavra “bordos” no plural à toa. há dois bordos na pista: o direito e o esquerdo. se a via é de uma direção só, em quaisquer dos dois bordos o ciclista estará na mão de direção. e bordo da pista não é  o meio-fio. compreende o bordo pelo menos um metro e meio do meio-fio.

a motofaixa da avenida sumaré ia pela esquerda. era uma faixa exclusiva para motos, onde outros veículos motorizados não poderiam adentrar. como o são as faixas exclusivas para ônibus. mas veículos não motorizados, como a bicicleta, podem. e na avenida sumaré era muito mais seguro ir pela motofaixa, mesmo indo pelo cantinho, pedalando por cima da faixa branca que encostava no meio fio. as motocicletas, que sempre vinham mais rápido, desviavam e continuavam. e assim subíamos a sumaré.

na descida a velocidade, para alguns era a mesma das motos: 60 por hora… delícia!   isso pra quem tocava na descida. outros desciam mais devagar, mas sem problemas.

mas a motofaixa foi desfeita e passamos a subir e descer pela direita.e então passamos a trafegar por asfalto de pior qualidade. é pela direita que passam tubulações e, portanto, obras, buracos, são constantes. e o asfalto fica todo remendado e irregular, afora os buracos que surgem com o tempo.

nas avenidas com canteiro central, sempre que posso, vou pela esquerda. por incrível que pareça, costuma ser mais seguro. o motorista que vai pela esquerda está prestando atenção no que está à sua frente, e isso me inclui, como ciclista, uma vez que mais lento, sempre sou ultrapassado pelos carros. à direita estão as entradas e saídas.  não à toa que o único caso que conheço de atropelamento na sumaré, duma amiga, ocorreu quando ela trafegava pela direita, e não pela motofaixa. uma motorista passou num sinal vermelho e pluft! atropelou minha amiga.  o mesmo quase aconteceu comigo, mas como estava eu lá do lado do canteiro central, havia espaço para o carro frear. (que esclareça: não culpo minha amiga pelo atropelamento. apenas ressalto esse aspecto da dinâmica de trânsito).

eu prefiro, por isso, ciclovias e ciclofaixas pela esquerda, nesse tipo de via. a direita é sempre conturbada. carros entrando e saindo de loja se estacionamentos, táxis parando, ônibus passando, esquinas com carros nos fechando. uma ciclofaixa pela direita sempre enfrenta esses problemas. uma ciclovia, com sua separação física, ainda enfrenta um outro problema nas vias onde há linhas de ônibus: as paradas, os pontos. a ciclovia tem que passar por trás dos pontos, não pela frente, senão o conflito entre os pedestres usuários de ônibus e os ciclistas será inevitável. e assim a ciclovia terá que ter curvas, mesmo num trajeto em tese retilíneo.

ciclofaixas e ciclovias são espaços delimitados para a bicicleta. podem seguir por onde o poder público quiser.  em tese, pela legislação, ciclofaixa seria apenas uma faixa pintada de vermelho. mas, para aumentar a segurança, a CET, em são paulo, tem adicionado tachões no limite delas. já vi o mesmo em outros locais, como em navegantes-SC.

ciclofaixa bidirecional em navegantes – SC – na rua joão sacavem, que é de mão única.

o CTB permite que a ciclofaixa vá no sentido contrário da mão de direção dos carros naquela via, conforme vontade do poder público. é o caso da ciclofaixa da foto acima, em navegantes: ela é bidirecional, e assim, os ciclistas que, na imagem, vem, o fazem no sentido contrário do movimento dos carros. e isso sem problema algum, pois a via da bicicleta está separada da via dos veículos automotores.

claro, todas essas estruturas não impedem totalmente que ciclistas sejam atropelados, pois a capacidade de veículos demais de uma tonelada em passar por cima de estruturas físicas é grande. se você olhar o vídeo abaixo, vai ver que a motorista enfurecida e totalmente destrambelhada tenta atropelar um motoqueiro, a quemela já tinha fechado no trânsito. note que ela atravessa a ciclovia. isso foi em brasília:

contra a imbecilidade, pouco há que se fazer. mas contra a falta de noção, ciclofaixas e ciclovias ajudam bastante a se evitar os sinistros.

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em tempo. há ciclovias e ciclofaixas instaladas recentemente no centro de são paulo. eventualmente passo por elas. é incrível que, mesmo passando junto a calçadas com 4,5 m de largura, há quem transite e até monte mesas de bar na ciclovia. eu normalmente passo hostilizando quem faz isso. sim, grito, reclamo. e já gritaram pra mim  que não é domingo pra andar de bicicleta. isso é um efeito colateral das ciclofaixas provisórias dominicais. por mim, todas elas deveriam virar ciclovias e ciclofaxias permanentes, inclusive na avenida paulista.

ontem à noite um bêbado quase me derrubou na rua antônio de godoi, pertinho do largo do paiçandu. levantava-se duma mesa montada na ciclofaixa!

em amsterdam, quando começaram a fazer as primeiras estruturas para bicicletas, nos anos 70, muita gente as desrespeitava. era comum ciclistas encontrarem ciclofaixas ocupadas por carros . mas nunca omitiram-se em reclamar diretamente com os motoristas.

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em tempo 2: a prefeitura de são paulo, parece, nessa gestão do fernando haddad, fazer bastante pela bicicleta. espero que consigam fazer os 400 km de ciclovias que anunciaram. pois isso trará não apenas mais segurança para ciclistas “selvagens” como eu, mas também aos que estão começando a pedalar pela cidade. e aí vale lembrar o exemplo de amsterdam. são paulo tem condições sim de seguir o mesmo caminho. mas, para isso, é preciso que alguns pseudo-ativistas parem de jogar contra, e parem de apoiar projetos diversionistas de vereadores à procura de seus 5 minutos de fama.

 

 

 

 

 

 

 

4 Respostas para “bicicletas à esquerda

  1. Eu acho que em alguns lugares é inegavelmente melhor na esquerda. Um possível local: na av Loureiro em POA, estão fazendo uma ciclovia na direita mas se fizessem na esquerda evitaria muitos cruzamentos e alças de acesso que hoje são perigosas.

  2. uma informação: em Brasília, a faixa à esquerda na via que está no vídeo não é ciclovia ou ciclofaixa, mas uma faixa para veículos desativada há alguns anos. http://goo.gl/maps/MDFzr (centro da imagem). aqui, as ciclovias são de concreto, tipo calçada. cruzam as vias sem qualquer sinalização ou acabam no meio do nada. abraço.

  3. Eu estou decepcionado até agora com a administração Haddad. Por um lado está tomando atitudes bastante corajosas e que considero corretas, como as faixas de ônibus e as ciclovias, mas por outro parece estar implementando essas medidas de forma estranha, parecendo apressada e sem planejamento. As faixas de ônibus devem ter perdido muito de sua efetividade, isso devido à fiscalização ineficiente. Todo dia vejo motoristas espertinhos furando a fila usando as faixas exclusivas, muitas vezes atrapalhando a progressão dos ônibus. Dias de trânsito mais carregado, as faixas desaparecem. A gente também vê vários pontos que as faixas já foram remendadas, tiveram trajeto ou largura alterados, e mesmo um leigo já estranhava a forma de implementação inicial. Temo que estes fatores prejudiquem ainda mais as ciclofaixas, pois os ônibus, mesmo sem fiscalização, ainda tem um poder inerente de impor algum respeito devido ao seu tamanho. Além disso, mais pessoas os reconhecem como meio de transporte válido. As bicicletas, unindo o preconceito que ainda tem de parte da população (Qq matéria sobre ciclofaixas é bombardeada por comentários de pessoas que simplesmente não concordam com seu uso como meio de transporte), e por serem praticamente inofensivas, serão amplamente desrespeitadas. Concluindo, penso que se o Haddad não se preocupar em fazer respeitar as faixas de ônibus e bikes, se arrisca a perder as duas iniciativas.

    • olha, conversando com um engenheiro que é ciclista, ele dizia que esse tipo de obra precisa de correções até os primeiros 50 kms de implementação. pra “acertar a mão”. espero que seja isso mesmo que esteja acontecendo. mas ainda acho melhor essa estrutura que nenhuma. planejamento há, há décadas. apenas nunca um prefeito deu carta branca pra quem fez esse planejamento implantar.

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