dane-se a vida

hannah arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”. não um mal que exista em si, que tenha substância, mas o mal que se instala onde há vazio de pensamento.  ou seja: o mal aparece entre as relações entre humanos, todas elas, inclusive as de violência.

uma das formas de mal, comum no trânsito, é a simples indiferença. essa matou tanto márcia prado quanto minha amiga julie dias, ambas atropeladas por motoristas de ônibus que não deram à minima para suas presenças nas vias quando mudaram da faixa da esquerda para a direita. e também, supõe-se (na melhor das hipóteses)  que tenha ocorrido o mesmo no atropelamento do meu amigo raphael giannini, como relatado aqui, embora eu desconfie seriamente de atropelamento intencional, em razão dos atos do motorista após o atropelamento.

gilbertobueno

hoje, domingo, 15 de junho, outro atropelamento fatal em são paulo, aconteceu na avenida professor geraldo ataliba, onde uma van ao fazer uma curva em alta velocidade sobe em cima de uma calçada, e mais adiante atinge e mata o ciclista gilberto bueno. clique nesse link, e veja que foi bem no local onde está a van cinza.

no local onde há serragem, onde estava o corpo. a bicicleta é da fotógrafa, silvia ballan, que gentilmente cedeu essa imagem.

no local onde há serragem, onde estava o corpo. a bicicleta é da fotógrafa, silvia ballan, que gentilmente cedeu essa imagem.

a que velocidade estava a van a ponto de passar por cima da calçada e pegar um ciclista que trafegava ali à frente? pois é, dirige-se de qualquer forma em são paulo. é a indiferença do motorista em relação ao seu entorno. talvez imbuído de uma noção errônea acerca de um direito dos condutores de veículos motorizados sobre todos os demais. visão essa calcada na total indiferença com a vida humana. um exemplo? esse editorial do jornal “o estado de são paulo”, que brada contra a construção de ciclovias pois elas retirariam vagas de estacionamento de carros. ou seja, segundo o jornal, o direito de deixar seu carro parado privatizando o espaço público se sobrepõe à proteção à vida do cidadão que está numa bicicleta.

o “dane-se a vida alheia” é generalizado, mas aflora de diversas formas. do tratamento aos acusados de crimes (que, notem, até o julgamento, onde podem ser inocentados, presume-se sua inocência), que sofrem violências diversas, como nesse relato, ou até em simples obras públicas, como a ciclofaixa da foto abaixo, pintada de forma tão displicente que ignorou o degrau.

mero descaso ou para fazer o ciclista cair?

mero descaso ou para fazer o ciclista cair? foto de tonimar dal alba

um outro relato de fato ocorrido comigo é revelador de como a banalidade do mal se espalha por estruturas as mais diversas.

ontem, 14 de junho, estava eu fazendo um audax 400 km quando com cerca de 210 km a rosca da pedivela, no braço esquerdo dela, onde se encaixa opedal esquerdo, espanou. não havia como eu seguir. era noite. andei o que pude pela sp-225 e cheguei à rodovia washington luís, onde solicitei o suporte da própria rodovia. sim, serviço de guincho, que pode ser usado por qualquer usuário da rodovia, esteja em veículo motorizado ou não.

o guincho levou-me a 3 km adiante apenas e nã até o km 1675 da washington luís, onde estava o PC3 do audax e onde eu conseguiria dali ir embora. no posto de gasolina onde fui deixado não consegui qualquer forma de transporte, nem pagando. e já havia gente perguntando o preço da bicicleta e perguntando se ela não custava uns 30 mil  (e era minha speed com quase 20 anos de uso, caixa standard…).  resolvi voltar à estrada e continuar com o esquema anterior: pedalar só com a perna direita nos ultra raros trechos planos, nas descidas ir no embalo, nas subidas empurrar… havia percorrido já uns 3 kms uma van da própria administradora da estrada pára. o motorista pergunta sobre o problema, relato, me oferece transporte par apelo menos o mais perto possível do km 175 (uns 20 km adiante do ponto onde eu estava).

na van, o diálogo do motorista coma central, pelo rádio, entre diversos usos do código Q, percebo o esforço do motorista para explica o porquê de ir além próximo posto de gasolina apenas justificando a minha “remoção” da via. basicamente eu era apenas um problema na via, e apenas isso justificaria minha remoção. não obviamente na mente do  motorista da van, que se condoeu do meu problema, mas assim entendido pela pessoa que autorizou a ida até aquele ponto. na van, na conversa, nas entrelinhas revelou a compaixão para com quem estava meio desamparado na estrada. um gesto de humanidade, cada vez mais raro num mundo de sistemas, dados, e números apenas.

 

 

6 Respostas para “dane-se a vida

  1. Gosto muito do blog, mas poderia usar maíusculas no início de frases, etc.

  2. Plágio é um elogio.

    As idéias devem ser livres para serem copiadas. Nada é original.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s