marchas: discutindo a relação

marchas. quantas vezes alguém falou pra você que meteu um cassete 11-34 na bicicleta pra ter marchas mais leves na subida, e outro explicou que trocou a pedivela por uma compacta para também ter marchas mais leves e você não entendeu nada?

dois homens pedalando penny-farthings em los angeles, ca, em 1886.

e quando alguém diz que preferiu colocar um pinhão com 17 dentes na bicicleta fixa pois com 14 dentes a marcha tava muito pesada e com 21 dentes girava demais das descidas, e você não enteu nada?

pois é. vamos entender o básico das marchas. assim, para poder se entender que, dependendo do conjunto de peças de uma bicicleta, uma bicicleta com 30 marchas tem menos amplitude de marchas do que uma com 21 marchas.  e que marchas a mais ou a menos por si só não implica em marchas adequadas.

primeiro vamos entender o que é uma marcha pesada e uma marcha leve. ou uma marcha longa e uma marcha curta.

marcha longa ou pesada –  marcha pesada você conhece: tem que fazer muita força pra sair pedalando, se estiver parado. mas também, a bicicleta anda muitos metros com uma única pedalada. por isso éla é chamada de marcha longa também. é aquela marcha que você quer colocar numa descida para acelerar ainda mais.

marcha curta ou leve – é aquela que você também conhece: fica fácil pedalar. é muito leve. às vezes, pra andar uns poucos metros você tem que pedalar muito… pois claro, é a marcha curta. é a marcha para as subidas, seja elas quais forem… pois não dá pra subir com uma marcha longa demais, não é?

numa bicicleta de marcha única (mesmo que seja uma fixa) a escolha da marcha é crucial. pois, não havendo escolha, você terá essa única opção para qualquer trajeto. se quiser andar rápido no plano ou numa descida, pedalará bem rápido…  mas, numa subida, fará força… e eventualmente por mais que faça força, não dá pra subir. e então descerá da bicicleta para empurrar.

quem mora em cidades planas comumente usa bicicletas com marcha única. mas quem usa bicicletas em locais com relevo mais acidentado, tem necessidade  de múltiplas marchas.

penny-farthing. o tamanho da roda era limitado pelo tamanho da perna do ciclista.

quando o modelo predominante de bicicletas era o das penny-farthings, como a da foto acima, notou-se que quanto maior a roda dianteira, mais pesada era a marcha: ruim em subidas, mas quando embalava, chegava a altas velocidades.  pois claro, quanto maior a roda, maior o seu perímetro, ou seja, maior o trajeto feito em apenas uma volta da roda.

os americanos tiveram muitas penny farthings em ação no final do século XIX e começo do século XX. e como haviam percebido essa relação entre tamanho da roda e a marcha, passaram a classificar as marchas a partir do diâmetro da roda, em polegadas. e usam esse sistema até hoje. eles se referem a marchas como de 63 polegadas (medida comum em bicicletas de marcha única americanas), 101 polegadas, 34 polegadas… sendo que quanto menor o número, mais leve a marcha, quanto maior, mais pesada e longa…

mas foi inventada a bicicleta como conhecemos: tração na roda traseira, e transmissão indireta, por corrente.  no início, a coroa da pedivela e o pinhão, preso ao eixo da roda traseira tinham o mesmo tamanho, o mesmo número de dentes. mas depois alguém lembrou que polias de tamanhos diferentes podem trabalhar junto, que engrenagens multiplicam e dividem… e assim, aprendeu-se que se colocarmos uma coroa grande e um pinhão pequeno, temos uma volta no pedal e 3, ou 4 ou 5 voltas na roda…

e, assim, poderíamos ter uma roda traseira não tão grande, e mesmo assim ter marchas mais pesadas. ou então uma roda traseira grande e, mesmo assim, marchas bem leves.

então para se entender, se a coroa da pedivela tem 44 dentes, e o pinhão, lá na roda, tem 11 dentes, quando se der uma pedalada completa, a roda terá girado 4 vezes. pois 44 dividido por 11 = 4.

agora, sabendo que uma pedalada, nessa relação (44×11), vai gerar 4 voltas da roda, quantos metros a bicicleta percorrerá em uma pedalada nessa marcha? depende da roda. do seu perímetro.  existem diversas formas de medir o perímetro da roda. uma delas, bem radical, é pegar a roda traseira, arrancar o pneu traseiro e cortá-lo, então esticá-lo e medir….  claro, ninguém vai fazer isso!

uma, menos trabalhosa, é circular o pneu com uma fita métrica. mas a mais simples é simplesmente fazer uma marquinha na lateral do pneu, e medir no chão, em linha reta, o trajeto da volta completa…  eu nem tenho todo esse trabalho. eu simplesmente aproveito uma parte da calçada que tem um risco reto no cimento. estico a trena na lateral desse risco, e começo a volta com a válvula da câmara bem em cima do ponto inicial da trena.

foi assim que descobri que rodas aro 700c, com pneus de 23mm, e rodas aro 26, com pneus de 1,9 polegadas, tem mais ou menos o mesmo diâmetro: 2,10 m.

então, aquela relação que citamos ali em cima, 44×11, com uma roda traseira com aro 700c e pneus 23mm ou uma roda traseira 26 com pneus de 1,9 pol, me darão mais ou menos 8,4m de deslocamento a cada pedalada completa.

é uma marcha longa. boa pra se usar no plano quando se está embalado. ou numa descida. e muito difícil sair pedalando, estando  parado, quando se usa essa marcha….

ora, agora fica fácil fazer uma fórmula pra se calcular o deslocamento numa pedalada, em metros:  (C/P)xR=M ou seja, primeiro você divide o número de dentes da coroa (C) pelo número de dentes do pinhão (P). e o resultado você multiplica pelo perímetro da roda (R), que dará o deslocamento da roda numa pedalada compelta, em metros (M). assim, coroa 44 dentes, dividido por pinhão 11 dentes, dá 4. 4 multiplicado pelo comprimento da roda, 2,1m, vai dar 8,4m de deslocamento por pedalada, se a bicicleta tiver montada com essa marcha.

se você pedalar a 90 pedaladas por minuto, nessa marcha, vai chegar a quase 45 kms por hora.

e então você pergunta: mas se minha bicicleta tem pedivela de 3 coroas, e cassete com 8 pinhões, são 24 contas diferentes? sim, é assim.

por isso há quem monte planilhas, e há também diversos calculadores de marchas na internet, que informam tanto o comprimento em metros por pedalada pra cada marcha, quanto também naquele sistema americano antigo, em polegadas, numa medida duma fictícia roda de penny-farthing. eu prefiro em metros por pedalada. mas basta procurar pela internet, por “bicycle gear calculator” e muitos resultados aparecerão. se quiser, monte uma planilha no seu software de planilhas.

não há como você fazer essas contas sem saber o básico sobre sua bicicleta. nem usando os calculadores da internet. é preciso saber quantos dentes tem em cada coroa da pedivela, e quantos dentes em cada pinhão do cassete, além de saber a medida do pneu. são conhecimentos básicos sobre sua bicicleta que você deve ter.

e lembre, o conceito de marcha pesada ou leve não é absoluto. há quem suba morros com marchas mais pesadas, e outros só o consigam fazer com marchas mais leves. e também a largura do pneu, o peso total carregado (bicicleta + ciclista + bagagem), o atrito (pneus de maior pressão resultam em menos atrito, por exemplo), a resistência do ar… tudo isso vai impactar a forma como você se desloca com sua bicicleta.

 

 

 

 

 

 

2 Respostas para “marchas: discutindo a relação

  1. Deu até vontade de contar os dentes da Edna, mas, na boa, parece que bicicleta single usa alguma relação mágica, pois aquela única relação parece ter uma amplitude que cobre as amplitudes de várias das relações disponíveis nas outras bicicletas. A falta de opção faz o cérebro se permitir mais.

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