políticos, pelegos e pedestres…

(escrevo durante uma greve de motoristas e cobradores de ônibus em são paulo, aparentemente acéfala).

estação de aluguel de bicicletas completamente vazia em dia de greve de motoristas de ônibus e cobradores em são paulo.  foto de maurício bussab.

estação de aluguel de bicicletas completamente vazia em dia de greve de motoristas de ônibus e cobradores em são paulo. foto de mauricio bussab.

o micro e o macro se encontram. então, pode-se falar de uma greve numa cidade pra se falar do mundo. 

em são paulo há agora uma greve de motoristas de cobradores de ônibus. boa parte da frota das empresas particulares não está circulando. a greve começou ontem durante o dia. os ônibus começaram a parar durante o dia, a partir das 10 horas. ou seja, a população já tinha, em grande parte se transportado para seus trabalhos e afazeres. e essas pessoas ficaram sem transporte para voltar para suas moradias. em alguns casos, andaram por 18 quilômetros. trens e metrôs circularam lotados, mas a rede não é capilarizada o suficiente para cobrir a cidade.

hoje a greve continua. o grande detalhe é que, ante-ontem, foi feita uma ‘assembleia” do sindicato onde se fechou um acordo que suspenderia a greve. há grevistas que, na TV, dizem que a diretoria do sindicato antecipou em um dia a assembleia pra não permitir que houvesse grande participação dos trabalhadores.

bom, o elemento novo é que controlar uma assembléia, antiga técnica de domínio de organizações as mais diversas, de sindicatos a sociedades anônimas, passando por condomínios, pode não significar  mais nada em determinados casos. é claro que essa greve, aparentemente acéfala, tem ampla adesão da base. ou seja, é a diretoria do sindicato que é uma cabeça sem corpo. sindicalista que age mais no interesse do patrão do que no interesse do empregado tem um nome: pelego.

a greve envolve empregados e empresas de ônibus. mas a bomba caiu no colo da prefeitura, interessada sempre em manter o sistema funcionando. o prefeito fernando haddad compara o movimento a uma guerrilha.  ou seja, está perdidinho na situação. afinal, ele não sabe mais com quem fala, é óbvio.  só pra lembrar, na última eleição de diretoria desse sindicato, até tiros ocorreram…

esse é o mesmo prefeito que, como os demais candidatos na última eleição, assinou um carta-compromisso com entidades de ciclistas.  o mesmo prefeito que teve uma manifestação de ciclistas na porta da sua casa no dia em que um carro, dirigido por um ébrio, arrancou o braço de um ciclista, em plena avenida paulista.  o mesmo prefeito que não cumpriu nenhum item daquela carta compromisso.

pois como as coisas se ligam?

pois bem, um sistema de transporte urbano tem pessoas que trafegam e pessoas que são transportadas. trafegam motoristas, motociclistas, ciclistas, pedestres, skatistas…  são transportados todos aqueles que usam ônibus, trens, metrôs, táxis…

quem é transportado depende do transporte. e tem muitos problemas quando esse transporte não funciona.

por outro lado, quem trafega faz parte do trânsito. e nessa hora, sabemos muito bem que um sistema de tráfego  individual baseado no carro leva ao caos. é uma questão de física: em deslocamento, uma bicicleta ocupa uns 2 metros quadrados, tanto quanto um skatista. um carro, ocupa 50 metros quadrados.

quem trafega não depende do sistema de transporte público. apenas depende de si, do seu veículo e da estrutura já existente.

ontem, no auge da confusão, eu levei no meu deslocamento de casa a uma faculdade onde trabalho, o mesmo tempo que levo sempre. mesmo havendo mais pessoas na rua e o recorde de congestionamento do ano. eu e todos os ciclistas que conheço que usam bicicletas para transporte. assim como todos os pedestres e skatistas habituais. quem dependia do transporte público sofreu, assim como sofreram motoristas em seus carros e mesmo motociclistas: ouvi muita reclamação sobre corredores atulhados de carros por onde motos não passariam. eu mesmo passei muitas motos no meu trajeto.

é fato que o desconforto geral seria menor se a cidade tivesse uma política que de fato promovesse ouso da bicicleta. para trajetos de até 15 km por trecho (ida ou volta), a bicicleta é acessível a qualquer um que goze de plena saúde. qualquer outra necessidade (roupas, vestiários, locais para prender as bicicletas) é passível de resolução satisfatória. o empecilho ainda é a estrutura viária.

o fato é que grande parte da população sofre de um pouco de insegurança no uso da bicicleta. quem tem maior tolerância ao caos – eu e um bando de doidos que conheço – transita mesmo por regiões que são consideradas “inóspitas”…  eu passo todo dia por uma rotatória na zona norte da cidade que causa pânico mesmo para motoristas que se julgam protegidos em seus carros… aprendi a trafegar por lá. não é simples, nem agradável, apenas possível.

se o prefeito tivesse se mexido para cumprir os sábios itens da carta-compromisso que assinou, principalmente o item 6º, que trata da travessia segura de pedestres e ciclistas pelas pontes e viadutos de são paulo, teríamos uma quantidade bem maior de ciclistas trafegando. uma prova disso é a lotação do bicicletário da estação de metrô butantã pouquíssimo tempo depois de inaugurada a ciclovia na avenida eliseu de almeida, pleito de mais de 20 anos….

em se criando as estruturas básicas, ciclovias nos lugares corretos, passagens seguras pelos gargalos representados por pontes e viadutos (o perigo está nas alças de acesso que lhes são anteriores e posteriores, sempre de alta velocidade),  sinalização e diminuição de velocidade em determinados pontos da cidade, e claro, fiscalizando-se o disposto na lei municipal nº 14.266 (que obriga bicicletários e paraciclos em todos os locais de grande afluxo de pessoas, inclusive escolas), pode uma parte considerável da população começar a usar bicicleta como transporte, e não mais sofrer no trânsito.

mas o prefeito descumpre a carta-compromisso…

e o resultado aí está. o prefeito, que escreveu uma tese sobre j. habermas, parece ignorar o autor que estudou. talvez não tenha lido seu texto seminal, “new social movements”. talvez ignore outros pesquisadores, como alberto melucci ou nancy frasier, e, claro, antonio negri… afinal, hoje ele é mais político do que professor e/ou pesquisador. e claro, está com um problema seríssimo de comunicação com os movimentos sociais. afinal, insiste em canais mais sólidos, sendo que hoje os movimentos são mais líquidos. em resumo, não basta sentar co mo diretor do sindicato, tem que saber se esse diretor está colado na base ou não. cargos não significam mais nada…

é, o mundo está mais complexo. hoje as redes de comunicação estão potencializadas pela tecnologia. celulares, internet e o escambau estão aí permitindo interconexão entre pessoas. a dinâmica de massa, de multidão, agora se desdobra no hiperespaço.  e isso serve desde para organizar uma festa quanto para organizar um protesto.  e como a cidade está sim um caos… (e não por causa da gestão atual, ressalte-se).

as soluções antigas não servem mais. tudo que se sabia não vale mais nada. um sistema baseado no carro não funciona. um sistema baseado no ônibus ou no metrô ou ônibus também falha. falta o novo: investir na bicicleta. que, junto com o skate, o patinete, os patins, apresenta-se como única opção de transporte individual viável numa cidade. mas, de fato nada se faz…

(ah, claro! essa especulação imobiliária das últimas décadas ainda criou as condições para o fortalecimento dos movimentos de moradia. ou se interfere nesse mercado de forma a se ter uma política clara de moradia par aos mais pobres, ou então invasões vão se multiplicar de forma exponencial)

bom, o que nos espera? não sei. as questões estão aí. quem quiser que se cubra. meu conselho? só posso aconselhar que se faça duas coisas: use filtro solar e compre uma bicicleta.

ah, pra quem acha que greve é assunto de polícia, sinto dizer, a polícia está ocupada fazendo o que sempre faz, isso aqui.

————–

um brinde para o prefeito:

“As sociedades complexas não possuem mais bases econômicas, mas uma  integração crescente das estruturais culturais, políticas e econômicas… Os espaços sociais dos movimentos se constituem como arena distinta do sistema e não coincide mais com as formas tradicionais da organização social da solidariedade e de representação política.” ( MELUCCI, Alberto. A invenção do presente. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. p. 22).

 

 

 

 

 

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Uma resposta para “políticos, pelegos e pedestres…

  1. Houve estipulação de prazos por ocasião da carta-compromisso? Se não houve, falha nossa!!! Com relação ao jovem que supostamente foi preso indevidamente, eu gostaria de saber uma coisa, você acha que há uma solução? Qual? Eu vejo que sempre protestamos, nos indignamos, mas estes episódios se repetem. O que fazer efetivamente???

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