13 de maio de 1888

o brasil antes de 13 de maio de 1888:

brasil, c. 1880, fotógrafo desconhecido

brasil, c. 1860. fotógrafo desconhecido

Thomas Ewbank. Life in Brazil. New York, Harper & Brother, 1856

 

agricultor e esposa. Henry Koster. Travels in Brazil. London: Longman, Hurst, Rees, Orme and Brown, 1816

 

James Henderson. History of the Brazil: comprising its geography, commerce, colonization, aboriginal inhabitants. London: Longman, Hurst, Rees, Orme, and Brown, 1821.

 

a vida no brasil após 13 de maio de 1888.

 

av ordem e progresso, são paulo,

estação sé do metrô-sp, numa tarde qualquer.

carro oficial na faixa exclusiva para os ônibus. são paulo, um dia qualquer.

senadora kátia abreu no plenário. clique na foto e descubra por que ela está nesse post

carro entra na faixa exclusiva dos ônibus. clique na foto e leia mais.

cadeirante em pouso alegre, mg. clique na imagem.

 

uma ocupação. luta por moradia.

incêndio na favela do moinho, em são paulo, em dia de desocupação pela PM. clique na foto.

ah, os ciclistas. esses são invisíveis. só são vistos depois de atropelados. se alguém tiver estômago pra ver imagens pesadas, muito pesadas, clique aqui. eu não aguentei 30 segundos pesquisando.

grade em passarela na região central de sp. foto de wagner hirata

grade em passarela na região central de sp. foto de wagner hirata

é fato que se a liteira era a prioridade antes, o carro e o motor ainda o são. é fato que primeiro se faz uma estrutura para os motorizados, depois, sob pressão é que se tenta corrigir o erro, quando se faz. assim o é no caso da 3ª ponte de vitória. assim o é no caso das pontes sobre as marginais em são paulo, sobre os rios, que hoje constituem uma espécie de muro por onde se atravessa em checkpoints, ou por que se cumpriu as regras de passagem (estar motorizado) ou se passou clandestinamente, com risco de vida (como fazem ciclistas, pedestres e cadeirantes que tentem passar). tal como era durante os anos nos quais berlim ocidental ficou murada.

ora, se antes as placas indicavam que escravo não entrava ou entrava pela porta de serviço, hoje o trabalhador só atravessa as pontes das marginais a trabalho, durante a semana, pois aos finais de semana os ônibus diminuem bastante sua frequência. atravessar a pé ou em bicicleta nem pensar ou correndo riscos.

claro, o inferior pode correr riscos. historicamente os filhos das altas classes não serviam nas infantarias e, se o fizessem, só em altos cargos do oficialato.  hoje é o pobre que está nos empregos de risco coo limpador de vidraças, ou nos andaimes das obras. o menino pobre tem que pegar ônibus para ir às escolas, atividade perigosa para o menino da classe alta cujo pai ou motorista o deixa de carro na porta da escola.

as estruturas permanecem, e se escancaram quando se amplia os direitos dos empregados aos empregados domésticos (como aconteceu nos discursos inflamados contra a pec 37) ou desaparecem vagas de estacionamento ou então são construídas faixas exclusivas para ônibus. em são paulo, menos de 30% da população usa o carro diariamente, mas respondem por cerca de 80% dos congestionamentos. veículos automotores respondem por mais de 90% da poluição que mata ou agrava doenças a ponto de levar aà morte, anualmente, 4.00 pessoas.

sim, só pela poluição, 4.000 mortos anualmente, segundo paulo saldiva. mas a vida dessas pessoas vale menso que o “direito” a usar um carrão com motor V8 para ir ao trabalho.

ora, é justamente a percepção do outro como tão inferior que sua vida possa ser sacrificada em nome duma necessidade ou prazer seu  que está na gênese do conceito de escravidão, da submissão da vida alheia ao seu bel-prazer.

é fato que faltam estudos mais abrangentes acerca da psicopatia de massa. aquela que não é manifesta no indivíduo, mas  no comportamento coletivo. a ira coletiva desmesurada conhecemos: os linchamentos.  e a psicopatia coletiva, caracterizada por uma total indiferença para com o sofrimento alheio, deixa de existir apenas por que não a percebemos?

sim, 4.000 mortos ao ano, e 40.000 pessoas internadas, sofrendo, anualmente.  mas como as pessoas nunca viram uma mãe ou pai com olheiras profundas saindo de manhã dum hospital, onde seu filho foi internado durante a noite por problemas respiratórios, isso não importa. importa o prazer de dirigir, mas não interessa entender o que acontece nas ruas, pois não interessa nelas andar.

é fato. enquanto negros e brancos, nesse país, não dividirem as mesmas escolas, clubes, festas, empregos, salários, direitos, deveres, nós não seremos uma democracia. enquanto a camiseta e a gravata (ridícula, aliás) não dividirem os mesmos espaços em pé de igualdade, e as falas não valerem pelo seu conteúdo e não status do falante, não seremos uma democracia.  e quanto mais anti-democrático e desigual é um país, mais violento ele é. afinal, para andar com seu rolex no pulso em tranquilidade, tem que lavar seu próprio banheiro e suas próprias cuecas.

em resumo: por 400 anos a escravidão esteve na legalidade no brasil. levaremos mais 400 anos para desfazer por completo a herança negativa nas mentalidades… e há um senhorzinho de engenho bem cruel, ou um crudelíssimo capitão do mato, em cada fala contra os direitos mais básicos dos mais ferrados desse país.

(em tempo, o homicida condenado thor batista sofreu alguma tentativa de linchamento? ou na TV só se defende o linchamento de pobres?)

 

 

 

3 Respostas para “13 de maio de 1888

  1. Esse é o estilo de postagem que faz diferença existir. É preciso invadir o pequeno mundo das pessoas “bem nascidas”, fazê-las se colocar no lugar dos outros.
    Eu não conseguiria viver no meu país fingindo ou esquecendo esses fatos aí. Prefiro a dor de ver isso exposto, sabemos que isso perturba a nossa mente, fugir não é a opção. Vou com a esperança que mais pessoas, especialmente a minoria que está em conforto social, que abram o coração, saiam de seus casulos.
    Impossível ser feliz de verdade, isolado nesse mundo cor-de-rosa, se tiver ciência dessas aberrações sociais de opressão, de desigualdade e preconceitos. Quem sabe assim mais pessoas se envolvam, e descubram como a felicidade é muito maior quando é vivida coletivamente.

    Márcio Campos

  2. é. márcio. mas às pessoas é mais fácil fechar os olhos.

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