éramos felizes. e não sabíamos.

para fazer um breve relato do meu último brevet de 300 km, preciso fazer um introito.

antes da largada dos mais de 200 participantes, rogério polo faz a preleção sobre o brevet.

antes da largada dos mais de 200 participantes, rogério polo faz a preleção sobre o brevet.

foi assim. no final dum brevet de 200 km, na última subida digna desse nome antes de holambra, eu arrastava-me. igor gabia passou à minha frente e gritou para segui-lo. subiu num ritmo que eu podia acompanhar, mas não sem me encher o saco. tinha 17 anos.

subi carregado no vácuo que ele produzia.  mas não sem avisar que, a partir do pórtico do moinho, no trecho plano, ele não me pegaria. ele duvidou. afinal, horas antes, num outro PC, após uma subida, quando cheguei com cara de exausto, ele, por ironia mas não sem um pouco de solidariedade, pagou uma coca-cola pra mim.

coca-cola é doping de ciclista amador. é uma bomba de sódio e muito açúcar. coisa que se ingerimos no dia a dia, nos mata aos poucos. mas num pedal longo traz algum benefício.

dito e feito, passei o pórtico, levantei a bunda do selim e gritei: você não me pega! – e de fato, não me pegou. deu tempo de chegar e descer da bicicleta antes de ele chegar. ele era um passista fenomenal, mas que tem explosão sou eu. isso é genética, não escolhemos ser desta ou daquela forma.  a partir dali ele começou a estudar mais sobre ciclismo, meio espantado de ver aquele “tio velho” (com me chamara na subida) sumir na frente dele naqueles 300 ou 400 metros finais.

no brevet 300km seguinte, ele me esperou no último PC. com uma coca-cola na mão, e o desafio: tó a coca, quero ver aquele sprint no final!

puxou-me  naquele trecho de uns 75 km. quem é do pedal sabe como vácuo é algo que existe, o que torna confortável ciclistas andarem em grupos. quem está atrás faz menos força de quem está à frente. nas equipes, os sprinters, competidores de explosão, são puxados pelos demais. grandes puxadores são os passistas, que mantém um passo alto por muito tempo. mas não têm aquela explosão dos sprinters.

de novo a brincadeira, ele queria ver a arrancada nos últimos metros. perguntava-me sempre de onde vinha aquilo. e eu sei lá? só sei que no trânsito eu escapo dos carros que vêm em alta velocidade de algumas alças de acesso às pontes na base do sprint. pedalar em são paulo é um eterno treino de tiro, com direito a sentir o coração sair pela boca, várias vezes ao dia.

no ano seguinte, a nova brincadeira nos 300 km daquela outra série. de novo puxou-me por 75 km.  não apenas nos brevets de 300 km, quando cruzava comigo nos audaxes já mandava segui-lo.  sei lá se fazia por pena de mim, uma vez que sempre me arrasto na longa distância, ou por que gostava de puxar os outros no vácuo.

na última vez que o vi, era uma sexta-feira, estávamos numa lanchonete dum amigo. conversa solta. eu havia comprado uns pneus do artur, e precisava amarrá-los no bagageiro da bicicleta, e igor foi me ajudar.  nos abraçamos ali, mas naquele momento eu não sabia que seria uma despedida. no dia seguinte, pela manhã, numa estrada de são paulo, igor faleceu, numa tentativa de assalto. estava em sua bicicleta, “la gabia”. menos de um mês depois, completaria 19 anos.

fiz dois brevets depois disso. 200km em campos do jordão, com a a altimetria insana de 3.800 mt de subidas acumuladas, que absorveu minha mente. mas eu carregava uma tristeza talvez insuspeita, e a pessoa que foi me pegar ao final talvez não saiba como me fez bem naquele dia.

o outro foi de 300 km, nesse dia 03 de maio p.p. o mais árduo dos 300 km que já fiz. não pela altimetria ou pelo vento.

a bursite renitente, resultado de atropelamentos e da mania de escrever em lousas toda noite, tem me maltratado nos últimos dias. por isso, não fui com minha habitual bicicleta utilizada nos brevets, com quase 20 anos de uso, mas como minha trek 1500 “cecizinha”, com quadro e garfo que recebi por doação, montada com peças que já tinha e outras doadas igualmente, dotada de um alto guidão reto… guidão largo também, que permitia colocar as mãos numa posição em que meu ombro direito não doeria. nesse aspecto, foi a acertada a escolha.

mas mais ereto perdi aerodinâmica. isso foi importante nos trechos com vento contra. importante para me deixar mais lento.  e claro, as cãibras, inobstante pastilhas de sal, complexo b, isotônico, água e etc. nunca num brevet eu havia preocupado-me tanto com cãibras, e mesmo assim, nunca elas vieram com tanta força.  eu conto nos dedos quantas vezes tive cãibras em audaxes: queluz 2013, campinas 2003. desta vez vieram à toda força quando eu completava 100 kms pedalados, e tinha uma conversa divertida com a vivi.

a partir dali foram 200 kms de cãibras. até na mandíbula…. pedalando, ou parado. a última na subidinha na entrada de holambra. cãibras do meio dia à uma da manhã. as cãibras ocuparam-me a cabeça.

o trajeto é bonito. saímos de holambra, passamos por artur nogueira, engenheiro coelho. pegamos um trecho da anhangüera, depois uma vicinal, por uma outra estrada, e então vamos novamente a engenheiro coelho, artur nogueira e estamos de volta a holambra. passamos por cidades como porto ferreira, santa cruz das palmeiras e  casa branca. o trecho mais bonito era o mais árduo, com alguns morros sucedendo-se, e vento contra. nesse trecho o pneu de um caminhão soltou a banda de rodagem que voou para o acostamento onde eu estava, mas passou por uns 5 mt atrás de mim.  só o susto do estouro.

encontrei muitos conhecidos, de outras provas, de outros eventos. afinal, randonneurs viajam por aí à procura de novos trajetos para pedalar até não aguentar mais e então pedalar mais 100 km.  e vamos nos conhecendo, esses amadores do pedal, com seus desconhecimentos, suas trocas de experiências, seus aprendizados nas trocas mútuas, afinal, audaxes são penas uma forma extrema de cicloturismo.

já era noite e eu tomava a sopinha que a administração do brevet disponibilizava no último PC quando comecei a sentir falta daquele meu amigo. o último PC era onde ele me esperava nos brevets curtos de 200 e 300 km.

fiz o último trajeto só. na verdade, boa parte do brevet fiz só, pois normalmente as pessoas vão mais rápidas que eu nas subidas, mais lentas nas descidas, e eu não sou um ciclista de passo.

mas aquele trecho de 35 km no final, foi dolorido. ali doeu-me não o corpo, já entorpecido por endorfinas, mas a alma.

cada um elabora o luto de uma forma diferente. o fato é que a única certeza da vida é a morte, a última possibilidade na vida que é uma impossibilidade. dizia o velho mago da schwarzwald que interpretar não é dar o sentido correto, mas elaborar todas as possibilidades. humanos, temos ciência da certeza da morte e da incerteza do quado de sua ocorrência. e, nas nossas pretensões mesquinhas sobre o mundo, mergulhamos nas nossas ocupações, opiniões, banalidades.

ousamos estabelecer regras para o mundo da vida, e uma delas diz que os mais novos não devem ir antes dos mais velhos. tanto que há uma palavra que define o filho sem pais: órfão. mas que palavra se dá, se utiliza, para se referir a uma mãe que perdeu o filho?

duas mãos se batem e produzem o barulho das palmas. que barulho faz uma mão só?

não elaboramos todas as possibilidades da vida. e sofremos quando elas ocorrem. sofremos muito. ousamos querer julgar o mundo pelas nossas noções de justiça, fazemos isso desde o alvorecer do pensamento laico, não mergulhado no mythos, mas no logos. num antigo comentário de simplício acerca de anaximandro, se fala sobre a geração e corrupção dos seres, e justiças e injustiças mútuas. talvez desde sempre perguntemos: por que as coisas são assim e não de outra forma? e sempre ficamos sem respostas. elaboramos os mais belos castelos intelectuais nas nuvens para tentar ordenar o mundo, mas nada é tão sólido que não possa se desmontar, nada temos que não possa ser nos retirado, imersos no tempo que somos. vanitas vanitatum. הֲבֵל הֲבָלִים הַכֹּל הָבֶל 

ao final, todos os rios correm para o mar. e devemos, de uma forma ou outra elaborar nossos lutos. devemos seguir adiante. mas que é dolorido e desgastante, isso é.

esses pensamentos ocuparam minha cabeça no trecho final deste brevet. só, no escuro, eu, a bicicleta e um tímido farol. uma metáfora da vida humana: um equilíbrio representando como nos apresentamos, uma máquina simples representando os bens que acumulamos e que nos podem ser retirados, por mais que os tentemos reter sob o título de “propriedade”, um farolzinho representando o conhecimento humano,  e a noite ilimitada e infinita, esta sim a vida: lua a brilhar, estrelas se destacando, mas no fundo a escuridão, imensa diante da pequenez de nossas existências.

cada um elabora o luto como pode, remói as coisas como dá.

em holambra entrei na rua errada, e andei uns quarteirões a mais. brevetei com 18 hs e uns 10 minutos. dolorido, exausto. e sem ter perdido a sensação de que há algo errado no mundo.

as dores do corpo se curam. as da alma, só o tempo.

uma foto que não se repetirá. éramos de alguma forma felizes.

aos amigos que me auxiliaram, meus agradecimentos. o pneu que substituiu o que rasgou, a carona na ida, a reserva no hotel, o transporte na volta, as pílulas de sal, e o carinho do qual não sou digno. e em breve, os 400 km. adiante, sempre, pois todos os rios correm para o mar, e o mar nunca se enche.

4 Respostas para “éramos felizes. e não sabíamos.

  1. Muito bom Ogro, de Cãibras eu posso falar! rs. .. sua sensibilidade é duca! Feliz por conhecer pessoa como voce!

  2. Emocionante o relato. Parabéns pela prova e obrigado por compartilhar conosco esses sentimentos todos.

  3. me lembrou a musica da legião que fala como é tão estranho que os bons morrem cedo

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