a banana, a gravata e a garagem.

daniel alves, jogador de futebol do time do barcelona, teve contra si uma banana atirada da torcida do time contrário. daniel é afro-descendente.

somostodosmacacos

é uma manifestação de racismo? é. chamar negros em geral de macacos, fazendo referência a chimpanzés e gorilas,tem sido uma forma de racismo comum nas últimas centenas de anos. afinal, desumanizar o outro é uma forma de discriminá-lo. já escrevi sobre isso na minha dissertação de mestrado defendida há 10 anos, e não falta literatura sobre o assunto. o magistral “eichmann em jerusalém”, de hannah arendt, de onde se tira a hoje banalizada expressão “banalidade do mal”, claro, ali, arendt entre a profunda influência do mestre/amante, heidegger.

heidegger enxergou a diferença entre a ôntica e a ontologia. de forma ultra-mega-hiper simplificada, podemos dizer que percebe que o ser dos entes se manifesta nas situações limite, ficando, no dia a dia, no cotidiano,  imerso nas ocupações da vida, nas banalidades, o ser das coisas encoberto pela banalidade. são nossas racionalizações que encobrem o ser das coisas. mas as coisas aparecem mesmo quando a porca torce o rabo, para usar uma expressão bem brasileira. na banalidade as coisas vão se tocando… mesmo que de forma maléfica, como fez o nazismo. mais do que um monstro, eichmann foi apenas um diligente e desprezível bom funcionário da máquina nazista do extermínio.

um caso exemplar é o médico august hirt, responsável pelo laboratório de anatomia da unversidade de estrasburgo (então sob domínio nazista), cuja coleção de peças tinha carência de crânios de judeus… encomendou exemplares, obviamente foram transportados vivos de outros campos de concentração até aquele onde, primeiro bem alimentados, e depois executados, teriam suas partes compondo um museu de anatomia.  leia mais aqui sobre essa ignominia. se tiver estômago, procure o documentário ““Em Nome da Raça e da Ciência, Estrasburgo 1941-1944”.

o extermínio perpetrado pelos nazistas foi possível pela desumanização prévia dos exterminados. o mesmo ocorreu antes dos massacres de tutsis promovidos pelos hutus, em ruanda. antes foram desumanizados em programas de rádio. o mesmo no brasil, nos tempos coloniais:  bestas-feras canibais, assim retratados, os índios podiam ser exterminados em nome do bom deus… hoje são os favelados. todos são “traficantes”. primeiro se atira, depois se vê o que se fez. assim morreu um dançarin da tv globo, assim morreu uma vítima de sequestro.

a lógica “superior X inferior”, no que tange às qualidades humanas, é que está na base das formas de extermínio.  tudo começa apenas com um discurso desumanizador.  o nazismo, em 1933, não falava em campos de concentração, em câmaras de gás. nos 25 pontos do NSDAP, a menção aos judeus é de negar-lhes a nacionalidade alemã. e muitos alemães, e não alemães também, entraram naquela conversinha de que “judeu não tem pátria, é povo desenraizado, é muquirana” e etc. anos depois terminamos nos campos de concentração…

nas cidades brasileiras, hoje vigora a lógica do colarinho branco X roupa de mano. a lógica do corpo perfumado X corpo suado. discriminação hoje que se faz no brasil pela cor da pele, pelo valor do veículo, pelo local de moradia, pela roupa usada. e pela desqualificação de qualquer discurso de revolta ou tentativa de se construir de fato uma nação de direitos de fato iguais.

aristóteles nos ensina que tratar de forma igual os desiguais já é, por si só, uma forma de discriminação.

tratando todos igualmente....

tratando todos igualmente…. assim todos atravessam as pontes sobre as marginais.

o trânsito de são paulo, e das grandes cidades brasileiras faz isso. trata todos de forma iguais, coo se fossem carros. caminhões e motos são variantes. não raro podem ter sua circulação restrita.  os corredores de ônibus enfrentam oposições, caso o ônibus ande mais rápido que o carro. e pedestres e ciclistas  são sistematicamente ignorados.

a humanidade do outro é negada. o que se vê apenas é sua utilidade. pode-se ser mão de obra, mas nunca cidadão. por isso não há políticas públicas de moradia para quem ganha de 0 a 1 salário mínimo…

essas são as formas melífluas de discriminação que estão aí, nos detalhes e que, na ponta, terminam com o assassinato da vítima do sequestro. afinal, era negro. primeiro se atira, depois se pensa no que se fez…

a discriminação melíflua começa pelas vestimentas, passa pelo transporte, passa pela educação…. desumanizando o discriminado, sistematicamente, e contando com a adesão à discriminação daquele que, discriminado, quer livrar-se dessa mesma discriminação.

e assim não se luta por um transporte público melhor, mas se compra o carro. orgulha-se de usar terno e gravata, quando antes usava roupas mais simples. não vê racismo no questionamento às cotas raciais na universidade. sim, seriam as cotas racistas. manter as universidades totalmente brancas, isso não seria racismo… e claro, pra quê paraciclo na frente da escola, na frente da empresa? bicicleta é coisa de pobre mesmo…. e claro, dirigir um possante poluidor é direito. quem tiver problemas de respiração que se dane… as ruas são para carros!

sim, nas lentes de contato azuis, no encanto com as gravatas, nos desejos de acelerar um V8, estão as sementes das discriminações. no descaso com os ciclistas, com as mulheres, com os homossexuais, com as crianças, as mesmas sementes. não enxergar também é uma forma de discriminar. afinal, crime pressupõe criminoso e o conivente, para garantir a impunidade.

 

 

 

6 Respostas para “a banana, a gravata e a garagem.

  1. considerar “os homossexuais” e “os ciclistas” como tipos ou categorias é de um Iluminismo, este sim, opressor.

    Não existe tal coisa como “os homossexuais”, isso é uma ficção burguesa. Existe homens. Destes, alguns preferem sexualmente homens (mas isso não faz deles homossexuais) e outros preferem mulheres (e isso não faz deles heterossexuais).

    Odir, faça um favor a si e a nós todos: jogue o verbo ser na lata do lixo. Ivan Illich manda te lembrar que a gramática da alienação institucional é justamente a substituição de um verbo (desejar rapazes) por um substantivo (ser homossexual). Insistir numa “identidade” (se for queer, piorou!) é de um vitimismo infinito.

    (o mesmo vale para usuários de bicicleta: Dona Cotinha, indo levar o neto de garupa na escola, lá na Boca do Rio não é, nem será nunca, ciclista – graças a deus!)

    • claro, isto não vale para o racismo contra os negros, uma vez que ele parte no Brasil de uma evidência anatômica da qual não é possível se desidentificar. Nos EEUU o racismo contra os negros é mais etnico, e seria possível uma solução dialógica – mas eles se agarram tanto artificialmente à identidade que inviabiliza isso.

      Mas ainda sobre o racismo etnico, vale lembrar a solução de Freud: ele continuava se considerando culturalmente judeu, mas era radicalmente contra a idéia do isolacionismo judaico – ao contrario, ele queria um judaismo laico e mestiço, em que os judeus se reconhecessem como mais uma das forças fundantes da intelectualidade europeia moderna (como aliás Spinoza também queria séculos antes), e não como “povo escolhido” nem como “bode expiatório”.

      • tsc… trolls… em tempo: ciclista = pessoa em cima duma bicicleta (definição legal). “ser”, objeto da ontologia. ou, para quem é da fenomenologia, eu inclusive, objeto da ôntica, mundo das banalidades e opiniões. ser se mostra, se atribui ser a. em tempo, negar as diferenças é a melhor forma de reproduzir a discriminação. faça um favor a si mesmo: terapia. de repente algum lacaniano pode ajudar.

      • Usou ad hominem, perdeu. E você apenas reafirmou o que eu digo sempre: continua cheio de boas intenções iluministas – e, agora, assumidamente platônico-parmenídicas. Idealismo pouco é bobagem!

  2. hahahaha. acha mesmo que me ocupo de conceituar “einai”? uma boa leitura de sein und zeit lhe faria bem. ad hominem é o tipo de argumento que vc usa, pra trollar meu blog.

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