o culto à velocidade artificial

existem duas formas de velocidade alcançada pelo ser humano, a velocidade natural, e a artificial.

a velocidade natural é alcançada com o movimento do seu próprio corpo, usando ou não de próteses. aqui se entenda por próteses todos os equipamentos que samos para andar ou correr mais rápido do que com os pés nus e também os aparelhos que potencializam nossos movimentos, sejam patins, bicicletas, skis e etc.

essa velocidade alcançada com o próprio corpo é mais baixa que a velocidade artificial.

independentemente de ser uma boa pessoa, foi garoto propaganda de cigarros e de petrolíferas, além de propagador do culto à velocidade.

independentemente de ser uma boa pessoa, foi garoto propaganda de cigarros e de petrolíferas, além de propagador do culto à velocidade.

a velocidade artificial é alcançada em veículos motorizados. ou seja, o motor não é o corpo humano, mas outra máquina. o humano, no máximo, tem algum controle sobre esse veículo. 

a velocidade artificial é aquela alcançada com carros, motos foguetes, aviões, barcos, ciclomotores e etc. aqui, não há ligação entre o controle da velocidade e a forma e experiência física, pelo menos não uma ligação forte.

para dar um exemplo, alcançar 30 km/h numa bicicleta exige alguma experiência. junto com a forma física adquire-se também a experiência para manter-se razoavelmente seguro a essa velocidade, e não se chega a essa velocidade bêbado, por exemplo. para se chegar a 30 por hora num carro, basta ligar e acelerar.

o detalhe é que, quanto maior a velocidade, menor o tempo de reação. ou seja, quanto maior a velocidade, maior a necessidade de se ter um controle muito mais apurado dos movimentos. pilotar um carro de fórmula 1, certa vez foi comparado por emerson fittipaldi, a dirigir um galaxy a 100 km/h numa pista com 10 cms pra cada lado da pista.  e claro, nessas condições, as decisões devem ser tomadas em frações mínimas de segundo.

veja no vídeo abaixo um carro preto, como se desloca nesse túnel:

lambanças, não?

de onde vem esse comportamento?

bom, há décadas se propagam cultos à velocidade motorizada. seus templos são autódromos, seus santos e deuses são pilotos. é o culto às sensações fortes causadas pela velocidade e seu risco implícito. mas o carro passa uma flasa sensação de segurança.

conheço várias pessoas que dirigem por aí que nem uns doidos. oferecem riscos altíssimos para si e outrem. mas não têm coragem para andar com uma bicicleta na rua, a 10 ou 15 km/h.

mas num carro ou moto, andam a mais de 15o kms. olhe a velocidade da moto no vídeo abaixo, nessa estrada sem condições boas para tráfego:

se se fizer uma pesquisa no youtube sobre acidentes com carros e motos, se acharão cenas fortíssimas. e sabemos como as pessoas dirigem esses veículos, principalmente motos.

mas de onde vem esse comportamento? do bombardeio, desde a infância, de imagens enaltecendo a velocidade e quem corre. de todo o incensamento que a publicidade construiu em cima dessa velocidade artificial.  é o tal glamour em torno de corridas e etc. que, claro, tornou tudo isso um circo bem lucrativo.

ora, como agora querer que o adolescente, crescido e moldado nesse caldo cultural, aja diferente? não há como. pessoas aceleram por aí. se sente traídas se são pegas por radares que flagram quem desrespeita leis. e encaram mortes evitáveis como fatalidades do destino.

é fato que adolescentes têm percepção de risco mais tolerante. é só perceber as reações de pessoas de 15 e 30 anos em montanhas-russas. ou ir a algum filme de terror com bastante sangue no cinema, numa sessão cheia de adolescentes. não raro riem em cenas escabrosas. e assim, como imaginar que adolescentes criados em meios que idolatram carros e a velocidade, não cometam seus erros ao dirigir?

mas qual o resultado disso? uma notícia triste como essa. sim, uma morte evitável. agora, seguida de um luto por parte dos pais, e luto de pai e mãe é algo que não se pode sequer estimar o tamanho dessa dor.

não se pode culpar exclusivamente o adolescente. ou os pais por não terem trancado a chave do carro na caixa-forte de um banco.  essa morte tem causa partilhada por cada publicidade de carros, cada transmissão de corridas, cada fabricante de veículos motorizados que corram além do limite de velocidade.

claro, os cínicos dirão que não há a menor relação entre uma coisa e outra…   claro, toda vez que se percebe alguma coisa de errado em alguma cultura, é melhor negar o problema, não é?

pois é. nossos gostos, preferências e motivações são muito mais influenciados pelo meio do que imaginamos. a prova isso é a moda. basta olhar fotos antigas e ver como hoje achamos feias roupas que há algum tempo achávamos lindas, nos encantavam. acaso não foi o meio que nos influenciou?

esse cabelo e essas costeletas já foram considerados padrão de beleza.

esse cabelo e essas costeletas já foram considerados padrão de beleza.

ora, culturas podem ser modificadas. valores podem ser superados. passou do tempo de glorificarmos a velocidade artificial, motorizada. o custo em vidas tem sido altíssimo, seja pelas mortes, seja pelos tratamentos médicos na recuperação, seja na incapacitação física para o trabalho dos milhões de acidentados.

assim, como a limitação da publicidade de cigarros e álcool teve seus efeitos na saúde pública, deveríamos limitar a publicidade de carros e motos, e parar de transmitir competições de carros e motos. e proibir seu patrocínio também. do ponto de vista dos custos sociais, a redução de danos seria bem acentuada no decorrer do tempo. e os patrocínios migrariam para outros esportes, bem mais saudáveis e menos poluentes que corridas de carros, motos, caminhões e etc.

sim, o fascínio pela velocidade continuará. é humano isso. mas que as pessoas se arrisquem menos. e quem quer emoções fortes no trânsito, que vá pedalar na marginal. afinal, se é ousado para acelerar por aí, deve ser ousado também para pedalar na marginal tietê ou pinheiros, em são paulo.

ah, sim, pode-se morrer ao pedalar pelas cidades. há sim um risco. mas desconheço ciclistas que tenham matado alguém com suas bicicletas.  já motoristas, motociclistas…. esses morrem e não raro matam também.

um dia a cultura mudará. mas, até lá, qual o custo que ainda pagaremos?

p.s. não se trata de extinguir os carros. mas desglamourizar seu uso.

 

 

 

 

 

10 Respostas para “o culto à velocidade artificial

  1. Formula 1 nem esporte é, alias alguma corrida de moto ou carro é? Pode ser jogo, mas esporte…

  2. Bom, até considero as argumentações muito boas e bem colocadas… Fato é que gosto de velocidade (o que não significa que eu desrespeite as leis de trânsito!!), gosto da sensação da aceleração do veículo (você já andou em algum carro com motor V8??).

    Acho que, se as pessoas querem acelerar e se matar DENTRO de autódromos, ÓTIMO, pois alí é o local adequado par esta prática.

    O problema reside em fazerem isto nas ruas e estradas pelo país afora.

    Abs

    • tulio, todos gostam de velocidades. faço a ressalva às velocidades artificiais, em oposição a snaturais,que também são inebriantes. cresci em interlagos, conheci todas as lendas do motociclismo paulista dos anos 70, sei envenenar motores de carros e motos, sou filho e neto de ex-corredores, sobrinho neto dum campeão brasileiro de 250cc. tenho uma boa ideia de como a cultura na qual estamos imersos condiciona nossos gostos. sim, ainda olho de rabo comprido as motos velozes. mas um conhecido meu já morreu atropelado por uma moto a 200 por hora. o chico. esse post deveria ser dedicado a ele, e devo retificá-lo pra colocar essa dedicação. existe uma diferença entre nossos prazeres e o que deve ser feito ou não. um outro exemplo: gosto de armas. se tivesse, seria uma pistola glock, uma walter ppk, e uma 12. se permitidos fuzis, um ak-47 (o que é conceitualmente coerente com omeu gosto por quadros de cromo). mas votei e sou a favor do desarmamento, pois reconheço que não há posse segura de armas, e invariavelmente elas acabam indo parar na mão de bandidos. e garanto, descer uma rua, uma bela ladeira, de bike a 50 por hora já nos dá emoções fortes. semelhantes, numa moto, só a 150kms por hora. e claro, motos, carros, poluem, e bikes não. quem tb tem na família diversos casos de problemas respiratórios – eu mesmo tenho – considerará a questão da qualidade do ar preponderante….

  3. acho que a velocidade que um jogo de suma cero, quanta mais velocidade menos equidade, entao mais opreção e marginalidade. a bicicleta nos iguala, como voce diz, muitos tem ´´coragem´´ de levar 160km por hora um carro mas nao tem coragem para ir de bicicleta pelas rodovias ou cidades… saudos desde as estradas do sudeste brasileiro, disculpe meu portunhol…

  4. Nessa linha, por conta das pessoas que morrem eletrocutadas sugiro cancelarmos a energia elétrica!

    Educação é o caminho, não censura!

    Países que são mais fanáticos por velocidade como o Reino Unido, tem muito menos morte no trânsito do que aqui.

    • não se trata de proibir. mas de evitar a propagação. evitar o endeusamento de quem pratica um esporte que só causa danos ao meio ambiente, por exemplo. evitar a publicidade também é uma forma de educação.

  5. sim, concordo com os pontos, como já disse, o nosso problema é educação E legislação.

    Na minha opinião, seria razoável limitar a potências dos veículos vendidos em solo nacional…
    Exemplo: quer possuir carro esporte de alta potência: uso restrito à pistas fechadas; quer turbinar carro, mexer e envenenar?? uso restrito E associe-se a um auto clube / federação de automobilismo.

  6. Lamentável….Texto que faz referencia a um meio de transporte tão inteligente quanto é a bicicleta, fala tão “burramente” sobre carros e sobre os eventos de automobilismo, pois quando fala que automobilismo não é esporte, me representa que você não tem o minimo de fundamento e pelo jeito nem se deu ao trabalho de pesquisar sobre o assunto, antes de “vomitar” em forma de palavras digitadas, pois qualquer categoria de automobilismo exige muito, em termos de preparação física dos pilotos. Entendam, que eu sou um e não tenho vergonha de admitir que sou um louco apaixonado por carros e quase tudo que possui motor e rodas, mas sou consciente, utilizo o transporte publico para ir ao trabalho e utilizo o carro apenas ao finais de semana. Outro ponto é que eu sou extremamente a favor de melhoras no transporte publico e acredito que as ciclovias são a solução para as nossas metrópoles que estão a beira da falência em termos de mobilidade. Não irei nem me estender o quanto o automobilismo contribui para o desenvolvimento de carros mais seguros, econômicos e sustentáveis. Sem falar no que diz respeito ao Ayrton Senna, cara se ele tinha borado em seu macacão marcas de carro, cigarro e empresas petrolíferas, não é culpa dele, da mesma maneira que no SEU BLOG tem a propaganda da HYUNDAI – montadora de carros Coreana. Para finalizar lamento muito que o primeiro contato com este site seja através de um texto tão infeliz quanto este.

  7. Bom, sou ciclista, e assistindo o tour de france, só me dá vontade de andar mais rápido. Claro, a bicicleta impõe limites fisiológicos na velocidade, tirando as descidas à 100km/h. Bom, creio que muitas coisas então devem ser mudadas… Cortar as imagens na hora das descidas, ou sprints…

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