pedalar é direito, dirigir é privilégio, morar é direito.

o brasileiro em geral usufrui de uma herança maldita do período escravagista: a ignorância militante.

jd paraná, brasilândia são paulo - sp. seu morador não pdoe atravessar as pntes da marginal para chegar ao seu trabalho,a pé ou em bicicleta. tem que pagar condução, ou sonhar com um carro, de qualquer forma, contribuindo para o congestionamento do trânsito.  foto de carlos vitor.

jd paraná, brasilândia são paulo – sp. seu morador não pode atravessar as pontes da marginal para chegar ao seu trabalho,a pé ou em bicicleta. tem que pagar condução, ou sonhar com um carro, de qualquer forma, contribuindo para o congestionamento do trânsito. é discriminado do ponto de vista de moradia e de transporte. foto de carlos vitor.

sabemos que aos negros em geral, nesse brasil, até o século XIX, era interdita a entrada em cursos superiores. alguns conseguiam, pelo famoso “jeitinho”, mas outros, como luís  gama, tiveram sua matrícula em curso superior negada após passar em prova vestibular. luís gama então frequentou o curso de direto como ouvinte, e ao final do curso prestou uma prova como solicitador e habilitou-se como advogado. teve como sócios em sua banca de advocacia colegas brancos com quem partilhava os livros de escola.

mas luís gama foi uma exceção. a regra era o não acesso à escolaridade.

o que decorreu disso foi a lógica do sucesso desvinculado do estudo: de qualquer forma de estudo, não apenas a formal, mas mesmo aquela autodidata.

de fato, hoje o nosso mercado livreiro não é maior que o de portugal. mas o brasil tem 200 milhões de habitantes. portugal, 10,5 milhões. o brasileiro não compra livros.  logo, não se editam livros. e assim, por exemplo, rareiam os manuais em português de manutenção de bicicletas. os clássicos sobre montagem de rodas estão disponíveis na net, em inglês…

no outro extremo, o brasileiro em geral tem concepções truncadas acerca da realidade. talvez por ignorar percepções básicas mais acuradas. o brasileiro em geral ignora aristóteles, por exemplo, que é tema dum livro didático europeu, para pré-adolescentes, “o mundo de sofia”. (aqui no brasil o livro fez sucesso entre adultos, que não imaginam que um estudante europeu de 11 anos leia um livro de 560 páginas facilmente).

aristóteles trouxe ao mundo conceitos importantes sobre o justo, portanto, sobre as leis. a percepção das diversas formas de justiça, inclusive percebendo que tratar os desiguais de forma igual também é uma forma de injustiça.

essa percepção, nos últimos 300 anos, tomou força. se, na idade média, pessoas eram consideradas desiguais em essência, a revolução francesa igualou os humanos: todos cidadãos, portadores dos mesmos direitos. este foi um dos seus maiores legados ( outro foi o sistema métrico, que facilitou demais a vida humana!).

hoje, no brasil, se consolida um direito humano básico: o direito de ir e vir. a não ser que o brasileiro esteja sob custódia do estado, não está impedido de ir e vir a qualquer ponto do território da federação. é livre para ir, por qualquer meio não motorizado, em qualquer idade, grau de escolaridade, renda e etc. se vai ou não é outro problema.

mas alguns, que preenchem determinados pré-requisitos, habilitam-se para dirigir. habilitação essa que não é um direito a todos: o menor não pode dirigir. o direito de propriedade é livre: qualquer um pode ser dono de um carro. mas não é qualquer um que pode dirigi-lo. aliás, essa habilitação pode ser cassada, por diversos fatores.

é por isso que, no Código de Trânsito Brasileiro, o pedestre tem prioridade absoluta. e por isso que, nesse código, garante-se a a circulação de bicicletas em estradas sem acostamento, e aos ciclomotores não (arts. 58 e 244, parágrafos 1º e 2º).

mas, voltando a aristóteles, e o justo material? em resumo, de fato o pedestre tem prioridade absoluta na estrutura física das cidades, e o ciclista também sobre os motorizados?

sabemos que não.  é aí que mora a questão. nas cidades onde os motorizados possuem proeminência sobre pedestres e ciclistas, temos o ferimento ao direito de ir e vir e a consagração dos privilégios.

isso é o que temos em são paulo. e também em vitória.

são paulo é uma cidade cujo centro expandido está cercado por rios. que são cruzados por pontes. mas circundados por vias de muitas faixas, de alta velocidade, as marginais.  e ligando as marginais às pontes, vias rápidas de acesso, as alças.

na prática, muitos ciclistas deixam de cruzar as pontes pelo risco que vêem em passar por essas alças, de onde vêm e para onde vão carros em altas velocidades.

veja no vídeo abaixo, a dificuldade de ciclistas na ponte do limão, fechados por uma mini-caminhonete que toca o braço estendido do ciclista que estava atrás da bicicleta com a câmara.

em vitória, no espírito santo, o absurdo é ainda maior: a construção da 3ª ponte excluiu a passagem de pedestres e ciclistas! veja o vídeo abaixo:

na prática, essas estruturas criaram um apartheid, um muro que impede os não-motorizados, enquanto tal, tenham acesso ás áreas centrais das cidades.  por medo, não atravessam essas estruturas:

na prática, os gargalos de transporte nas grandes cidades criaram uma disputa grande pela área central. ouça essa entrevista aqui com raquel rolnik, professora de urbanismo da FAU-USP e relatora internacional do direito à moradia adequada do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

direitos a transporte e moradia estão interligados. ninguém reclamará de morar longe se tiver transporte adequado. mas a ausência de transporte torna a especulação imobiliária muito mais intensa e, assim, a cidade se torna excludente, fazendo o consumidor se sobrepor ao cidadão.

ora, se você ouviu essa entrevista com raquel rolnik, percebeu que o conceito de moradia adequada inclui o conceito de mobilidade. mobilidade preferencialmente por meios não motorizados, por serem acessíveis a qualquer cidadão. facilitar a mobilidade por bicicleta transforma uma determinada área em uma região mais adequada à moradia. num exemplo simples: se o pai ou mãe de família pode colocar seu filho ou filha numa bicicleta e levá-lo a uma escola distante apenas 2 quilômetros de sua casa, mas em outro lado do rio, não reclamará a construção de outra escola aquém do rio.

a ineficiência do sistema de transporte não é causa direta, mas é uma alavanca poderosa nos movimentos de ocupação de áreas desocupadas.

o apartheid brasileiro atual não é mais ostensivamente racista como no tempo de luís gama, mas estruturalmente racista. e também ambientalmente racista. nós temos formas de racismo diversificadas cada vez em que discriminamos negativamente pessoas em razão da cor da sua pele e da sua condição social. se você clicou no link acima, viu o vídeo com a entrevista com o médico paulo saldiva.

hoje, a única forma de transporte individual de fato viável para as grandes cidades é o transporte não-motorizado. podemos discutir qual tipo de transporte coletivo é o mais viável, mas o transporte individual viável é não-motorizado: bicicletas, patinetes, skates, calçados, cadeiras de rodas. portanto, urge, nas grandes cidades, não apenas contemplá-los, mas promovê-los em detrimento a carros e motos.

mas não é isso que se faz. infelizmente. e por isso nossas cidades são altamente discriminatórias. e a discriminação é a grande mãe de toda grande criminalidade.  cidades seguras são cidades igualitárias.

por isso uma ciclovia em cima da ponte não é apenas um aparelho urbano de transporte, mas de segurança social. e por isso, as cidades ao redor do mundo que resolveram seus problemas de moradia e transporte, são as mais seguras para se viver.

simples, dolorosamente simples assim.

9 Respostas para “pedalar é direito, dirigir é privilégio, morar é direito.

  1. “o brasileiro não compra livros”, “o nosso mercado livreiro é pequeno”.

    Falácias! Se assim fosse, não teriam eventos literários de grande porte pipocando em cidades de interior relevantes no Brasil – e não estou falando da FLIP.

    Inclusive, na primeira Festa Literária de Cachoeira (FLICA), no Recôncavo Bahiano, se discutiu exatamente isso: há mercado editorial? Claro que há! Senão gigantes hispânicos como a Alfaguara e a Leya não estariam apostando aqui.

    E tiro isso também de parte de minha atividade econômica: eu vendo livros usados na rua, em feiras livres. Nunca arrecado menos de R$ 200,00 por dia – há quem tire até mais. Ocorre que em geral livros ruins (auto-ajuda, psicografias espíritas) vendem bem, e livros bons não. Mas aí cabe ter uma capacidade de carnavalizar e persuadir: já vendi O Morro dos Ventos Uivantes pra quem só ia levar Zibia Gaspareto, já vendi Milan Kundera pra quem só queria livrinho de yoga pseudo-místico.

    • hehehe. só se investe em mercado que possa crescer. e só pode crescer mercado ainda bem pequeno…

      • sem falar que continuamos sem traduções dos livros técnicos sobre bicicletas…

      • certo, Odir, mas é ainda necessário fazer um contraponto com o fetiche da leitura. Sobre isso, alguns autores e textos fundamentais:

        – José Bergamin. A Decadência do Analfabetismo;
        – Pierre Bayard. Como falar de livros que não lemos?;
        – Alberto Manguel. Uma História da Leitura;
        – Chatelet. Uma História da Razão;
        – toda a vastíssima obra do reverendo Pe. Walter Ong, S. J. (um dos grandes jesuítas teólogos da libertação, ao lado de Michel de Certeau, Ivan Ilich e Pierre Teilhard de Chardin).

        como contraponto, não posso deixar de falar da perda paulatina, no mundo digital, da escrita cursiva – que é o equivalente da perda da vida pedestre com a motorização 70 anos atrás. Sobre isso, fundamental: The Missing Ink – não tem tradução ainda pro português, mas não deixe de ler! Inclusive ele traz exercícios para não perder o uso do manuscrito diário: tipo, fazer lista de feira em papel rascunho, manter um diário íntimo, escrever cartas para amigos e amantes, etc.

    • em todo caso, essa é uma visão como sempre positivista, iluminista e mal-disfarçadamente elitista sua, Odir.

      Nada contra elitismo: eu sou aristocrata decadente com orgulho – mas meu elitismo pula pipoca e troca murro na corda da Timbalada.

      de resto, o Mundo de Sofia eu ganhei de Natal, e li, aos 13 anos – minha tia (que em tudo parece a Duquesa Oriana de Guermantes-Baviera / Princesa de Laumes) tinha na época comprado a incrível novelinha epistolar Grifen & Sabine.

      Mas um ano antes eu já tinha lido um clássico, Admirável Mundo Novo, por recomendação de meu avô materno – leitor voraz e intelectual involuntário, cuja residência tinha mais obras de arte (quase todas ganhas, quase nenhuma comprada) do que a maioria dos museus do Brasil. Ele adorava romance policial e realismo-fantastico latino-americano (principalmente Llosa), e eu detesto ambas as coisas; nossos gostos convergiram na prosa cerebral de Huxley (e, claro, nas marinhas de Pancetti).

  2. sobre centros expandidos: em Salvador o que ocorre é que quando os limites do Plano Mario Leal Ferreira (EPUCS) acabam, acabam também as Avenidas de Cumeada – que é onde a Capital Reconvexa de fato está.

    tudo se torna baixada, em quadriculos (como na Pituba, o que não é ruim – mas não é Salvador…), ou avenidas céleres e mal-segregadas (as Avenidas de Vale no Centro Expandido são boas porque elas são ladeadas por Vias de Cumeada, que é onde está a vida pedestre).

    Há bairros de cumeada fora do centro expandido? Sim, por mimesis: Pau da Lima, Cabula, Pernambués, etc. – mas acabam sendo cumeadas mal-artificializadas, com avenidas céleres que imitam Avenidas de Vale, e sem ligação com as outras cumeadas (essa ligação aliás só é bem-feita no Centro Antigo, em que o Platô Central e a Segunda Cadeia, que é Nazaré, se conectam a perfeição ao ponto de parecerem um chapadão contínuo. Lembrando que o Platô Central na verdade é a dorsal em frente a Baia de Todos os Santos, onde está o sítio original da cidade, e não o miolo da península que é Brotas).

    Há bairros de baixada que têm identidade com Salvador? Há, claro: toda a Península de Itapagipe, e do outro lado Boca do Rio e Itapoã. Mas não são a regra, e são em geral pobres. A cidade formal é, aqui, uma cidade sobre os dorsos das montanhas – esse é seu encanto, mas isso não cobre 1/3 da cidade atual (única urbe do planeta que mudou de escala, e não meramente de tamanho, em uma geração: de 600mil habitantes para quase 3milhões…)

  3. o conceito de moradia adequada não inclui (apenas) o de mobilidade (alienada), mas o de habitação. A distinção é de Henri Lefebvre: habitação é a padaria da esquina, moradia é só o teto sob o qual se dorme.

    Assim como o direito à cidade não é direito à propriedade, mas direito à apropriação (exemplo: montar uma banca na frente de casa pra vender brigadeiro, se você quiser, e não vir fiscal da prefeitura te enxer o saco e te taxar de camelô).

  4. Oh god, esse Lucas é muito, MUITO irritante! Irritantemente arrogante, metido a “intelequituau” e… chato.
    Como você aguenta um sujeito desses, Ogum?

    • “metido” é por sua parte.

      Sim, eu sou um chato necessário, como dizem os meninos do Opanijé – aliás, é a definição do que é ser crítico, exercer a crítica cultural: ser um chato necessário.

      Arrogante eu não sou. Pedante, às vezes; elitista quase sempre.

      (eu poderia ser igualmente grosseiro e perguntar como é que se aguenta alguém tão reclamão e avesso ao debate, invidioso da erudição alheia, e outras tantos deméritos como os vossos.

      Mas eu prefiro ser polido…)

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