porque pedalar nu

a moça, totalmente nua em sua bicicleta, ajudando a fazer o corking, a rolha, em frente a um cruzamento, fechando a passagem para que outros ciclistas,muitos dos quais inteiramente pelados, também passassem.

a mensagem diz tudo

a mensagem diz tudo

alguns com os corpos pintados, outros não.  alguns passantes gritam. quando paramos em frente à uma loja igreja universal rapidamente baixam as portas, talvez achando que aquilo fosse uma manifestação contra eles… ledo engano, apesar de um gaiato gritar: “maria madalena apóia a gente!”

corpos, vidas. “pelado você me vê!”, diz a pintura nas costas de um ciclista. “nus e’como nos sentimos”, diz a pintura nas costas de outra menina, trajando apenas uma calcinha e um capacete.

“mais amor, menos motor”, é gritado de vez em quando. “você aí enlatado, vem pedalar pelado”, grita alguém. mas por que isso?

não é preciso falar da violência do trânsito.  ou até é.

estátua de vênus, I séc d. C.

estátua de vênus, I séc d. C.

mas também é preciso falar da beleza. a beleza humana é vista, desde que o mundo é mundo, em torno da funcionalidade, da saúde. os gregos enalteciam o porte atlético, as esculturas pré-históricas viam as curvas dos corpos femininos.

beleza essa que sempre foi a soma, sobreposta, da carga genética e da vida que se leva. músculos esculpidos pelo andar, pelo caminhar, correr, carregar coisas. não é por acaso que nossos grandes músculos são os relacionados ao andar, correr, saltar: glúteos, quadríceps…

poseidon, em bronze, cerca de 460 a.C.

poseidon, em bronze, cerca de 460 a.C.

e as taxas de gordura no corpo também relacionadas à fartura da alimentação, que sempre foi escassa.

homens correndo. notem o desenho dos músculos. grécia, cerca de 300 a. C.

homens correndo. notem o desenho dos músculos. grécia, cerca de 300 a. C.

nos esqueletos dos humanos mais antigos, antes mesmo dos homo sapiens começarem sua colonização do planeta, ficaram as marcas das inserções dos tendões, indicando massas musculares fortes.  desgastes indicando muito, mas muito movimento. e isso permaneceu durante milênios. assim o é nas esculturas gregas: corpos que não são totalmente perfeitos, mas não são obesos nem anoréxicos. apenas saudáveis.

pois beleza e saúde foram sinônimos até que se inventou o comércio da beleza, a indústria da beleza, irmã da vida alienada que o sistema de produção industrial criou. se antes qualquer tipo de trabalho envolvia mexer o corpo inteiro, o operário da fábrica passava o dia usando um braço só para apertar porcas.  o mineiro passou a trabalhar o dia inteiro na escuridão, abaixado, nas galerias subterrâneas das minas de carvão. os ricos, por sua vez, indolentes, nada faziam com seus corpos flácidos, e num mundo de cansaço e 16 a 18 horas diárias de trabalho, a indolência se tornou o sonho de consumo.

trabalho infantil nas minas de halifax, 1842

trabalho infantil nas minas de halifax, 1842, para crianças de 6 a 8 anos. clique na foto e saiba mais.

hoje se orgulham de não subir escadas,  mas escadas rolantes e elevadores, e de não mais usar suas pernas para se locomover, mas suas bundas setandas em máquinas.

claro, indolentes, com excesso de alimentação, formas mudaram. crianças criadas em espaços pequenos não desenvolveram adequadamente seus esqueletos, músculos, tendões. adultos, reféns de uma vida sedentária, deforma-se. num extremo, uma magreza de ausência de músculos, no outro, sobrepondo-se à ausência de músculos, camadas e camadas de tecido adiposo.

obeso e com pernas finas, o senhor de escravos passeia, no retrato de debret

obeso e com pernas finas, o senhor de escravos passeia, no retrato de debret

rapidamente o mundo capitalista aparece com soluções à venda: remédios para emagrecer, anabolizantes, academias de ginástica, implantes de silicone, plásticas, lipo-aspirações e etc. e aí então surgiu a beleza comercial. a beleza à venda.

e claro, com profissionais do assunto. aqueles que expõem seus corpos esculpidos ao desejo alheio. uns para o sexo, outros apenas para a imagem que faz pensar em sexo. todos vendendo seus corpos. comércio…

pois bem, a natureza sempre dribla os interesses comerciais. sim, a natureza nos força a tentar nos reconciliar com a saúde dos nossos corpos e das nossas mentes, e afrontar a neurotizante indústria da beleza artificial.

pessoas pedalando nuas, desde 2004, há, pelas ruas, em eventos anuais. não começou no brasil, não começou em são paulo, mas no distante canadá. pois sim, sabemos que nus estamos n trânsito, embora os carros e seus motoristas só nos vejam se pelados estivermos. senão, somos invisíveis. tiram finas, atropelam, matam.

nudez é forma de protesto desde que, lady godiva cavalgou elas ruas de coventry. pois anudez só é protesto pois afronta, num mundo onde toda nudez deve ser castigada: o mundo ocidental de tradição judaico-cristã.

acaso o índio vê na nudez algo de diferente?

já a nudez comercial está aí, com as musas marombadas e siliconadas, tão autênticas quanto um relógio rorex ou um whisky feito no paraguai. ou homems musculosos que não são capazes das verdadeiras proezas que a natureza sempre nos exigiu: correr por horas para escapar de um animal que nos cace, ou caçando um animal cuja carne alimentará a tribo. ser capaz de arremessar uma pedra bem longe, na caça ou na defesa, ou apenas para derrubar frutas duma árvore, ser capaz de levantar a pedra que esmaga o outro humano, ou conseguir abrir um coco…

braços maiores que as pernas....

braços maiores que as pernas….

a bicicleta tem se mostrado o antídoto para essa arapuca na qual o humano se meteu na vida moderna. muitos estão presos nessa indolência que os transforma em consumidores das soluções para problemas que antes não existiam: o silicone pra turbinar as nádegas hoje flácidas e caídas, e dar-lhe aparência (e não funcionalidade!) de haver ali músculos que funcionam…

essa prótese na panturrilha ajuda a pedalar nas subidas? ou é peso a mais morro acima?

essa prótese na panturrilha ajuda a pedalar nas subidas? ou é peso a mais morro acima?

mas o que comumente não se aceita é que, justamente o trafegar por bicicleta, que tantos benefícios nos trás, dentre os quais principalmente  nos reconectar com nossos corpos, nos desalienar dos nossos próprios organismos, possa ser a oportunidade que as máquinas e seus condutores tenham para exterminar esses seres humanos que preferem pedalar.

o pedalar nu tanto é o protesto contra a violência no trânsito, quanto o protesto contra a violência da indústria da (falsa) beleza, como também uma elegia à reconexão dos nosso corpos com o que de fato somos, nem feios nem absolutamente belos, mas naturais, humanos, mortais, falíveis. pedalar nus, em celebração à vida, à vida não comprada, mas à vida vivida.

se é relevante como forma de protesto, não há como saber. mas sempre se sabe que, numa economia de mercado, nada mais subversivo que a felicidade e o usufruir das coisas não mercantilizadas. e aí a bicicleta se apresenta como um instrumento fantástico: pois não importa a bicicleta, mas a perna, e a perna não se compra, mas, como tudo o mais que é belo na vida, se constrói com o que se recebeu ao nascer. e só.

ah, sim, claro. obsceno é o trânsito. e a TV, onde se vê mais nudez em close do que em toda uma bicicletada pelada. sim, obsceno é o trânsito, e a morte de ciclistas e pedestres.

sim, é preciso pedalar nu. para lembrarmos que somos não o que temos, mas o que fazemos. talvez assim nos tornemos mais humanos. ou não.

3 Respostas para “porque pedalar nu

  1. o principal motivo de pedalar nú (ou só de sunga, no meu caso), você não elencou. Todos foram eurocêntricos. Faltou antropofagia.

    o principal motivo é virar índio, fazer índio, devir-índio ao invés de devir-indigente.

    ou, como diria Zé Celso (de quem contudo não gosto): uso a nudez porque nasci nú!

    • uma Naked Bike Ride brazuca, especialmente em terras de arrogos bandeirants, tinha de terminar com um churras de (Borba) Gato em que se comessem (Bispo) Sardinha. Tenho dito!

      Muita saúva e pouca saúde, aquela estória… (teclo direto de minha rede defronte da baia de Todos os Santos, sob uma cajazeira. Ai, que preguiç…

      lembro Caimmy contudo: preguiça, aqui, é método de trabalho, não negativa de).

  2. Pingback: Obsceno é o Trânsito | Silvia e Nina

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