o amargo azul do céu

existem diversas formas de olhar o céu.  algumas são belas, mas uma é ruim. amarga. ver o céu do ponto de vista de quem morreu.

deitados no chão, olhávamos a eternidade do céu, sentido a precariedade da vida. foto de thiago urbante.

deitados no chão, olhávamos a eternidade do céu, sentido a precariedade da vida. foto de thiago urbante.

nesse domingo, no final da tarde, fizemos nosso ato-protesto, nosso ato memorial. nossa homenagem.  há 2 anos, nesse local da foto acima, jazia o corpo de minha amiga juliana ingrid dias.

não sei em quanto estávamos. éramos muitos. empurramos nossas bicicletas até o local onde se encontra, presa a uma grade, a bicicleta-fantasma de julie dias. nosso memorial, simples, precário, mas mantido pela persistência. como a vida. a vida ceifada de julie e de tantos outros, e a vida que ainda vivemos.

não foi um dia tranquilo para mim. não foi uma semana tranquila. tranquilidade é estado de alma, e essa foi uma semana de relembrar tristezas. a mim, como a muitos, ainda é muito forte a memória daquela manhã de sexta-feira, a nossa angústia e nosso desespero.

nesse domingo, à tarde, andamos da praça do ciclista até o local onde está a bicicleta. colocou-se flores, queimou-se um incenso, clocou-se enfeites na bicicleta. mas trouxemos também nosso silêncio, nossa incompreensão, nossa saudade.

deitamos no chão. essa manifestação, que sei lá quando e onde começou, chama-se “die in”.  é um protesto pacífico, mas significativo. corpos estirados no chão, embora vivos, mas para lembrar os mortos.

deitados no chão, olhando o amargo azul do céu.

deitados no chão, olhando o amargo azul do céu. foto de josé renato bergo

deitados no chão, olhávamos o céu. com o mesmo olhar fixo que os mortos atropelados talvez tenham. olhar o céu profundo do chão, do asfalto, é de fato um tanto assustador.

veículos passavam lentamente, e os víamos aproximar-se dum ponto de vista que só o atropelado tem. quem já foi atropelado, como eu, sabe disso.

é, ali lembramos da precariedade da vida. de fato, todos nós humanos estamos fadados à morte, que da qual sempre fugimos, mas que um dia nos encontrará: a última possibilidade de vida, que é uma impossibilidade: a impossibilidade da vida.

olhávamos o céu azul, tão diferente daquela noite na qual colocamos aquela bicicleta branca, no dia em que juliana ingrid dias foi morta pelo descuido de um motorista de ônibus. naquela noite choveu forte, do momento em que saímos, também caminhando e empurrando nossas bicicletas até o local do atropelamento, até o momento em que lá chegamos.

o céu chorava conosco naquela sexta-feira.

o céu chorava conosco naquela sexta-feira.

nesse domingo havia sol, mas uma temperatura amena. uns conversavam. outros não.  alguns deitaram no chão, outros não. não importa, cada um homenageou nossa amiga da forma que pôde, cada um fez seu protesto contra oque não deveria ter acontecido de acordo com a sua vontade.

nós, lá. foto de gilberto kyono.

nós, lá. foto de gilberto kyono.

esqueci as velas que havia separado, em casa. mas outra hora passo lá, e deixo mais uma homenagem. é preciso lembrar cada morte, cada pessoa, para que se mostre que não se trata de estatísticas, mas de pessoas sendo mortas,portanto, de tragédias. a stalin se atribui a frase onde se diz que a morte de um homem é uma tragédia,mas de 1 milhão é estatística. mas não somos números, somos seres humanos.

motoristas descuidados não têm a mínima ideia do que causa seu descuido. gestores de trânsito orientados por prioridades erradas, também não sabem como é devastador para uma família uma morte dessas. só quem conhece o longo luto de pais, avós, irmãos, tios, primos, amigos, é capaz de mensurar o sofrimento alheio, causado pelo fascínio por uma velocidade imbecil, pela omissão no planejamento de trânsito, pela ganância da indústria dos veículos automotores.

passou da hora de ter uma política de segurança de fato para nossas cidades. não essa coisa idiota de campanha pelo uso de um capacete que não nos protege da brutalidade dos grandes veículos automotores, mas pela redução da velocidade em todas as cidades, em seus perímetros urbanos, em qualquer via, em no máximo 30 kms por hora.  sem distinção de vias tipos de vias, seja ela alimentadora, expressa, arterial ou o escambau!

o fato é que os humanos, ao menos aqui no brasil, não tem a menor responsabilidade no conduzir seus veículos motorizados.  aceleram onde podem, se não há uma fiscalização mais rígida. e, claro, inobstante a lei seca, continuam a dirigir embriagados. olhe o vídeo abaixo, reportagem feita recentemente em natal, rio grande do norte.

ora, num país onde pessoas saem a dirigir embriagadas sem que seu meio de convivência as reprove (muito antes pelo contrário, “amigos” avisam sobre as blitzes!), onde se cultua a velocidade a ponto de se tornar pilotos heróis nacionais (o que matou ayrton senna senão a velocidade?), onde não há educação para o trânsito efetiva nos níveis básicos de educação, tem mesmo que ser um dos campeões nas mortes de trânsito… cerca de 40 mil mortes ao ano!

mas essas mortes não são meras estatísticas. essas mortes são tragédias aos montes. são milhares de famílias marcadas pela tragédia.

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hoje lembramos nossa amiga. uma bela vida ceifada indevidamente. algo que poderia ser evitado. e claro, mantivemos a nossa sensação de que está tudo errado quando quem não polui, não faz barulho, não congestiona, não lota o transporte público, é que é penalizado. pois, no brasil, ninguém pedala impunemente, cometendo o erro de nenhum mal fazer a ninguém em nosso transporte. não é guerra quando só se morre do lado de cá.

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julie era linda, doce, e com uma voz um pouco aguda. aos domingos, pedalava plantando árvores. tá tudo errado. tá tudo errado.

a bicicleta branca. foto de josé renato bergo.

a bicicleta branca. foto de josé renato bergo.

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