III FÓRUM MUNDIAL DA BICICLETA: mundinho, mundão…

é tudo uma questão de escala: do ponto de vista das estrelas, o sol é só uma estrela pequena que quando virar supernova engolirá a terra e todos seus habitantes serão vaporizados, junto com suas histórias. do ponto de vista de uma bactéria, um cachorro é todo um universo, e do ponto de vista das pulgas, um cachorro é só um planeta (e a vida em outros planetas lhes é possível!🙂 ).

meu crachá

aconteceu o III Fórum Mundial da Bicicleta em curitiba, paraná, brasil. depois de duas belas edições em porto alegre, a primeira após aquele bárbaro atropelamento da massa crítica perpetrado pelo indigitado ricardo neis, essa terceira edição em curitiba foi fantástica.

abertura do fórum. foto que furtei na cara dura do site da rede globo.

abertura do fórum. foto que furtei na cara dura do site da rede globo.

ouvi conversinhas de gente reclamando que não era mundial, pois não tinha gente do mundo inteiro. de fato, havia gente de outros países, mas não do mundo inteiro. e eu pergunto: e daí?

mas por outro lado, eu encontrei muita gente conhecida. esse é o lado mundinho do fórum. mas conheci muita gente, ouvi muitas histórias, aprendi muita coisa, tudo novo! esse é o lado mundão do fórum.

foram quantas atividades? não sei, trocentas! umas 70, até onde sei. 70 atividades em míseros 4 dias é uma loucura! mas aprendi muito, muito muito muito!

teve atividade que participei de “orelhada”, ouvindo flahses do que acontecia, até pra não ficar passando vontade…. como a conversa com o antonio olinto. só ouvi de longe…. senão passo mal com os relatos de viagens!

o fórum seguiu a pegada alterno-mundista. é ruim isso? nãããão! o mundo tá cheio de eventos comerciais onde as indústrias mostram seus negócios e o grande capital mostra sua face. eventos de grandes arquitetos mostrando grandes soluções para problemas urbanos, sempre esquecendo que mora um monte de gente nas cidades. eventos com grandes restaurantes e seus quiosques com comidinhas caras.

pois nesse fórum eu comi sanduíches e tortinhas veganas feitos todos artesanalmente. uma delícia (detalhe, não sou nem vegetariano nem vegano). tomei cervejas artesanais. conversei com fabricantes de bikes de bambu, de quadros de fixa em metal (em desenhos lindos remetendo às bikes de TT dos anos 80). vi dois modelos diferentes de capas de chuva pra pedalar debaixo de tempestades. vi bicicletas de todos os tipos, conversei com viajantes, ciclistas urbanos diversos, ouvi diversos sotaques, tive uma conversa doida em 3 línguas com um francês que tá dando a volta na américa do sul (um quadro de bike do correio da frança e peças de mtb, 25 kg sem a carga…).

é um troço muito doido quando você coloca na mesma mesa pessoas que você encontra direto na sua cidade e gente que vê de quase em nunca, e as conversas fluem pois os assuntos são comuns.

aline, evelyn e silvia, numa das longas conversas na bicicletaria ucltural de curitiba. foto de josé renato bergo.

aline, evelyn e silvia, numa das longas conversas na bicicletaria cultural de curitiba. foto gentilmente furtada  de josé renato bergo.

de fato, se os olhares não eram os mesmos, mas todos particularizados, todos os olhos voltavam-se para o mesmo horizonte: a construção não apenas de cidades e estradas mais cicláveis, mas sobretudo mais humanas. todos usando a bicicleta apenas como o caminho para se chegar um ouro objetivo: a recuperação da escala humana do mundo.

o fato é o que o mundo anda muito infeliz pois se criou uma economia da infelicidade. sim, pois é necessário que o consumidor esteja infeliz para se vender o produto que promete a felicidade, mesmo que por segundos apenas.

mas o uso da bicicleta é subversivo. subversivo pois quem pedala pelas cidades e estradas desafia a lógica do consumo. qual a bicicleta mais cara? não, mas a bicicleta mais adequada. e qual a bicicleta mais adequada? a que se encaixa em você. pode ser uma bicicleta cara, pode ser uma bicicleta barata, pode ser algo que você mesmo construiu. não importa, é adequada a você  e seu uso. portanto, ela é mais arte do que mera técnica, é mais algo artesanalmente construído ou montado (mesmo que componentes industrializados)  do que um produto pronto da indústria. pois no momento em que você pega a bicicleta de série e troca a mesa/avanço, troca o selim, mete um adesivo, pendura um enfeite, ela já deixa de ser aquele produto de série.

pereira. irmão espiritual do carlos gallo. montou ele mesmo essa tall-bike. veio pedalando-a para o fórum mundial da bicicleta em curitiba. foto gentilmente furtada de thiago benicchio.

pereira. irmão espiritual do carlos gallo. montou ele mesmo essa tall-bike. veio pedalando-a para o fórum mundial da bicicleta em curitiba. foto gentilmente furtada de thiago benicchio.

e no momento em que o seu deslocamento se dá pelas suas próprias forças, você está desafiando toda uma lógica econômica montada nos últimos 150 anos para evitar a todo custo que você mesmo trafegue, mas que seja transportado/a mediante um custo, seja ele o custo do seu carro, a sua passagem de trem, metrô, ônibus e o que for….

camiseta do haase, foto docemente furtada da renata winkler.

camiseta do haase, foto docemente furtada da renata winkler.

claro, nem tudo são flores. na abertura, hostilizações ao prefeito de curitiba. mas isso é questão pontual. a causa da bicicleta vai além disso. claro, como um dos organizadores do fórum é o goura nataraj, que não é cristão, não houve a devida negociação com são pedro e choveu pra dedéu na sexta-feira 14/02, e nos dia seguintes também.

um monte de sacos plásticos para nos proteger da chuva!

um monte de sacos plásticos para nos proteger da chuva!

e claro, com a chuva, os problemas de curitiba (e de outras cidades também) aparecem.

as administrações municipais de curitiba dos últimos anos sempre fazem o discursinho de promoção da bicicleta, mas, de fato, o asfalto das ciclovias é sempre pior que o da rua ao lado. de fato, o caminho da bicicleta sempre dá mais voltas que o caminho dos carros. de fato, nunca há fiscalização do cumprimento dos artigos do CTB que protegem o ciclista, o cadeirante e o pedestre, em detrimento do carro. mas, nisso, no que curitiba é diferente de outras cidades no brasil? em nada.

o fato é que a ideologia reinante ainda é de privilegiar o carro como transporte prioritário. raras (e boas) cidades do mundo contrariam essa lógica. e curitiba, com suas vias rápidas, não é diferente. de fato, são raras (e ruins) as ciclovias existentes, e muitas faixas de uso compartilhado entre ciclistas e pedestres! onde já se viu? tirar lugar do pedestre para passar a bicicleta? tem que tirar do carro!

mas o fórum não era apenas de curitiba, né? é do mundo, é dos problemas do mundo, é das cidades do mundo, das estradas do mundo, e dos ciclistas do mundo. é de todos aqueles que conseguem enxergar em direção ao mesmo horizonte. todos aqueles que sabem que a felicidade é subversiva e que a paizãoé sempre uma vertigem. todos aqueles que, como diz a camiseta do haase, sabem por que motivo  cachorro estica a cabeça pra fora da janela do carro.

no fundo, somos apenas isso: ciclistas que gostam da vida, a vida real, e lutamos todos para que todos tenham acesso a esta vida. nada além disso.

p.s. ano que vem, fórum mundial da bicicleta em medellin! comecemos a ver passagens e claro, forçar as companhias aéreas a transportar a bicicletas gratuitamente e sem embalagens, com todo o cuidado que elas merecem!

8 Respostas para “III FÓRUM MUNDIAL DA BICICLETA: mundinho, mundão…

  1. Resumindo, Sr. Odir: além de enxergar o mundo através das pedaladas….a bicicleta é a possibilidade de subversão com AMOR!
    Belo texto!
    Belo sentimento!
    Paz em suas pedaladas mesmo quando tudo está em CAOS!

    • mas mesmo o caos não é ruim, pois é a esperança da criação do novo. na ordem não há o novo, apenas nocaos, pois criar é juntar o que estava separado. então… claro, é o amor que nos permite atravessar os tempos insanos de mudanças.

  2. a prosa com São Pedro que faltou mesmo!!!kkkkk mas acontece e nada melhor que uma boa chuva pra lavar a alma!!!
    só não compareci pois estava resfriado e não estava afim de uma pneumoniazinha boa!!!!
    Muito bom artigo… tks

  3. Francini Lisandra Claudio da Silva

    Gostei do lance das capas de chuvas para quando elas forem mais fortes, pode me indicar aonde encontrar? FRancini

  4. Quando eu leio esses seus textos, meu coracao fica morninho novamente. A conversa em tres linguas deve ter sido maravilhosa. Gostei muito do texto.

  5. Odir, o cara dos quadros de aço sou eu? Não lembro de falar contigo e olha que queria te conhecer pessoalmente há tempos. Mas como não sei como tu é, provavelmente não percebi isso na hora…

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