a bicicleta e o brasil

às minhas amigas camille & maria, cujos sotaques muito gosto me trazem!

o brasil foi colônia. não teve uma noite de são bartolomeu ou uma revolução de aviz. não teve uma queda da bastilha  muito menos uma emocionante revolução dos cravos, que comemoro, eu, todo 25 de abril, a cantar a “grândola, vila morena”, de zeca afonso.

liteira

o jipão colonial

o brasil foi colônia onde toda indústria foi proibida até 1808, salvo a produção de açúcar e o curtimento de couros. cá por essas terras os primeiros metalúrgicos foram negros heroicamente fugidos da escravidão, fabricando suas próprias armas nos quilombos. por isso se acham nos sítios arqueológicos pontas de lança de formato africano mas com metal brasileiro.

no brasil tivemos apenas revoltas e golpes de estado, mas não revoluções. revoltas diversas no século XIX, golpes no século XX. eu mesmo sou filho de algumas das revoltas do século XIX, descendente dos republicanos do sul, mas não os farrapos, mas da república juliana, e depois da guerra de 1893, dos federalistas. mas sim, nunca tivemos verdadeiras revoluções populares, apenas levantes localizados.

não houve cá o abolimento dos títulos de nobreza e a obrigação de tratar a todos da mesma forma, “citoyen”. em minha certidão não consta que seja eu nascido em 18 de frimário do ano CLXXVII da revolução, nem houve cá aquela coisa linda dos militares democráticos indo à rua restaurar o império da vontade popular, manifestada nos cravos vermelhos. não se cantou que se via em cada rosto a igualdade. não, o brasil ainda é medieval.

jacques le goff sempre afirmou que a idade média mudou-se da europa para as américas, sendo os nobres nossos senhores de escravos, e os servos os escravos…  sim, status eternos, não mutáveis, pois o escravo liberto não se tornava pleno cidadão, mas apenas escravo liberto…

a escravidão, conforme nos ensina gilberto freyre, degrada ambos, senhor e escravo. sim, aqui os senhores tornaram-se paxás.

e, como o mesmo gilberto freyre afirma, o escravo era as mãos e os pés do seu senhor.

ora pois! sem mãos nem pés, como se move o degradado senhor? é movido, precisa de um motor. assim o é nas ruas, cujo solo não toca, para não gastar seus caros sapatos, e nada faz pelas próprias mãos.

por esse motivo há tantos que nos parecem retardados: incapazes de lavar as próprias meias, ou de providenciar, de uma forma ou outra que não seja comprando na rua, os próprios alimentos.  sim, quantos filhos das classes altas vão a intercâmbios escolares a países do exterior para aprender a lavar a própria louça usada?

num país medieval com escravos e senhores a todo lado, sem mudança possível de status social, o escravo sobrevivia pelo “jeitinho”. nunca deixaria de ser negro e portanto sofrer das agruras do tratamento desigual, mas dava um jeito de ter um pouco de liberdade, uma cama um pouco melhor,um alimento a mais.

numa escravatura que no século XIX era, em muito urbana, não havendo portanto senzalas, mas grandes sobrados onde nos altos moravam os senhores e nos porões fétidos os escravos, a promiscuidade do convívio treinou o povo a se socorrer da proteção de um ou outro para resolver seus problemas.

o clientelismo que reina no brasil tem aí suas origens. resolver os problemas falando com fulano ou beltrano, ou reclamando que não há político “que dê jeito” na situação, que resolva tudo.

não, cá por essas terras, ninguém grita: “nós, o povo, queremos e fazemos”. no máximo grita-se: “eu quero que tu faças!”. por isso reclama-se tanto do estado, mas se esquece que que nós, o povo, é que produzimos esse estado.

ah sim! classes sociais mais importantes que status de cidadão. antes de se ser cidadão brasileiro se é pobre, se é da dita classe média, se é rico. se é branco, negro, pardo. ou se quer ser: lentes de contato azuis, cabelos pintados de um loiro artificial…

neymar, o nórdico.

neymar, o nórdico.

e claro, a predileção pelo jipão, sucedâneo da liteira, da carruagem. nada e andar pelas próprias pernas, nada de carregar pelos próprios braços, nada de suar.

o medo fóbico ao suor que o brasileiro normalmente manifesta é o receio de ver seu status social questionado. e o trabalho braçal, esse feito com a força física, tão desvalorizado, assim como a desvalorização do profissional da educação: não havendo progresso real possível pela educação, ela não passará portanto de um mero lustro.  mais ou menos escolarizado, não deixa de se chamar vantuil da silva ou antenor bulhões de albuquerque cavalcanti de souza leão. ao primeiro no máximo o epíteto de pobre esforçado, ao segundo a liberdade de fazer o que quer, inclusive nada fazer a não ser rapinar.

debret retratando o trabalho, como um tormento, que de fato o era. forçado, o escravo trabalha sob porrada.

debret retratando o trabalho, como um tormento, que de fato o era. forçado, o escravo trabalha sob porrada.

assim, pois, organizações sociais dignas deste nome não podem plenamente funcionar. greves são vistas como mera bagunça, a ser resolvida no porrete. devendo o popular agradecer estar vivo, e poder ter raros momentos de alegria: o carnaval… de resto, o porrete, a fome, os mal-tratos, o amontoar-se e não morar.

comer por caridade de alguém.

comer por caridade de alguém.

ora pois, onde encaixa-se a bicicleta nesse mundo pré-moderno? onde nós já tentamos ser neo-liberais sem termos antes sido liberais? se criticamos o estado de bem-estar social sem tê-lo conhecido de perto?

bicicleta ou é veículo de pobre ou brinquedo de excêntrico. por isso nós, que a usamos no transporte, sendo nós brancos, sendo nós escolarizados, somos os mais excêntricos dos excêntricos: “mas como você pedala na rua?” quantas vezes não se ouviu esta frase?

e claro, o entregador de água e seu triciclo, o entregador de pizza e sua bicicleta barata, ou o rapaz da bicicleta barata do bairro de periferia, que são? “bicicleteiros”, e não “ciclistas”.

sim, a distinção “bicicleteiro X ciclista” a muitos é necessária para afirmação de status social. pedalar em locais separados, se possível, sem tocar a rua, isolado por cordões de segurança. e nunca misturar-se ao que usa a bicicleta como transporte.

ora, fica a dúvida: no empreendimento abaixo, é possível guardar o carro com a bicicleta no rack acima do teto do carro?

pois é, isto é o brasil. o local onde a poucos tudo é concedido, e a muitos pouco permitido.

até hoje assim se faz: quem pode manda, quem tem juízo obedece e protege da chuva, do vento...

até hoje assim se faz: quem pode manda, quem tem juízo obedece e protege da chuva, do vento…

não chegou à modernidade o brasil, não descobriu seu povo, talvez isso explique a arquitetura sem gente de niemeyer e lúcio costa, e os prédios com elevadores de serviço para os empregados.

cena de uma desocupação judicial de área invadida? não tinham os índios título de propriedade, estando portanto ocupando ilegalmente uma área?

cena de uma desocupação judicial de área invadida? não tinham os índios título de propriedade, estando portanto ocupando ilegalmente uma área?

e claro, não há povo, apenas a malta maltrapilha, os que “vivem de esmola”, como se diz de quem depende de programas sociais. os que às vezes não sabem seu lugar. não há citoyens, e não se vê em cada rosto a igualdade. nos resta cantar canções estrangeiras, marselhesas, sonhando com vilas morenas, e pedalando nas frestas, protegidos mais pelo acaso que pela ação dos homens.

cena de uma delegacia?

cena de uma delegacia?

precisaremos cá mais 400 anos para desfazer os males da escravidão. até lá não teremos escolaridade de qualidade acessível a todos e, portanto, de fato meritocrática. até lá o fetiche por motores, inclusive elétricos acoplados a bicicletas, por vestimentas elaboradas que requerem empregadas para serem lavadas, e pela aparência o mais europeia possível, preferencialmente viking. e a mania de se estar no século XIV mesmo que o calendário nos aponte estarmos no século XXI.

até lá, o carnaval…

8 Respostas para “a bicicleta e o brasil

  1. “Nunca tivemos revoluções populares” -> Conjuração Bahiana (a Mineira não), Guerra de Independência do Brasil na Bahia, Búzios, Malês

    Se isso é “nunca”…

  2. 18 frimário -> Iluminismo encruado é isso aí!

  3. “e, como o mesmo gilberto freyre afirma, o escravo era as mãos e os pés do seu senhor.” -> a afirmação é de Antonil, Freyre só o cita

    (For the record: a única tentativa real de estabelecer igualdade com sofisticação intelectual e qualidade urbanística ocorreu através de um monarca, Dom Pedro II, de longe o melhor governante que o Brasil já teve – e uma esquerda que não percebe isso tá fazendo cegamente o jogo do positivismo milico-cafeeiro)

  4. O povo não produz estado em canto algum, e aqui foi o estado que produziu o povo – puro Freyre isso, aliás

  5. A arquitetura sem gente de Niemeyer, mas a de Lúcio é bem viva. E nunca se esqueça de outros modernistas, bem mais sensíveis a lógica da cidade real que já existia antes – mormente o mestre Diógenes Rebouças.

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