a bicicleta e a não-inclusão

em termos de sociedade, não existem excluídos. existem os incluídos de forma não desejável. pois só há marginais, nas margens, pois há centro. assim como só há dia, pois há noite, e vice-versa: a existência do escravo exige a existência do senhor, e só há nobres pois há plebeus.

faixa compartilhada em curitiba. o carro está estacionado. nessa descida, é um risco ir pela faixa, e os ciclistas preferem a via ao lado.

faixa compartilhada em curitiba. o carro está estacionado. nessa descida, é um risco ir pela faixa, e os ciclistas preferem a via ao lado.

o recente evento dos rolezinhos de jovens funkeiros em shopping centers é bem revelador: não é movimento político partidário, mas sintoma de um urbanismo  típico de economia de mercado que não soube atender a totalidade do mercado, mas apenas parte dela.

de fato, nas cidades brasileiras, não há o espaço para o cidadão, a ágora: a praça onde todos convivem igualmente, pois são igualmente cidadãos, independentemente de classe social.  no rio, esse espaço é a praia. e só. e em são paulo?

ora, toda a movimentação para a criação do parque augusta tem a mesma motivação dos rolezinhos dos shoppings, e a mesma motivação das massas críticas de ciclistas:  a retomada de um espaço, ou a abertura de um espaço, onde as regras de convivência não estão única e exclusivamente pautadas pelo poder de compra de alguns.

o funk ostentação é apenas a manifestação de desejo de compra de quem passou a vida inteira sendo bombardeado pela publicidade instigando consumo. e aí é que se vê como andrea matarazzo, além de ser de direita, não entendeu o que ocorre. ora, se vendeu tanto o modelo de glamour de determinados grupos, como querer que a massa não siga os gritos de ordem que são gritados na mídia?

pois criou-se uma cidade pautada por um princípio: quem pode comprar tem, quem não pode, que fique no seu canto. ora, isso serve tanto para explicar o que acontece nos rolezinhos, como nessa entrevista, onde o rapaz explica tudo o que se queria: encontrar pessoas. 

mas o poder público e os administradores de shopping centers não querem saber dessas pessoas, assim como, no trânsito, pedestres, ciclistas, cadeirantes, e carrinheiros recicladores são vistos apenas como cones de sinalização: é bom desviar, mas estão ali apenas para atrapalhar o fluxo dos motorizados.

então, assim como não se soluciona a falta de um local adequado (não o sambódromo ou ouro espaço vazio) para que os jovens se encontrem (como fazem desde antiguidade!), mas se tenta restringi-los,pura  e simplesmente, o mesmo se faz com as políticas públicas relacionadas à bicicleta.

é só ver o que ocorre com as estruturas cicloviárias das cidades: ciclovias, quando há, são de péssima qualidade, sempre com piso pior do que a via ao lado, disponível aos motorizados.

são comuns as ditas vias compartilhadas: pedestres e ciclistas dividindo o mesmo espaço. ora, nesse local como pedala o ciclista? devagar, correndo o risco constante de atropelar um pedestre e também cair.

por isso é comum que ciclistas evitem esses locais. e aí então estão sujeitos à agressividade do motorista que o quer empurrar para aquela via ruim.

“vai pra ciclovia!” – qual ciclista urbano não ouviu isso? ou então em suas variantes: “vai para o parque!”, “pedale em vias tranquilas!”

mas, peraí! espera aí, que esse discurso contém uma ilegalidade!

no nosso atual Código de Trânsito Brasileiro, a bicicleta só não pode circular nas vias de trânsito rápido. e quais são essas vias? pelo Anexo I do CTB, são essas:

”  VIA DE TRÂNSITO RÁPIDO – aquela caracterizada por acessos especiais com trânsito livre, sem interseções em nível, sem acessibilidade direta aos lotes lindeiros e sem travessia de pedestres em nível.”

em são paulo, só dois locais tem essa característica: a avenida 23 de maio e as faixas centrais das avenidas marginais, tietê e pinheiros.

de resto, a cidade inteira é ciclável. de resto, em todos os locais o motorista deve diminuir a velocidade ao ultrapassar um ciclista e manter a distância de 1,5 metro de distância… e o poder público deve fiscalizar o cumprimento dessas regras.

mas o poder público só vê ciclista como problema. mas não problema ser resolvido, mas a ser eliminado, calado.  por isso ciclovias que vão do nada ao lugar comum, ou planos cicloviários que restringem o uso da bicicleta a um bairro apenas.

por isso não há, em são paulo, nenhuma atividade do poder público voltado à transposição segura (e rápida! e não dando voltinhas desnecessárias, subindo escadas, rampas e etc) dos diversos viadutos e sobretudo pontes, sobre as marginais.

ah, sim a cidade não foi preparada para bicicletas… e assim como também as cidades, que possuem mais de 10 mil anos de existência, não foram construídas para automóveis. mas coo foram adaptadas para automóveis, podem ser readaptadas para a circulação de… pessoas! sim, ciclistas, cadeirantes, pedestres…

pois falta espaço, e sim, ciclistas estão fazendo seus rolezinhos. ciclistas estão aumentando em número pelas cidades. ciclistas vão a todos os locais.  e a política de enxugamento de gelo sempre causa alagamentos…. décadas restringido espaços públicos, e os jovens marcam seus rolezinhos nos shoppings.  décadas construindo avenidas para carros nos locais planos, e os ciclistas irão justamente para essas avenidas.

pois todos os caminhos são cicláveis. e se um ciclista morre atropelado sem que haja intenção, dele próprio, ciclista de se jogar deliberadamente debaixo do veículo do atropelador, a culpa é sim do poder público: por não criar espaço seguro, por não fiscalizar, por não educar. pois é para isso que são eleitos e concursados. um estado que muito falha perde a legitimidade…

2 Respostas para “a bicicleta e a não-inclusão

  1. Adorei o blogue!!! O dia-dia dos ciclistas e pedestres é bastante difícil!!! Tudo é projetados para veículos automotores… Queremos um mundo mais humano e não mais mecânico!!! bjãoooo!!!

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