a bicicleta e o amor

“não sabe se casa ou compra uma bicicleta” – é o ditado comum para definir uma imensa indecisão numa situação, entre um compromisso e a liberdade.

ciclofaixa em calgary

ciclofaixa em calgary

de fato, durante muito tempo a bicicleta representou apenas isso: uma espécie de liberdade irresponsável.

no filme abaixo, de 1958, “o grande momento” (roberto santos, 1958), o personagem de gianfrancesco guarnieri vai casar e, escondendo sua má situação financeira, se vê obrigado a vender a sua bicicleta para pagar as despesas do seu casamento.

esse filme tem uma das mais belas cenas do cinema brasileiro: as andanças de bicicleta do personagem em são paulo. e a tristeza da sua venda (desconfio que a bicicleta seja uma bianchi). observe a partir de 34 minutos do filme, as cenas belíssimas do personagem em sua bicicleta por uma são paulo ainda não tomada por carros.

mas parece que o mundo está mudando. algumas coisas não mudam: o peso das relações, dos compromissos, que de fato existem, e fazem com que algumas pessoas temam até caracterizar seus relacionamentos como simples namoros. sim, o amor é complicado, inclui muitas renúncias, ou melhor, escolhas. escolhas que nem sempre se fazem confortavelmente.

mas o que tem mudado é o peso que o carro tem tido no imaginário das pessoas. já foi, no passado, um símbolo absoluto da segurança financeira – que é algo que ainda tem peso nas relações amorosas, ainda muito financeirizadas, materializadas, e ainda insuficientemente manifestadas como sólidas relações entre almas, e não entre carteiras – mas hoje a juventude parece orientada por novos valores, não necessariamente melhores, mas novos.

assim, o carro perde bastante espaço no imaginário dos cenários amorosos perfeitos. e a bicicleta começa a aparecer.

sim, vemos hoje muitos casais unidos pela bicicleta. basta ter olhos de ver, é crescente não apenas o número de ciclistas nas cidades, mas também não se pode esperar que sejam apenas ciclistas, e não tenham seus relacionamentos amorosos.

mas como ainda não são uma maioria, ainda há embates nessas situações em relacionamentos entre ciclistas e não-ciclistas. na prática são embates entre os velhos e os novos valores. sobre as velhas formas de se apresentar à sociedade e as novas formas. pois sim, deslocar-se em bicicleta pela cidade muda completamente a forma de apresentação: das roupas aos cortes de cabelo, as bugigangas que se carrega e as que se deixa em casa, e das marcas ou não de graxa nas pernas (ou na barra da saia, que uma amiga tentou convencer colegas de trabalho que era moda nova…. hehehe).

na prática, de certa forma volta-se a uma forma de se viver nas cidades que já parecia sepultada no passado: uma vida sem carro, onde se anda bastante nas ruas, pega-se muito transporte coletivo, pedala-se. isso implica em repensar os calçados (sai o salto agulha, volta o salto anabela, por exemplo), repensar calças e saias, blusas e etc.

sim, pois num mundo onde as pessoas saem do elevador e entram no carro, e descem do carro na frente do outro elevador, o calçado não será usado para andar, podendo apenas ser bonito. mas para quem usa escadas, anda nas calçadas, e pedala, o calçado precisa ser feito levando-se mais em conta a funcionalidade que a aparência.

mas essa mudança é mais forte nos países de centro e nas classes mais escolarizadas. no dito terceiro mundo ainda vigora o fascínio pelo carrão. e é isso que demonstra de fato a mudança: a diferença entre os valores dos locais centrais e os periféricos demonstram que há uma mudança em curso. leia uma reportagem sobre isso nesse link aqui.

mas nos relacionamentos amorosos as cosias não mudam. desde que o mundo é mundo são encontros e desencontros, escolhas, sopesamentos, compreensões e incompreensões. sincronias e assincronias. pessoas certas no tempo errado e pessoas erradas no tempo certo. mas é isso que caracteriza os relacionamentos amorosos humanos, não é? seja em peças de teatro de shakespeare (não nas apenas óbvias “romeu e julieta” e “antônio e cleópatra”, mas mesmo o conturbado relacionamento de oberon e titânia em “sonhos de uma noite de verão”) até os moderníssimos e complicados casamentos múltiplos….

yep, e onde aparece a bicicleta? aparece como sintoma na ânsia de viver, e, por que não, no veículo rápido que permite o encontro entre duas pessoas, mesmo quando a cidade congestionada tende a protelar esses encontros. pois a paixão, como a fome, tem pressa, sempre.

em tempo: para os ultra-românticos, um pedacinho dum filme dos anos 60, “in ginocchio da te” (filme açucarado estreladopelo cantor gianni morandi e todo baseado nas suas músicas). em 3:00 min. a mocinha larga o táxi no congestionamento e rouba uma bicicleta para rapidamente encontrar sua paixão. note como ela pedala pela cidade, no meio do trânsito… sim, nada é novidade.

“se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi.” nos alerta g. tomasi di lampedusa em “il gattopado”. de fato, ao menos no campo do amor, não há nada de novo debaixo do sol. ainda vale aquela fantástica definição de shakespeare em “antônio e cleópatra” (I ato, cena III), sobre os amores das noites anteriores: “eternity was in our lips and eyes…”.  tudo muda, mas tudo é sempre igual. pedalemos, pois.

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9 Respostas para “a bicicleta e o amor

  1. “simples namoros” não, Odir.

    O namoro é uma instituição burguesa, é a entrada do amor erótico no etapismo da dívida.

    http://www.ultimobaile.com/?p=734

    o namoro acaba sendo majoritário, no sentido de Deleuze, impedindo todas as outras formas (dadivosas) de relação erótica.

    atenção: namoro aberto não é solução porque a monogamia não é um problema – ela é, na pior das hipóteses, um efeito colateral incidioso do desejo (desejo não é tesão – desejo é sempre insatisfeito, residual).

    Mil vezes ter um romance, um caso, um affair, ou tantas outras formas de amor ainda sem nome, inomináveis ou por nomear, contudo monogamas do que ter um namoro – seja lá que formato ele tenha.

    O namoro é sempre um automóvel, eu quero um amor erótico que pedale, ande a pé, faça feira e deite na rede.

  2. o amor não é complicado pelas escolhas (há amores tão acidentais que se tornam inevitáveis “a primeira vista”), nem pelas renúncias (há amores em que mais se oferta do que se abdica), mas porque ele muda o campo magnético da libido do sujeito.

    Da libido freudianamente: o narcisismo sai do eixo, o masoquismo sai do eixo, os objetivos sexuais são do eixo, e o objeto de desejo que causa isso pode ser inusitado e cheio de aresta (alias, quanto mais inesperado e abstruso, mais o sujeito se desbaratina).

    Ocorre que a Ordem Burguesa cria a idéia de que o amor trará a paz – claro, para chegar a ele pagasse a dívida infinita do namoro até o noivado etc. (Roland Barthes fala disso muito bem, embora de viés, no Fragmentos de Um Discurso Amoroso – “o amor é o mitologema do apaixonamento”, tanto quanto a Sociedade Sem Classes é o mitologema do socialismo, etc.).

    Mas nunca antes foi assim: o amor sem dúvida aumenta as potências do sujeito (penso em David e Jônatas, Aquiles e Patroclo – malgrado, os mitologemos amorosos do ocidente são, mesmo no judaismo, homoeróticos – Adriano e Antinoo, etc.), mas só porque os tira do equilibrio prévio. Tomar o amor como um pilates emocional – ou uma bicicleta afetiva: só se equilibra enquanto movimento, e só se move enquanto equilibrada pelo movimento que a equilibra.

  3. putz, “relações entre almas”?! – haja idealismo!

    O problema no amor no capitalismo não é que ele seja mediado por mercadorias (tudo o é, lembra Marx – e antes do capitalismo, tudo era mediado pelos produtos que ainda não eram mercadoria, exemplo neste caso: flores roubadas), mas bem antes que ele é idealizado (e por isso especulado) tanto quanto o capital (que é uma pura idéia, em contraposição ao trabalho que é uma pura materialidade).

    Fazer do amor uma materialidade de festa e de trabalho, é aí que ele se encaixa no Direito À Cidade (West Side Story, de Robert Wise, vai no âmago disso). Já escrevi sobre isso aqui ó -> http://www.ultimobaile.com/?p=3574

  4. em tempo: talvez os exemplos de amor no ocidente sejam quase sempre entre homens, porque para as mulheres era reservada outras funções na economia sexual – o Prazer, e a Economica.

    Aos homens a Politica, a Erotica e o Acesso a Verdade (causado pela erotica).

    Sim, Foucault fala disso entre os gregos, e mostra como Roma (que gerou certa igualdade de generos) isso se esvai. Mas, de uma certa forma, isso aparece no judaismo, com diferenças claro: a imposição da monogamia (na Atenas e na Roma ela era esperada e reciproca, mas não obrigatoria), a valorização da epithumia (os Canticos de Salomão, enquanto Roma e Grecia quase não geraram literatura erotica sobre o prazer das mulheres), a condenação da homossexualidade (apesar de David e Jonatas), e o relativo desinteresse por uma dietetica (que se torna entre os hebreus meramente prescritiva, em oposição a ideia de soberania subjetiva dos gregos).

  5. a questão da bicicleta em relação a uma erótica e a uma dietética do desejo passa por outra coisa, Odir – pelo fato de ela ser o que Ivan Ilich chama de “ferramenta de convivialidade”

    digo: pelos efeitos mentais que a bicicleta causa. Eu, por exemplo, se por um lado fiquei mais rigoroso e intolerante com minhas escolhas (o horror ao disperdicio energético tipico de quem pedala), por outra quando as faço posso ser tenaz sem ser assoberbado, e ter uma deferência para com o ritmo dos outros.

    Para usar uma metafora, é como se eu me dispusesse a fazer um “bike-anio libidinal”: sim, dá um tanto de medo gatinho, mas vem aqui do meu lado que dá; bom, agora tem uma ladeira, eu vou ter de subir na frente mas te espero lá em cima; quer parar? tudo bem, paramos, fica pra outro dia.

    uma regulação maior desse “orgão externo” que é a energia psiquica, da dupla-banda libidinal, como de resto da economia energetica como um todo.

  6. Esse texto me fez perceber que tb estou mudando com relação às bikes…amo treinar ciclismo, amo a estrada e desbravar paisagens lindas e únicas, amo as subidas intermináveis e sofríveis que enquanto estamos nela, falamos “NUNCA MAIS VOLTO AQUI” e logo depois que a vencemos, pensamos “Nossa, que subida maravilhosa! quero voltar muito em breve!”, mas tb percebo que alguns valores associados à magrela estão retornando…como por exemplo passear “com roupa normal”, “à paisana”.

    Tenho feito isso no bairro onde moro e em distâncias mais curtas ou mesmo quando vou ao cinema ou a algum evento social que possibilite o estacionamento seguro do meu meio de transporte.

    No fim, torço por um mundo com menos carros e mais bicicletas

    Pedalemos, pois.

  7. vou pensar com calma pra escrever um texto sobre isso. merece muitas laudas esse assunto. me espantei na bicicletada quando cheguei ao ver o tanto tanto de gente separada que tinha por ali…

    mientras tanto, largo um haikai amargo que soltei entre uma fúria sentimental, um pão com ovo na padaria e a compra de uma fixa:

    http://colunaecletica.wordpress.com/2013/12/14/haikai-da-inconstancia/

  8. Boa postagem! Faz (re)pensar (n)as relações que estabelecemos… 🙂

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