over the hills and far away

um brevet em campos do jordão, com um percurso lindo, mas somando mais de 3.000 metros de altimetria acumulada, ou seja, se enfileiradas uma acima da outra, pedalamos subindo um morro de mais de 3.000 metros…

morro acima, com hortênsias ladeando a estrada tranquila

morro acima, com hortênsias ladeando a estrada tranquila

diversas e longas subidas, e pelo menos uma, a da serra velha de campos do jordão, considerada de categoria 1, com 12 quilômetros de comprimento (cruzando um pedacinho do estado de minas gerais), e uma inclinação razoável… tanto que faz parte do percurso de diversas provas de montanha do ciclismo profissional e amador brasileiro.

mas esse brevet tinha dificuldade equivalente àquela de algumas provas de montanha do tour de france. com a diferença que os profissionais a fariam em 5 ou 6 horas, e nós, os amadores marrentos, nos demos por felizes por fazer dentro do tempo máximo de 13 horas e meia…

a estrada entre as paredes de pedra

a estrada entre as paredes de pedra

é fato que esse era um brevet para os filés de borboleta, os chassis de grilo, os frangos (desossados), e não para os mais carnudinhos como eu. fui sem expectativa de completar no tempo, sabedor que sou tão apto para o ciclismo de montanha quanto um anão o é para jogar basquete.  ah, sim, o anão pode até aprender a acertar as cestas, fará cestas de 3 pontos. mas nunca enterrará a bola na cesta, nunca tocará a tabela. assim sou eu no ciclismo de longa distância, principalmente com muitos morros, arrasto-me, pois arrasto minha pesada carcaça tão provida de músculos de fibras brancas e tão desprovida de músculos de fibras vermelhas.

na abertura, às 6 da manhã, pegando o passaporte das mãos do martin, ainda com a bolsa nas costas.

na abertura, às 6 da manhã, pegando o passaporte das mãos do martin, ainda com a bolsa nas costas.

mas inscrevi-me mesmo sabendo ser quase uma insanidade esse trajeto para mim. e sim, completei no tempo, para surpresa de alguns amigos e sobretudo para a grande surpresa minha. completei no tempo pois foi tudo perfeito: a temperatura estava deliciosa, a alimentação foi correta (apesar de heterodoxa) e não tive um único furo de pneu para me atrapalhar. havia mexido no fit da bike mais uma vez , e desta vez estava tudo ok.

e vai todo mundo me passando...

e vai todo mundo me passando…

sobre o fit, ressalto que sofro de uma espécie de síndrome de eddy merckx: merckx foi certa vez atropelado, ficou bem ferido. desde então, nunca mais acertou o fit da sua bicicleta, tendo que de vez em quando mexer em algo: tamanho ou altura da mesa, altura do canote, posição do selim. ficou um pouco neurótico com isso. e eu o entendo: o fit que dá certo numa vez pode gerar uma tortura numa outra vez. o selim numa altura num mês, no mês seguinte preciso abaixar ou aumentar um cm sua altura.

e isso se explica pelos meus 3 atropelamentos (um como pedestre, dois como ciclista) e meu acidente com fratura exposta na mão direita, em 2000, que me tolheu parte dos movimentos dessa mão.

eu arrisquei outro fit dessa vez, tirei o extensor de espiga que estava naquele garfo colnago force que uso na minha antiga litespeed, e abaixei e levantei o selim diversas vezes durante a semana até acertar uma posição que achei confortável. curiosamente, ela ficou com o fit que usei um ano atrás e me causou meses de dores. e hoje, não causou uma única dor sequer. o mesmo tipo de incongruência que percebi em 2010 com minha vitus, que no fit que nos 300 km me deixara com a mão direita paralisada ao final, nos 400 km me deixou confortável…

e vamos pedalando em pé...

e vamos pedalando em pé…

o fit desta vez estava perfeitinho. permitiu-me subir confortável, girando e fazendo força, por tantos quilômetros de subidas quantos havia naquele percurso. que, repito, é lindo.

começa-se em tremembé, mas subimos a estrada até santo antônio do pinhal, que atravessamos, e então pegamos a rodovia que nos leva a monteiro lobato, descendo. em monteiro lobato pegamos a estradinha cheia de subidas que nos carrega a são francisco xavier, onde estava o primeiro PC, e onde cheguei já depois das 11 da manhã, já tendo consumido as calorias do meu café da manhã e lanchinho da estrada: 2 litros de guaraná, 4 bananas, uma xícara de café expresso, dois sachets de carboidrato e eletrólitos. e muita água.

no PC1, uma paçoquinha de amendoim, 4 bananas, 2 maçãs. me entupi de gatorade, e enchi as caramanholas: uma de água, outra de gatorade.

no PC1, partindo para a segunda parte

no PC1, partindo para a segunda parte

saí, e na volta, em monteiro lobato, novamente, parei num boteco, comi 2 coxinhas e tomei uma coca-cola pequena. pensei muito no meu amigo igor gabia naquele momento. pensei muito mesmo.

mas segui adiante, subindo a rodovia monteiro lobato, até chegar num PA, bem no início da serra de campos. ali comi algumas paçocas, mais bananas, tomei um monte de gatorade (havia secado minhas caramanholas na estrada já), e outra coca-cola, outra garrafinha pequena.

no PA, tomando uma coca ao lado do flávio doin

no PA, tomando uma coca ao lado do flávio doin

comecei minha longa subida. subi sentado, depois em pé, depois sentado na ponta do selim, depois sentado para trás, depois em pé… sempre alternando, alternando, alternando… usei tudo o que aprendi de técnicas de subida. marchinha ligeiramente mais pesada quando pedalando em pé, mais leve quando sentado. alternando as posições para alternar os grupos musculares.  compassando a respiração. tentando manter um certo ritmo, controlando o tempo.

cheguei ao topo da serra só ao final da tarde, e atravessei campos do jordão em direção ao PC2. lá chegando, herr dunner apertou o braço esquerdo da pedivela da minha bike, que parecia frouxo. sim, ao final da subida, a bicicleta rangia. fiz força sim. sei que torci o quadro várias vezes, afinal, sou geneticamente um sprinter, portanto com muita força nas pernas. e isso não é bom em escaladas. bons escaladores são magros, pequenos. cavalos, como eu, são lentos, lentos, lentos….

em campos do jordão, richard dunner e eu olhando a pedivela...

em campos do jordão, richard dunner e eu olhando a pedivela…

do PC2, rumei de volta ao final. não soltei como queria na serra, e apertei o pedal lá embaixo, para chegar no tempo. de fato, cheguei em 13:18 hs. um tempo sofrível. sim, eu sei. mas brevetei.

na chegada, já tendo anoitecido

na chegada, já tendo anoitecido

no caminho, foi sempre sendo ultrapassado por diversos participantes, o tempo todo. não foi um brevet para iniciantes, assim, os mais experientes sempre me passavam, o tempo todo. conversei com muitas pessoas em diversos momentos, mas não tive ninguém de fato pedalando comigo o tempo todo.

não haveria, pois sendo quase todos com outra compleição, tinham outros ritmos nas subidas e/ou nas descidas.

foi meu brevet introspectivo, meu pedal sereno e zen, ora pensando no meu amigo igor gabia, e sua ausência nessa prova, ora na pessoa que tanto me ensinou sobre o vale e sobre a mantiqueira. e com essa música na cabeça o tempo todo…

eu e o igor, em boituva, no final de um 300km. sim, usei a mesma camisa desta vez. mas não tive aquele meu gregário que me puxava no final. desta vez pedalei sozinho até a chegada, sem o vácuo, sem as longas conversas sobre as estrelas sob as quais pedalávamos.

eu e o igor, em boituva, no final de um 300km. sim, usei a mesma camisa desta vez. mas não tive aquele meu gregário que me puxava no final. desta vez pedalei sozinho até a chegada, sem o vácuo, sem as longas conversas sobre as estrelas sob as quais pedalávamos.

com exceção do trecho entre monteiro lobato e são francisco xavier, eu já pedalei por toda aquela região, e repito, adoro.

recebi o carinho que sempre recebo da organização, como sempre, perfeita. frutas, água e energético à vontade, caminho muito bem explicado na planilha, e até muitas fotos, como todas as que posto neste post.

mas foi um pedal melancólico. um pouco pela ausência do igor – meu primeiro audax depois de muito tempo sem tê-lo como parceiro em logos trechos – um pouco pela percepção das minhas limitações, e do imenso esforço, nem sempre com resultados, para superá-las. sim, nossos corpos nos mostram nossas capacidades e nossas limitações. e eu sei onde posso chegar, e nesse audax sei que fui um pouquinho além. um tempo sofrível para muitos, mas, para mim, dada a dificuldade das sucessivas montanhas que subi quase sempre abaixo dos 10 quilômetros por hora, foi sim uma pequena vitória pessoal.

só completei pois administrei o tempo, usei toda a técnica que eu dispunha, e tenho treinado forte subindo a cantareira 3 vezes por semana. senão… teria ficado no meio da estrada. sim, as montanhas são belas, e implacáveis.  e devem ser escaladas, como disse mallory, apenas por que estão lá. e lá estarão, mesmo depois que nós não mais estivermos nessas estradas.

neste link, o mapa do trajeto, pelo bikemap.

as fotos deste post são todas da organização do audax randonneur sp.

4 Respostas para “over the hills and far away

  1. digno de ganhar uma camisa verde. Força até o final. d:)

    • YEP! hehe, eu sei que vc seria um dos poucos que entenderia. sabe aquelas cenas de grupetos chegando ao final de etapas de montanha, todos misturados e de cabeça baixa, enquanto ao lado os vencedores são premiados? grupeto que passa aliviado ali no limite do tempo de corte? era eu, era meu espírito. alívio. poderia ser a camisa verde, ou mesmo a vermelha. camisas de sobreviventes.

  2. Muito fera essa camisa. Ia comentar no outro post, mas não o fiz porque o astral era outro:/

  3. Sei que já faz tempo, mas acabei de ler seu relato. Muito bacana! Fiz esse Brevet no fim do ano passado me colocando a prova pela primeira vez. Nunca vi tanta subida na vida!! E assim como você, fui sozinho de início ao fim encontrando um ou outro. Parabéns pela superação!

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