a bicicleta, a lei e o pobre

pobre no brasil tá ferrado. tá mesmo, pois não apenas não tem bens, não tem acesso à informação, nem tem formação.

não entende de lei. mas entende do cacete que a lei lhe aplica, quanto ele, mesmo sem saber, a infringe.

é, pobre se ferra. quando não se é pobre, se tem acesso à informação. se tem internet, se sabe ler. se vai dirigir um carro, passa por um curso nos centros de formação de condutores. mas se é um pobre que só tem dinheiro para uma bicicleta velha, a informação que tem é aquela que os seus circundantes repassam: família, amigos e etc.

é, o senso comum, induzido por legislações antigas, e também pela legislação aplicável ao pedestre, diz para o ciclista andar na contramão de direção. sim, até hoje a legislação de trânsito diz para o pedestre, na via rural (as estradas!) andar na contra-mão, no sentido contrário ao dos carros (artigo 68, parágrafo 3º do código de trânsito).

e muita gente anda na contramão. sempre sendo aconselhado a fazer isso, para ver o carro vindo em direção contrária, e escapar do choque… é, esse é o argumento absurdo. sim, é absurdo mas é o senso comum. 

sim, reina o medo da colisão traseira. sim, o ciclista desinformado morre de medo de um ônibus passar por cima dele, vindo de trás.  sim, o humano não gosta de sentir um perigo de algo que não vê.

mas peraí! a legislação diz para ele andar na mão de direção, e os dados dizem que colisões traseiras são menos de 1% dos casos de atropelamento. sim, é muito mais seguro andar na mão, e não na contramão.

mas ele sabe? ele que anda com seu chinelão numa bicicleta? sem capacete, pois não tem dinheiro pra comprar um? com 12 ou 13 anos de idade, analfabeto funcional?

é um pobre ferrado. a ele, o rigor da lei. como sempre foi, desde que as leis fossem feitas para lhe enquadrar. pois as leis que permitem que ele seja de fato cidadão, essas não são cumpridas. como os 11 artigos do mesmo código de trânsito brasileiro que diz que ele deve estar andando na mão, e tratam da educação para o trânsito. sim, muitos artigos… olhe esse artigo:

        Art. 76. A educação para o trânsito será promovida na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus, por meio de planejamento e ações coordenadas entre os órgãos e entidades do Sistema Nacional de Trânsito e de Educação, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, nas respectivas áreas de atuação.

        Parágrafo único. Para a finalidade prevista neste artigo, o Ministério da Educação e do Desporto, mediante proposta do CONTRAN e do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, diretamente ou mediante convênio, promoverá:

        I – a adoção, em todos os níveis de ensino, de um currículo interdisciplinar com conteúdo programático sobre segurança de trânsito;

        II – a adoção de conteúdos relativos à educação para o trânsito nas escolas de formação para o magistério e o treinamento de professores e multiplicadores;

        III – a criação de corpos técnicos interprofissionais para levantamento e análise de dados estatísticos relativos ao trânsito;

        IV – a elaboração de planos de redução de acidentes de trânsito junto aos núcleos interdisciplinares universitários de trânsito, com vistas à integração universidades-sociedade na área de trânsito.

ah é. essa parte da legislação, que cabe à união, aos estados, e aos municípios, responsáveis pelo ensino, respectivamente, superior, médio e básico, essa não precisa ser cumprida. só a parte do cacete, o cacete a quem não tem escola, a quem é analfabeto funcional há 4 ou 5 gerações, a quem não usa um belo capacete importado que não protege de acidentes, mas marca muito bem a diferença de classe social. 

o cacete a quem não é chamado de ciclista, mas de “bicicleteiro”, aquele que tem a marca de graxa na perna, que não fez bike-fit, como bem descreve esse texto aqui. hoje ciclista de verdade não apenas usa capacete (pra mostrar que não é pobre), mas não usa aro 26, é só 29, 700c, 27,5, mas nunca, sob hipótese alguma, 26 e/ou bicicleta “de ferro”. e nunca com bagageiro, ou nunca, nunca mesmo, de calça jeans, coma perna direita arregaçada pra não pegar na corrente.

é, sentem-lhe o cacete! como manda esse editorial d´o estado de são paulo, que adorou comentar uma sentença da justiça carioca acerca dum coitado que transitava com sua bicicleta na contra-mão (e a juíza de primeira instância, mais próxima dos depoimentos, percebeu o excesso de velocidade do atropelador). é, esse caso mereceu editorial. o excesso de velocidade de thor batista não mereceu editorial. os carros andando bem acima da velocidade máxima na linha amarela, também não. os ônibus fazendo tomada de curva nas grandes avenidas do rio de janeiro, também não. nem esse coitado cobrador, humilhado pela passageira do ônibus onde trabalhava.

yep! que cobrem sempre os rigores da lei contra os mais pobres os que já foram a passeatas pela melhoria da escola pública. ou então aproveitem dos seus privilégios de classe num respeitoso silêncio. pois a lei já os protege, quando trata igualmente os desiguais. 

pois bem, ontem morreu nelson mandela. quem tiver um mínimo de inteligência, que entenda a ligação entre o editorial de hoje d´o estado de são paulo, e esse bom texto do sakamoto.

pois falta muito tempo ainda para o brasileiro deixar de ser indivíduo e ser cidadão. e cidadãos são todos iguais, né? mas todo mundo quer ser selecionado, e não diferenciado… 

em tempo: defendo a legalidade. em rede nacional já defendi o cumprimento das regras de trânsito por parte dos ciclistas, inclusive acerca de se andar na mão de direção, e não na contramão. mas também por reconhecer que a lei não exige o uso do capacete,e portanto pode-se andar sem um na cabeça – como aliás os pobres ordinariamente o fazem e eu o faço nos deslocamentos urbanos  – tenho sido bastante patrulhado, trollado, por quem desconhece o código de trânsito brasileiro, mesmo sendo alfabetizado e de classe média.

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5 Respostas para “a bicicleta, a lei e o pobre

  1. “Sem capacete pois não tem dinheiro pra comprar um” “chinelão” – eu sou pobre e não sabia! (O fato de eu usar um chapéu veneza de palha panamá comprado na Louisiana é irrelevante)

    (As sandálias têm a classudice do sertão: compradas na Barroquinha)

  2. Odir ao acordar, todos os dias, tem uma reminiscência onírica: “e se o Estado, de repente, começasse a funcionar para o bem…!”

    (Não, não sou neoliberal, nem autogestionário e outras fantasias anarcóides que ignoram o inconsciente freudiano. Eu sou pelo comum, pelo fractal, pelo vernáculo e pela antropofagia)

  3. Impressionante como o Estadão consegue resumir a luta “cicloativística” e difundir o mimimi.

    Pela letra da lei, que se viva no apartheid, pela letra da lei, que a polícia continue matando usando os científicos 3Ps (pretos, pobres da periferia).

    Leis, como vc bem sabe, são construções sociais. E o julgamento que o jornal tanto louva, seria exatamente o contrário em qualquer país com um ordenamento jurídico de proteção à vida.

  4. “aos pobres a lei, aos ricos e poderosos a jurisprudência”

  5. Pedalo minha SURLY LHT aro 26,sem capacete e de bermuda jeans.

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