o silêncio das bicicletas

eu gosto de música. não tenho estilo preferido. mas gosto de música bem feita, e bem gravada. ou seja, 90% do que toca nas rádios e TV me incomoda. a mim e a um monte de gente.

mas até aí é uma questão de não ligar o rádio ou a TV, certo? não, infelizmente não. as músicas, os barulhos, as sirenes, os rugidos dos veículos, estes nos cercam. não há silêncio.

há uma coisa que eu não gosto em alguns modelos de cubos traseiros da campagnolo: o barulho de carretilha.  barulho não combina com bicicleta.

o que mais gosto nas bicicletas é seu silêncio. sua pouca intromissão no ambiente sonoro o qual está sendo cruzado por essa bicicleta em movimento.

de fato, nossas cidades nos estão deixando surdos. são carros, motos, ônibus e caminhões barulhentos.  e mais surdos, é gente colocando música cada vez mais alta. a um ponto de se chegar a uma surdez que torne incômodo o ambiente sem barulho. tenho um amigo assim: seu grau de surdez atingiu um ponto em que ele não consegue ficar sem música. sim, no entorno dele, sempre há um aparelho sonoro.

eu tenho lá minha surdez um pouco acentuada no ouvido direito. desde a infância (nunca gostei de usar o telefone no ouvido direito e, aliás, odeio falar ao telefone, e isso desde que me conheço por gente), mas gosto do silêncio, não que não goste de música (já disse, adoro!), mas poucos minutos por dia. momento em que paro tudo e ouço a música, como se deve: de olhos fechados. seja ela um dos rocks que gosto, seja uma obra prima como essa.

mas a bicicleta é silenciosa. admissível apenas o zunir do vento por suas formas. nada como uma longa descida sem trânsito algum, como há uma no meu caminho, a noite: raramente vejo alguma alma viva ali. com a bicicleta, apenas ouço o atrito dos pneus lisos no asfalto, e, para mim, já é muito.

bicicletas como transporte trazem de fato esse ganho de qualidade de vida a todos.  na rua que desço em silêncio, o barulho da minha bicicleta não acordará nenhum ocupante das casas daquela via. sim, meu trafegar não afeta o sossego de ninguém… o meu e de nenhuma bicicleta, o mesmo não acontecendo com carros, motos e ônibus, que poluem o ar, e poluem o ambiente sonoro.

uma bicicleta bem regulada e bem lubrificada faz muito pouco barulho. um pouco pelo atrito dos pneus no asfalto, um pouco pelo atrito da corrente nos pinhões e nas coroas, e um pouco pelo zunir do ar por suas formas. mas nada muito alto, ao contrário da imenso barulho residual das cidades.

o fato é que a barulheira das cidades mudou até o cantar dos pássaros. e claro, está deixando todos surdos. sim, políticas de redução de ruídos são necessárias, e uma delas, com certeza, é a redução do uso  de veículos  com motores a explosão, que pela sua natureza são barulhentos: são a explosão! sim, barulhos que afetam a todos, gostem ou não. ouça o som de algumas motocicletas aqui.

claro, veículos elétricos são bem mais silenciosos. é fato, e isso é bom. seus problemas serão outros, quando se tornarem predominantes: o custo ambiental da produção de energia, a manutenção do sedentarismo de seus usuários. mas por outro lado, poderão servir de depósito de energia, quando não em uso. mas essa é uma outra discussão.

ah, nada é tão gostoso quanto ouvir o silêncio ou os barulhos da mata numa estrada, durante a noite. adoro pedalar em estradas à noite, aquelas desertas, ouvindo as árvores conversarem e as estrelas a cantar. mas está cada vez mais difícil isso acontecer…

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há algum tempo um passei 3 dias escalaminhando na região do pico paraná. tinha ido com uma mochila leve e com pouca coisa para não pesar nas costas. mas depois, na volta, peguei um ônibus de curitiba para são paulo, e ao meu lado uma moça bonita e bem jovem veio conversando comigo. quando passamos pela região do pico paraná, comentei que fiquei 3 dias por lá sem encontrar viva alma. ela espantou-se e perguntou se meu MP3 havia aguentado bem. quando soube que eu não tinha levado nada de música espantou-se muito. indagou se eu tinha alguma mania esquisita, algum transtorno…

pois é. ficar 2 ou 3 dias sem os sons da vida civilizada pode parecer estranho agora, mas foi a regra seguida pela humanidade durante dezenas ou centenas de milênios. sim, somos gregários, mas nossas orelhas não aguentam muito barulho. por isso estamos ficando surdos. se seu ouvido zumbe, com problemas você está…

2 Respostas para “o silêncio das bicicletas

  1. gosto muito do barulho dos cravos do pneu da minha bicicleta com o asfalto. Um barulhinho bem baixo, beirando um sussurro.

  2. Nesse estilo de vida consumista que predomina, o barulho é mais um dos componentes necessários para o sistema funcionar. Pessoas insatisfeitas e estressadas consomem por compensação. Satisfação instantânea (que não funciona, obviamente). Como já diria Scott Adams, há muito tempo, pessoas felizes não consomem.

    Entendendo-se por consumo o gasto desnecessário em bem fúteis e necessidades inventadas pelo mercado, não a compra de bem úteis e duráveis.

    O barulho é parte do sistema. “Carros modernos silenciosos” é uma ficção vendida pela indústria. Carro faz barulho sim, e muito.

    Diz a lenda (não fui confirmar) que Schopenhauer disse que a capacidade do sujeito de suportar barulho é inversamente proporcional à sua inteligência…

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