a coca-cola do iron-baby

era o audax 300 kms de holambra, de 2012. de manhã, eu já arrastando-me no trajeto, quase 11 horas da manhã. ele, num PC, do nada, veio com uma garrafa de coca-cola de 600ml e me entregou:

– tó tio, que você tá precisando, com essa sua cara aí…

era o meu jovem amigo igor gabia. moleque, com então 17 anos.

final do 300 kms de boituva/2013. terminamos juntos, de novo, antes da meia noite. eu com um pneu furado, ele ajudando-me a encher esse pneu a cada 3 kms. comentário dele a essa foto: "como todos dizem  1 OGRO e 1 IGRO"

final do 300 kms de boituva/2013. terminamos juntos, de novo, antes da meia noite. eu com um pneu furado, ele ajudando-me a encher esse pneu a cada 3 kms. comentário dele a essa foto: “como todos dizem
1 OGRO e 1 IGRO”

pedalamos mais  e no trecho final do audax nos reencontramos novamente. e ele:

– vou te puxar, que sei que você tá se arrastando!

– ah, moleque! e no final dou um sprint que você não me pega! – desafiei eu.

– duvido! foi a resposta dele.

e na subinha, ele me arrastou no vácuo, no pórtico, faltando algo como uns 300 ou 400 metros para o ponto de chegada, eu, gaiato, levanto a bunda do selim e grito:

– você não me pega! – e sprintei. de fato, não me alcançou.

chego antes, desço da bicicleta, ele chega e fala:

– nossa, eu vou pagar outra coca-cola em todo audax só para ver esse sprint!

esse era o igor. qualquer um me xingaria, qualquer outro amigo meu faria isso. mas não o igor que sabia que eu sou um velocista nato, portanto arrasto-me nos audaxes, sempre. ele era um passista fenomenal para a idade, e sempre oferecendo-se para puxar-me nos pedais.

com 17 anos fez dois audaxes de 200kms, dois audaxes de 300 kms, dois audaxes de 400kms, e um audax de 600 kms, completou 18 aos e finalizou seu segundo audax 600kms no mesmo ano. superrandonneur duas vezes no mesmo ano…. iron-baby, seu apelido, justíssimo.

isso por si só seria uma proeza. mas, ao contrário de outras pessoas, que parecem escastelar-se no topo de suas conquistas, igor continuou o rapaz afável, mais preocupado com a boa companhia, com o pedal gostoso, com as viagens, com ouvir e ajudar a todos, sendo tão boa praça quanto poderia ser.

generoso nas amizades, generoso no carinho com todos amigos, generoso no respeito a todos, generoso na atenção.

a garrafinha de coca-cola 600 virou a nossa brincadeira nos audaxes, de vez em quando um dava uma garrafa dessas para o outro. no último audax de 400 kms que fiz, a michele mamede, minha amiga, comprou uma garrafa dessas para mim, e eu a levaria até o igor.  não o alcancei, cobrou a garrafa na chegada… era a brincadeira. era a senha pra dizer: “você está se arrastando, mas quero vê-lo completar esse desafio”. era o incentivo mútuo.

esse tipo de coisa ele tinha com todos os amigos. a um chamava de pai, a outro de avô. a uma acompanhava num trajeto, a outra amiga acompanhava em outro trajeto. conversava com todos, sendo sempre uma companhia boa para todos nós bem mais velhos, mesmo sendo ele tão jovem. faria 19 anos no dia 14 de setembro próximo.

na última sexta-feira, 23 de agosto, pudemos, uns poucos, despedir-mos deste amigo. numa lanchonete, artur, michele, tatiana, paulo, gabi carol, raphael, silvia, e mais tarde eu, pudemos conversar, bater papo, rir, com esse menino entre nós. nessa reuniãozinha ele comeu um sanduíche, mamute, gigante, e postou uma foto no instagram, sua última foto postada:

gabia mammuth

“mamuteeeee!” – postou ele, em sua última foto.

um adolescente que gostava da companhia dos adultos que pedalavam. um adolescente que ria. mas é difícil usar os verbos apenas no passado quando nos referimos a ele.

no dia 24 de agosto, dia de são bartolomeu, de 2013, igor gabia trafegava com silvia pela rodovia castelo branco, quando, no quilômetro 16, sofreu uma tentativa de assalto, desequilibrando-se e caindo para o lado da pista, fora do acostamento, sendo colhido por um caminhão, vindo a falecer.

uma morte causada tanto pela violência quanto pelo trânsito. uma tragédia de múltiplos ignificados, de múltiplos sentidos.

soube eu da notícia pelo celular, perdi o chão. não sei como cheguei em casa. não sei como minha bicicleta carregou-me até meu lar. não sei.

como eu, tantos amigos perplexos, tantos amigos pesarosos, tantos amigos sem chão. tanta dor, difícil de descrever, cada um na sua medida, cada um no seu desespero.

a sensação generalizada  de que há algo de estranho num mundo onde apenas mais inofensivos , os que menos devastam o ambiente, os que menos congestionam o tráfego, os que menos barulho produzem, são os que morrem.

e sim, há algo de errado, de contra a ordem natural das coisas, quando o mais  jovem vai antes dos mais velhos. quando o filho ou a filha vai antes dos pais.

há algo de muito errado no mundo quando essas coisas acontecem. muito errado. e sim, muita dor.  e mais que isso não consigo falar.

Anúncios

27 Respostas para “a coca-cola do iron-baby

  1. O conheci não faz duas semanas. Guri, guri, guri. Ficou duas horas conversando sobre bikefit e componentes com o Guilherme enquanto eu tentava imaginar cada peça e onde ia. Simplesmente uma pessoa roubada de nós para sempre. Tá tudo muito errado.

  2. não fale mais… o texto já descreveu e é muito lindo

  3. Dizem que os belos morrem jovens, e deixam sua marca no mundo…belos de espirito, de coração…acredito ter sido o caso..com seus 18 anos, fez mais que muitas pessoas fazem na vida toda: amigos verdadeiros, conquistas dificílimas …

  4. Odir, a dor ‘e anta, tamanha…..

  5. Nada mais precisa ser dito Odir. Só o silêncio basta para conviver com a dor….

  6. quando as palavras faltam existe alguma razão. eu estou estupefacto. foi tudo muito rápido. uma vida e um futuro foram embora. acredito em destino. para nos a caminhada continua.
    abraços e bom pedal

  7. Odinn, muito obrigado pelo relato… diz muito sobre esse menino, esse nosso herói que sim, ajudou muito, e mostrava que não desistia nunca. É realmente muito triste…

  8. A Cabalá ensina que 18 corresponde ao poder de vontade na alma. Com esta idade e com esta vontade Igor fica em nossas almas.

  9. Só vou guardar coisa boa desse menino, que conheci qdo ele ainda tinha 16 anos, pedalava uma caloi sk pesada pra caramba e usava capacete coquinho (como ele mesmo dizia.rs).

    Por onde ia, ele fazia amigos, conversava com todo mundo (essa era uma das qualidades que mais admirava nele, ele tratava todo mundo de maneira igual, sem distinção, era amigo e querido por todos).

    Igorzinho, nosso eterno ironbaby, vc vai estar conosco pra sempre, nos nossos corações, nas nossas lembranças.

  10. sem palavras … sinto muito bródi …

  11. Realmente, dificil de acreditar … acompanhei uma chegada dos 300 em Holambra ano passado … que eu te esperei … e realmente vocês dois tinham uma ligação muito forte … fica a dor … e que Deus conforte seus familiares e amigos …

  12. Odir, Obrigado por vc fazer parte da vida dele.
    Obrigado mesmo.
    Abs do Pai “Ronaldo Gabia”

    • ronaldo! respondo com todo o carinho que posso dispor para você e para sua esposa carla. nós todos agradecemos o tempo em que igor esteve conosco. foi uma luz, e luz que não veio do nada, mas de vocês dois. sintam-se abraçados por todos nós. estamos todos à disposição de vocês, que estão em nossas orações.

  13. dói aqui também, dói tudo…

  14. Pingback: De bicicleta, pela Castello Branco, ganhei o Igor | De Bicicleta

  15. Muito triste! Além da dor, fica um pouco de revolta por não entender e ser difícil aceitar o que aconteceu e o seu por que. Talvez um dia, quando estivermos a seu lado, entenderemos…..
    Como organizador, sempre ao fecharmos um pc durante os brevets, passamos nome a nome para saber quem eventualmente esteja faltando passar….
    Agora, fica a certeza que sempre estará faltando alguém……
    Meus mais sinceros sentimentos à família e amigos.
    Fabio Guariglia

  16. A dor é inevitável e, desde o último sábado, o que tenho feito é chorar para tentar aliviá-la um pouco.
    Fiz algumas viagens memoráveis com o Igor e sempre dizia que qualquer dia desses entregaria a ele um caderno de caligrafia, pois sua letra era incrivelmente desordenada. Ele, com toda calma, explicava que nós estávamos no caminho certo, independente das letras serem tortas.
    Impressionava a força e a determinação que possuía. E admirava-o por isso, por se dedicar com tamanha paixão ao ciclismo. Admirava-o ainda pela simplicidade em pessoa, pelo jeito adolescente/adulto de enxergar a vida e os obstáculos que surgem durante as viagens…
    A última vez que o vi estava eufórico com a bike nova, feita especialmente sob medida para ele, personalizada e tudo mais. Conversamos durante uma hora aproximadamente, percorrendo o trajeto Ponte Estaiada, Parque Villa Lobos, Vila Olímpia. Contei-lhe sobre meu desejo de comprar uma bike exclusiva para cicloviagens e mencionei um post que li sobre “revendedores autorizados da marca Surly” no Brasil. Ri quando ele narrou que tudo não passava de uma invencionice de um amigão, o Odir, que postou em seu blog no dia 1º de abril que as lojas Las Magrelas e Ciclourbano seriam essas lojas autorizadas.
    Nos despedimos ali e depois disso não tornei a vê-lo, exceto em mensagens trocadas via facebook.
    A dor é inevitável. Dói ao saber que não teremos mais em nossa companhia o sorriso jovial e alegre do Ironbaby Igor Gábia. Conforta-me apenas uma certeza: a de que ele viveu intensamente cada instante de sua vida e sempre esteve presente em todos os pedais, independente do jogo de vaidades que impera (infelizmente) em nosso meio, transmitindo paz e alegria com seu sorriso .
    Obrigado por tudo, Igor!

  17. MARAVILHOSO!

  18. Odir, você foi na mosca.
    Não sei se tinha idade para ser o avô do Igor, mais o aceitei como “neto” e vivemos juntos momentos alegres , divertidos e de muita camaradagem. Com isso a nossa “família” cresceu, pai, sogra, tias, todos paparicando e sendo paparicados por ele.

  19. Odir, meu amigo, belo relato!
    Sábado foi um dia muito triste… as lágrimas que estavam no seu rosto e de todos os que amavam o Igor não davam conta de refletir as lágrimas que ainda jorram dos nossos corações… lágrimas que inundam nossos pensamentos e nos deixam sem saber o que falar. Realmente há algo de muito errado com o nosso mundo. Precisamos estar juntos e nos proteger!
    Como pai, meu coração ainda está apertado pela dor do Ronaldo e da Carla. Espero que eles possam ser confortados com a certeza de que O Igor está num lugar bem melhor que esse nosso!

  20. Cleber Ricci Anderson

    Ogro,
    tremenda sensibilidade… Mesmo sem conhecer o Igor, sempre nos sentiremos culpados por ainda não vencermos a batalha de tornar nossas cidades mais humanas. Essa é nossa luta, nossa busca, para que um dia apenas pudermos pensar em se divertir como vocês nos Audaxes da vida, mas sem ter medo de nada. Nossa utopia que nos move.
    Meus sentimentos mais profundos à família e aos amigos mais próximos…

  21. Não conheci o Igor mas pelos relatos dá pra saber que era um grande garoto. Difícil imaginar a dor desses pais, e mais ainda aceitar uma morte tão trágica. Meus sentimentos para os familiares e amigos.

  22. Pingback: Vamos falar de roubos de bicicletas? | as bicicletas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s