Stop de Kindermoord

pare(m) o assassinato de criança(s)”. é isso que essa frase quer dizer. é o título de um artigo de  Vic Langenhoff, que perdera um filho num “acidente”, e, claro, indignava-se com o sistema que mata crianças e adultos.

trânsito

a holanda empreendeu uma mudança radical na forma como organizou seu tráfego. e, por isso, também seu urbanismo mudou.

o brasil não é a holanda. claro. antes fosse. no brasil somam-se dois elementos diabólicos que acabam por criar várias formas de morte e sofrimento.

um deles é essa forma de urbanismo privilegiando vias rápidas. grandes avenidas. vias com limites de 60 a 80 por hora dentro das cidades. rotatórias e alças de acesso que talvez ficassem bem numa superrodovia, numa autobahn alemã, mas estão dentro das cidades.

o outro é o fetiche generalizado pela velocidade e por carros. gente que passa a vida sonhando com ferraris. pilotos de corrida que são incensados como heróis. gente que anda rápido, se sentindo um corredor numa disputa. gente que bebe e sai acelerando. gente que avisa aos outros onde há uma blitz pra parar assassinos em potencial.

é a soma da fome com a vontade de comer… e claro! mortes nos ditos “acidentes”, dos traumas diversos, e mortes pela poluição. o número é gigante, e as pessoas não se tocam disso. elas continuam a reproduzir esse sistema.

às vezes é difícil romper uma cultura perversa. uma cultura da brutalidade e da individualidade. uma cultura do “eu quero passar, você que se dane!” – e isso explica por que há reportagens em que se diz que o trânsito piora quando há corredores de ônibus implantados. trânsito de quem, cara-pálida? obviamente, só dos carros. não das pessoas. pois a velocidade dos ônibus, que carregam muito mais pessoas, aumentou. leia aqui.

mas é fato. as pessoas não querem mudar seu cotidianozinho nem seus sonhos. quem passou a vida sonhando com uma lata de 4 rodas e está se endividando pra ter uma lata dessas não quer ouvir que está sendo enganadopelo sistema financeiro, pela indústri automobilística e tornar-se-á um assassino, não apenas se atropelar alguém, mas cada vez que ligar o motor do carro, contribuindo par as 4.000 mortes anuais em são paulo por problemas causados e/ou agravados pela poluição.

as pessoas se incomodam em saber que, cada vez que publicam uma fotinho do ayrton senna ou batem palmas pelas suas atuações em pista estão colaborando para perpetuar uma cultura e uma indústria de morte. (sim, muitos vão me tacar pedras por ter escrito isso, dirão que ayrton senna era boa pessoa e bla-bla-blá, e se negarão a perceber que ao incensar um corredor espalham a cultura da velocidade motorizada, e batem palmas para um “esporte” que polui pra dedéu).

mas a cultura carrólatra está por aí. salões do automóvei, feirões, um monte de gente besta nas filas pra ver corridas, gente gastando os tubos pra sair na frente dos outros no farol, achando que subiram de classe social pois usam uma lata de 4 rodas, ou até idolatrando marcas. alguém que use 24hs por dia o uniforme da tropa estelar e faça cirurgia plástica para ficar com as orelhas do spock é mais são do que essas pessoas – mas como é uma loucura coletiva, o comum passa por normal.

e, um dia, um carrólatra desses bebe. e sai acelerando. julga-se no domínio daquela máquina. entra numa contra-mão em alta velocidade e num cruzamento, numa madrugada, atinge com tudo um táxi. a passageira do banco de trás é arremessada longe. morre. era a madrugada do dia 07 de agosto de 2004, um sábado pela manhã. véspera do dia dos pais. teve todos os seus órgãos doados, foi enterrada no dia 08, dia dos pais, pela família, pelo seu pai.

um ano depois seu pai escreveu essa carta:

Morte no trânsito

Aproximadamente às 5h de um dia como este (7/8/04), Carolina Hinojosa Valdéz, de 22 anos, estudante do último ano do curso de Direito das Faculdades Curitiba, perdeu a vida, vítima de mais um assassinato no trânsito de nossa cidade. Motorista embriagado, em alta velocidade, na contramão. A dor que sentimos é cada vez maior, sabendo que o definitivo não será de modo algum suprido com nada deste mundo. Mesmo assim, nenhum de nós perdeu a fé, a certeza do reencontro, a resignação com esperança. Porém, o sentido da vida não é mais o mesmo. Nós também não somos. Há um ano da irreparável perda, lembramos com carinho como foi importante e consolador o calor humano recebido de familiares e amigos, que nos confortaram no momento mais desolador das nossas vidas. Essa energia solidária serenou nossa revolta, nossa indignação, nossa desesperança. A todos, agradecemos imensamente, particularmente aos amigos e colegas do Detran que acompanharam nosso sofrimento, entre eles o sr. Marcelo B. de Almeida, diretor-geral do Detran, que inesperadamente visitou nossa família. Em diálogo afável e sincero, sentimos sua profunda preocupação pela vida posta em risco permanentemente no trânsito enlouquecido e irresponsável. Compreendemos melhor o chamado humano do “Mutirão pela vida”, como proposta civilizatória de respeito e consciência no convívio social. Ficou também mais claro o esforço desta cruzada pela vida, que desde o início do seu mandato, como autoridade máxima de trânsito no estado do Paraná, difundiu permanentemente e ainda o faz, comovendo pela insistência, pela consistência da mensagem, transparente para quem foi atingido por uma tragédia tão cruel e irreversível. Será que seremos capazes de admitir e corrigir nosso comportamento agressivo, intolerante e por vezes criminoso? Dependerá exclusivamente de todos nós. Uma frase final ouvida insistentemente nos círculos de luto: “Vítima sim, que assim seja, agressor jamais”. 

Jaime Hinojosa Valdés e Família
Curitiba, PR

vítima sim, que assim seja, agressor jamais. isso saiu publicado no jornal gazeta do povo, na coluna do leitor, página 13, na edição do dia 18/08/2005.

é… ao lado dos que perdem seus familiares nas batidas, há os que sofrem com a poluição. que alguém faça o favor de visitar um ambulatório pedriático na madrugada, e veja a imensa quantidade de crianças que lá estão, com crises de asma e bronquite, e seus angustiados pais. e depois faça o exercício de imaginar onde está o resto da família. onde estão os irmãos destas crianças, com outros familiares, ou mesmo acordando sozinhos em casa. uma criança não se sente bem ao acordar sozinha em casa, com a impressão de que todos fugiram. mas acontece? acontece. um irmão padece no hospital, o outro apenas a sensação de abandono.

essas coisas acontecem com muito mais frequência e em muito mais famílias do que se imagina.

qual o saldo de tudo isso? quanto se gasta com tantas mortes, tantos amputados, tantos traumatizados, tantos adoecidos? qual o custo econômico, social e psicológico desses danos, que se aceleram em progressão geométrica?

não será um custo alto demais a ser pago por uma sociedade?

voltemos à holanda. após mortes sucessivas de crianças, o país mudou sua política de tráfego. hoje é um paraíso não motorizado. bicicletas por todos os lados, mas também pedestres seguros. o número de mortes de crianças despencou.

dirão: impossível fazer isso nas cidades brasileiras! não, não é. a maior dificuldade não será mudar as cidades, mas as cabeças. a mentalidade das pessoas é mais difícil de mudar do que o mundo físico. e não esperemos bom senso. se bom senso fosse algo democraticamente distribuído na população, teríamos crimes violentos?

é fato., as cidades brasileiras estão dando tiros no pé. tiros dados pelos abobados que adoram veículos automotores. mas o pé que toma o tiro nem sempre é o próprio. muitas vezes é o pé alheio.

em um filme interessante, la haine, um sujeito pula do 50º andar dum prédio. a cada andar que passa na queda, diz: “até aqui tudo bem”. é assim que vivem muitos dos moradores das grandes cidades. cada vez mais travadas durant eo dia, com cada vez mais mortos pelos choques entre veículos. mas até aqui tudo bem, não é? só acontece com os outros…

vítima, talvez. agressor nunca.

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Uma resposta para “Stop de Kindermoord

  1. Ser livre é o que quero…

    “Tornar-se homem livre é morrer para tudo que não é amor e caridade. O homem torna-se livre quando é capaz de afrontar a morte – a morte do egoísmo sob todas as suas formas: tranquilidade, conforto, privilégios, consentimento às insolentes desigualdades do mundo. O homem é livre quando, ativamente, morre para tudo isso e trabalha a fim de não se tornar escravo de si. Eu disse: ativamente, isto é, afirmando-se por meio de atos livres, tomando decisões, pequenas ou grandes, que fazem advir, dia a dia, uma liberdade maior.”
    François Varillon

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