bicicletas e ciclistas tratados como lixo.

existe um troço chamado empatia. é a capacidade de colocar-se no lugar do outro e imaginar seu sofrimento. é uma característica básica da espécie humana, que permitiu sua sobrevivência nos últimos 150 mil anos.

atropelamento são josé

a bicicleta no lixo: o próprio caminhão que a atropelou a levará. retrato do descaso. clique na imagem.

uma outra forma desse sentimento aparecer chama-se cuidado. cuidado vem de cuidar o outro, cuidar do outro. evitar que o outro sofra, evitar que existam danos.

mas quanto ao ciclista não existe cuidado, não existe empatia, não existe preocupação com o dano. é o motorista que buzina achando que o ciclista vai sumir da sua frente em razão da buzinada. o motorista que vira à direita cortando a trajetória do ciclista fazendo de conta que ele não existe. o motorista que atropela e nem percebe. o que arranca braços de ciclistas e os joga em rios, como lixo.

isso se dá pois não se exige do motorista brasileiro o cuidado. o motorista brasileiro, ao contrário do europeu, não circula pelas cidades tomando um zilhão de cuidados. na grande maioria dos países europeus, atropelar alguém implica em tamanhas consequências que o motorista europeu evita isso a todo custo.

mas, no brasil, vigora a regra do “foda-se”. fé em deus e pé na tábua. as filas para benzer as chaves do carro na igreja de são cristóvão são maiores que as filas pra fazer um curso de direção defensiva. maior atenção aos amuletos, bençãos e oraçãos para proteção do que atenção à manutenção do veículo. essa é a regra.

e então o pedestre e o ciclista são o quê? a peça fora do lugar. o cone a ser derrubado. o nada a ser ignorado. afinal, quem mandou esse ser estar ali? quem mandou esse ser existir? é… o pedestre e o ciclista não podem exisitr, eles atrapalham o fluxo dos veículos automotores…. atropelados por fúria ou por mero descaso.

descaso mata. não é necessário intenção para matar. afinal, a bala achada, sendo mirada ou perdida, mata do mesmo jeito. o caminhão passando por cima, esmagando, mata, havendo dolo ou culpa. não importa, mata.

e claro, depois da morte, o que resta? restos. tratados como lixo. e a bicicleta esmagada vai junto como lixo que o caminhou que a atropelou carrrega. a foto acima é sintomática.

assim perderam a vida uma mulher de 30 anos que trazia sua filha de 5 anos, da aula de ballet. a cuidadora e a cuidada vítimas do descuido alheio.  assim foi em são josé dos campos, desta vez. assim, infelizmente, continuará sendo com os menos afortunados das inúmeras periferias desse país. afinal, como disse um coleguinha numa rede social, ” não acredito em educação segmentada. Não adianta pedir para pescarem atum se sequer sabem colocar isca no anzol de vara de pesqueiro. Para ser bem feito, cada passo deve ser dado ao seu tempo, sem nunca saltar etapas, por mais doloroso que isso seja.” afinal, só nas periferias é que é doloroso. os periféricos que suportem a dor…

talvez uma ghost bike surja no jardim morumbi, lá em são josé dos campos.  mas duvido que são josé dos campos mude a trajetória que segue, de importar tudo de ruim de são paulo. continuarão a construir vias expressas, a cidade continuará dividida, e seus motoristas, mesmo os motoristas de caminhões de lixo, continuarão a cultuar a velocidade.

ah, o culto à velocidade, as fotos de pilotos de fórmula 1 incensados como santos! a cultura do carro destruindo as cidades, comendo cérebros, transformando-os em pasta de chuchu… e assim as ruas vão virando armadilhas mortais a quem se desloca sem poluir. vão mal nossas cidades. muito mal. e nenhum país é bom se suas cidades são ruins.

link do g1 com vídeo de reportagem sobre o caso. um soco no estômago o desespero do pai e marido das vítimas.

aqui a galeria de fotos de lucas lacaz ruiz. como ele apurou com os moradores – e o o G1 não publicou – caminhão estava em velocidade incompatível, pis ali os caminhões de lixo andam velocidades altas… e claro, vira-se à direita e não dá tempo de desviar da bicicleta.

e um vídeo mostrando como se aprende a dirigir no brasil:

edit: essa reportagem aqui chega a dizer que a bicicleta é que colidiu com o caminhão parado! isso explica o descaso até na hora de verificar como se dão esses fatos. como é que ciclista bate num veículo parado e tem o corpo esmagado?

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