corpos e corpos

se tem um argumento pró ciclo-elétrico (a pseudo-bicicleta elétrica) irritante é de que não se faz esforço nas subidas e não se sua. esse é o argumento do preguiçoso.

e, dada a nossa herança escravagista e a generalizada síndrome de senhor de escravos nesse país (é só ver o desespero da classe média ao ver que vai ter que pagar hora extra para a coitada explorada nas lides domésticas), esse tipo de argumento vigora em muitos círculos sociais.

se fosse alguma das duas, qual preferiria ser?

das duas, qual preferiria? mas leia o texto até o fim, para ver que não é apenas escolher entre caloi e merida…

mas biologia é biologia e não está nem aí para nossas concepções de mundo.

 a lei do menor esforço, aplicada ao corpo humano, resulta em músculos flácidos e mirrados, e muito, mas muito tecido adiposo. o resultado não pode ser visto apenas pelo viés estético. trata-se de um problema de saúde. obesos têm problemas sérios de saúde, não faltam pesquisas científicas a respeito.

mas claro, há pessoas com forte tendência a engordar. eu mesmo a tenho, sempre dominada pela necessária contenção ao comer e pela atividade física constante.  nos dias que pedalo pouco por são paulo, são cerca de 30 kms pedalados, alguns dos quais morro acima. e isso pois bicicleta pra mim é transporte, quase que único.

mas não sou exemplo, nem quero ser. há quem seja melhor exemplo que eu.

mas o fato é que tem muita gente que se entregou à preguiça e mergulhou numa espiral destrutiva. a vida girando em torno de pequenos prazeres… como comer e beber, e não se mexer. logo aparece o rotundo resultado.

é fato, o humano não tem uma biologia adequada ao sedentarismo. somos máquinas preparadas para longos exercícios. somos extremamente eficientes, do ponto de vista energético. único mamífero capaz de trotar por horas. o único mamífero capaz de fazer uma maratona, um audax, um iron-man. e claro, ignorar isso e agir como uma jiboia (que come muito a cada vez e fica paradona…), implica em ter sérios problemas, dos físicos aos psiquiátricos.

começa-se pelos padrões de beleza. se, de um lado há um forte componente midiático na construção dos padrões de beleza, é de se notar que em momento algum os padrões de beleza acolheram o realmente obeso ou o realmente anoréxico enquanto paradigma. oscila-se historicamente entre o mais rechonchudinho e o mais longilíneo (e a oscilação é efeito da mídia), mas não além disso. não além dos limites do saudável.

esse é o fator importante. salvo desvios episódicos, bonito e saudável, lindo e harmônico, são sinônimos. afinal, foi por seguir essas preferências que a espécie sempre produziu espécimes saudáveis, filhos de pais e mães saudáveis, em épocas em que não havia sabão, antibióticos e otras cositas más

e sim, estar saudável também induz ao bem-estar. por isso produzimos endorfina. só produz endorfina o organismo saudável que está exercitando suas capacidades físicas adequadamente.  endorfina em doses maiores quando há grandes cargas de exercício, e em doses menores, que não são identificadas pelas pessoas (mas em geral implicam num bom humor constante), por aqueles que se impacientam com as escadas rolantes e preferem as fixas, de dois em dois degraus, mesmo que seja por 6 ou 8 lances.  ou aqueles que pedalam e/ou correm por aí, seja por esporte ou por transporte. pois ao corpo tanto faz levantar 50kg na academia ou carregando um saco de cimento. 50kg são 50kg, com griffe ou não.

aí entra o efeito benéfico e fantástico de se usar a bicicleta para transporte. é usar o tempo que se perderia num deslocamento num tempo em que o corpo se mexe,  queimando energia e produzindo o coquetel de hormônios que costumeiramente se produz nessas atividades.

poseidon, escultura de cerca de 460 a. C. atlética, a estátua tem pouco mais de 2 metros de altura.

e claro, a questão da comida. de fato, de 150 anos pra cá, ficou cada vez mais fácil se empanturrar por aí. não à toa obesidade se tornou um problema social só nos anos recentes. quando olhamos as pinturas da antiguidade, raramente encontramos alguém um pouco mais rechonchudo. apenas na arte egípcia, num momento de um realismo um pouco exacerbado, vemos figuras com um pouco mais de barriga. mas ninguém que hoje possa ser considerado balofinho…

sim, pois a comida era mais rara e a atividade física mais presente. afinal, até para defecar o esforço era maior: ir andando (ou correndo, em alguns casos…) até a “casinha” mais distante, escolher a folha a ser usada… tudo isso implicava em esforço. além, claro de correr atrás do bonde, subir escadas…

mas de fato, se como espécie (h. sapiens) temos cerca de 100 mil anos, enquanto gênero homo temos milhões de anos. são milhões de anos correndo atrás da comida e correndo para não virar a comida de outrem. não são raros fósseis de homo erectus com marcas de dentes de predadores, nem ossos de homo neanderthalensis com marcas dos esmagamentos provocados pela fúria das suas caças, que se recusavam a virar comida: mastodontes, por exemplo.

mas hoje, simplesmente mal levantamos a bunda da cadeira e vamos até a geladeira. e engolimos alguma bomba calórica e voltamos a ficar sentados.

sim, pois nossos corpos nos induzem a não gastar energia desnecessariamente, e a comer oque é calórico. a não ser nas mentes mais doentias, o paladar da rúcula nunca será melhor do que o do sorvete de chocolate. afinal, em milhões de anos de comida escassa, escolher comer a gordura do animal caçado ou achado morto, e não o capim que crescia em volta, era escolher ficar vivo ou morrer por inanição.

todos descendemos daqueles que souberam aproveitar cada oportunidade de se empanturrar que se lhe apresentasse.

mas e se a comida se torna farta e o exercício físico escasso? a resposta pode ser dada por um bom exemplo, que  é o que aconteceu com os índios pima. enquanto estavam em seu meio e com sua alimentação tradicional, agrícola e com caça eventual, eram saudáveis. sedentarizados em reservas, passaram a se alimentar da comida ocidental e voilà! um altíssimo índice de diabetes tipo 2.

voltemos à montagem que postei lá em cima. à esquerda, na foto, uma mulher com 110 kg. à direita, uma mulher linda. vamos colocar mais uma foto dessa mulher bonita:

deitada, no chão, cansada num pedal extenuante. na cintura, a pochete é só uma pochete, e não uma "pochete", gíria praquele pneuzão gorduroso que muita gente tem.

deitada, no chão, cansada num pedal extenuante. na cintura, a pochete é só uma pochete, e não uma “pochete”, gíria praquele pneuzão gorduroso que muita gente tem na cintura.

pois é. não há mais fotos da balofinha. afinal, ela virou esse mulherão que vemos nas fotos. de um ser de mais de 130 kg cuja vida girava em torno da comida e que não saia mais de casa a uma mulher enérgica e feliz, passou ana amélia por uma redução de estômago, e então é que veio o grande trabalho.

como ela diz: “operei o estômago e não o cérebro”. ela não caiu na armadilha que muitos que fazem a cirurgia bariátrica caem. muitos quase ex-obesos aprendem rapidinho como se empanturrar de outra forma, de modo que metade dos fizeram esse procedimento ganha peso novamente. 5% voltam a ter o peso que tinham antes e motivou a feitura da cirurgia!

yep! ana amélia mudou a própria cabeça. a cirurgia foi só o começo.  depois veio a bicicleta. na foto lá em cima, à esquerda, ela está com 110 kg. fazia anos que não pedalava. mas dali em diante não parou mais, como declarou nas redes sociais:

A bike entrou exatamente 30 dias depois da cirurgia, nessa foto ai, não pedalava ha uns 20 anos e foi uma redescoberta. Graças a ela o corpo voltou ‘magicamente’ pro lugar, fiz grandes amigos e hoje me agarro nesse esporte e estilo de vida. Muito difícil um dia que não pedale.”

grifei a parte importante. a bicicleta de certa forma simula o mesmo exercício que fazíamos na pré-história ao correr por horas a fio. o ser humano nunca foi um bom corredor de 100 mts. perde pra diversos animais. mas nenhum mamífero corre uma maratona. nós sim. e isso evitou que ana amélia se tornasse uma magra flácida, como tanta gente que vemos por aí, após a cirurgia bariátrica começar a fazer seus efeitos.

e claro, quem pedala acaba logo formando um grupo de amigos. a bicicleta socializa. a bicicleta recupera nossa capacidade de convivência com o outro. e, por extensão, conosco mesmo.

ana amélia reencontrou-se na bicicleta. sabendo ou não, redescobriu sua própria natureza. pois humanos só são felizes quando suas mentes viajam e seus corpos estão aptos para acompanhar essa jornada.  o resto é só infelicidade. e isso queremos, não é?

p.s. ache ana amélia no facebook. uma mulher linda e inteligente.  que, há alguns anos atrás, estava encoberta por uma capa, como muitas pessoas ainda estão.

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13 Respostas para “corpos e corpos

  1. Parabéns, Odir por mais um lindo texto. Parabéns, Ana Amélia, por ter se permitido conhecer o prazer de viver melhor. Ah, eu tenho mente doentia e adoro rúcula. Mesmo. 🙂

    • bah, por isso vc é recessivo: magro naturalmente! mig, sinto lhe dizer, no caso de uma catástrofe global, com guerra nuclear, seguida de ataque de zumbis canibais e tubarões voadores mutantes extra-terrestres, eu sobreviverei, vc não! hahahaha

  2. Também gosto de rúcula, mas minha perdição é… agrião! 🙂

  3. Sprinter:

  4. Mente doentia: Não gosto de Chocolate, Coca-cola, Cerveja, Churrasco, nem Futebol (embora aprecie assistir um Sepak Takraw)

    Logo mais, liberarei os meus instintos mais abjetos, devorando um prato de Alface, rúcula, almeirão, espinafre, Chuchu, Berinjela e Abobrinha, como abre-alas da refeição.

    Aliás, hoje é segunda sem carne.. espero que haja abundância de banana á milanesa para acompanhar meu arroz integral. 🙂

  5. Texto maravilhoso ! Conseguiu juntar biologia, poesia e filosofia tudo em um mesmo texto…

    Obrigado pelo post, penso exatamente como você

  6. Acho crucial, Odir, você insistir no carater onivoro e canibal do Homo Sapiens – é um antidoto antropofágico contra certo veganismo (moral – por vezes politicamente carmelita) que ronda o movimento cicloviário (inclusive o brasileiro – senão a esquerda brasileira como um todo).

    Se qualquer movimento social brasileiro precisa ter um devir-indio e um devir-negro (mas nem tanto ser indigena ou “movimento negro), como bem diz Bruno Cava, nenhum tambem pode se dar ao luxo de não ser antropofago. O cicloviarismo no Brasil, das Bicicletadas/Massas Críticas ao sucesso já decano do Rio de Janeiro, ou será importacionista e colonialista, ou será antropofago e pos-colonial (não é tanto ser contra a colonização, mas sim colonizar a colonização – como os tupinambás fizeram com os jesuitas não tanto devorando Sardinha, ironia dos nomes próprios, mas levando um Anchieta a escrever em tupi-gua). E mil vezes a carnavalização voraz e devoradora do que uma subserviência eivada de má-consciência burguesa (um duplo pleonasmo: toda consciência é má, porque causada pela culpa inconsciente, Freud dá a dica; e toda consciência é burguesa, pois fruto do iluminismo, nos lembram Sade de um lado, e Engels do outro).

    • sobre a causa desfocada do vegano-verdismo (tão desfocada quanto o ateismo militante dos “Humanistas Seculares”), escrevi aqui -> http://ultimobaile.com/?p=3627

      aliás, Pola Ribeiro, no seu brilhante último longa O Jardim Das Folhas Sagradas (que mostra uma Salvador barroca e ultramoderna, da Avant Gard e Jesuitica a um só tempo, da talha dourada de São Francisco a tapeçaria proto-grafiteira de Genaro de Carvalho; do Coro do Mosteiro de São Bento aos experimentos trans-modernistas de Smetak, Widmer e Koelreuter; do axé-music especulativo ao pós-axé crítico e ativista do BaianaSystem e da Orkestra Rumpilezz; dos terreiros de candomblé e do urbanismo modernista de Diogenes Rebouças até a arquitetura de Fernando Peixoto), bem aponta: não se trata de combater certo cristianismo (mormente evangélico) através de um ateismo racionalista, e sim de um pan-teismo poli-deidico telurico (que inclui até o catolicismo); e não há ecologia brasileira que preste se não for ela Ketu, Jêje, Fon e Angola. Afinal, eu até posso ser vegetariano, mas meu orixá não é -> http://correionago.ning.com/profiles/blogs/eu-sou-vegetariana-meu-orix-n-o

      Ewé-ô, Ossain nilê! Sem folha não tem nada…

  7. quase tudo correto, mas c esqueceu q vários canideos são otimos maratonistas, como os cães q puxam trenós, com alta carga, na neve fofa, por até 14 horas seguidas, não sei se tú sabe, mas sem os huskys o homem nunca teria chegado à pé ao polo sul no seculo passado. algumas espécies de cães africanos tamb são otimos maratonistas, perseguem as presas até elas cairem de cansaço, inclusive algumas dessas presas também ganham facil dos homens, um filhote de gnu anda mais de 50km já no primeiro dia de vida, se um gnu adulto pudesse ter a tranquilidade de correr na velocidade de um maratonista, certamente ganharia facil do melhor dos melhores, o problema é q eles correm por desespero, a velocidades maxima, ai não tem maratonista q guente…
    mas a sua mensagem tá 100% correta, não somos preparados p/ viver no ócio sem perder a saude, isso é fato!
    grande abraço!
    amon

    • sim e não. de fato, huskys aguentam esforço durante muito tempo, mas apenas no clima frio. quando transferidos a lugares quentes, padecem do mesmo problema que afeta todos os canídeos: o superaquecimento, se mantidos em atividade durante o mesmo tempo que um humano é capaz de manter. podem correr mais rápido, mas no passo do trote humano, nada supera o ser humano entre mamíferos. isso em razão da peculiar característica: a alta capacidade de refrigeração do corpo, desprovido de pelos que o aqueçam, e coberto de glândula sudoríparas (e é por isso que fedemos tanto em períodos tão curtos sem banho: uma semana sem banho, um tempo bom para um cachorro, no nosso caso, nos transforma em armas químicas ambulantes, tamanho o mal-cheiro…). ainda nãos e registrou mamífero que mantenha atividade durante mais de 18 hs, como o humano mantém. eu já mative pedal durante 26 hs, e não sou um grande atleta, um grande fundista. coelgas que fizeram o paris-bret-paris pedalaram por 84 horas, com não mais do que 4 ou 5 horas de sono nesse intervalo de tempo. as ultra-maratonas são esportes humanos.

  8. concordo em parte… realmente nosso sistema de refrigeração deve ser dos mais eficientes, mas não podemos esquecer dos aditivos q usamos nessas ultramaratonas, em primeiro lugar podemos beber agua ou nesses casos especificos isotonicos de ponta, tamb consumimos vários tipos de suplementos e adtivos sem parar a atiividade mal,todrextrina, aminoacido, energeticos, etc…não sei como seria se outros animais tivessem essas facilidade, cavalos tamb podem suar e muito, mas tem a restrição de desidratação, eu já cai de um cavalo uma vês porq nao parei p/ apertar os arreios após uma passeio de 12km, ele suou e emagreceu tanto q a sela rodou e eu fui parar no meio das pernas do bixo…
    abraços
    amon

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