poucos negros…

“poucos negros pedalam!” ouvi há pouco tempo. será? é bom pensar nessa frase, nesse 13 de maio.

racionais mc´s: na capa do cd, a ode à cultura automobilística.

racionais mc´s: na capa do cd, a ode à cultura automobilística.

de fato, se olharmos a lista dos participantes do giro d´italia, quantos negros há? até onde vi, nenhum.

ciclismo de estrada, salvo raras exceções, aidna é um esporte europeu e não africano. seria natural nas provas europeias haver poucos ou nenhum negro. mas, e no resto do mundo?

muitos negros pedalam. de longe a bicicleta é o transporte mais comum na áfrica. mas há diferenças entre usar como transporte e como esporte.

ciclismo é um esporte caro e barato ao mesmo tempo. não exige estádios para sua prática. mas exige estrutura prévia.

o ciclismo de estrada exige estradas seguras. o mountain-biking precisa de estradas de terra, igualmente seguras.

por segurança entenda-se não sofrer risco de nenhuma violência além daquela implícita ao esporte: o tombo.

o segundo fator é a existência de material disponível: bicicletas usáveis em competições. após isso, precisamos dos ciclistas, e, por fim, as entidades que organizam essas competições.

é fato que países africanos agora que se estabilizam politicamente para permitir essas condições. a áfrica, no pós-guerra, sofreu toda sorte de influência estrangeira, que fomentou guerras sem fim.

já nas américas… a população negra ainda luta contra a herança maldita da escravidão.  essa herança força afro-descendentes focarem seus esforços em atingir padrões melhores de vida. e, claro, os torna vítimas da intensa propaganda da indústria automobilística.

como diz a música dos racionais mc´s: “uma caranga e uma mina de esquema resolvia meu problema“.  sim, o carro é sonho de qualquer jovem de periferia. acelerar… atingir o sonho vendido pela mídia.

assim é em todas as américas, na cultura latina.  o carro associado a gangues, a estilos, a realizações pessoais. sobra pouco espaço para a bicicleta.

bicicleta que segue sendo vista como brincadeira, como transporte de pobre. nada que se possa levar a sério.

a pergunta que fica: pode-se exigir de quem ainda ocupa espaços subalternos da sociedade que desista dos sonhos de consumo das classes mais altas? não, não se pode.

enquanto a classe mais alta, que, nas américas, é essencialmente branca, bancar um padrão de sucesso baseado numa cultura carrocrata, as classes mais baixas, historicamente descendente de índios exterminados ou de africanos que aqui vieram contra a vontade, escravizados, sonhará em alcançar esse mesmo padrão de consumo.

padrão de consumo ainda não atingido e, quando atingido, motivo de estranhamento e violência. é fato: negro em carro caro é muito mais alvo de abordagens de policiais e seguranças que branco na mesma situação. isso revela também a raridade dessa situação…

e a bicicleta, como fica? coisa de pobre. coisa de excêntrico, que, não raro, são a mesma pessoa….

há, portanto uma massa de ciclistas afro-descendentes que se predisponham a competir? não. são de fato raros. sempre raros. sempre notados. sempre o único negro do local e, como tal, logo recebendo a mensagem implícita de que são estranhos àquele local.

é… nesse 13 de maio, eu gostaria de ver mais negros pedalando. menos negros escravizando sua vida financeira na compra de carros, e sonhando com máquinas que poluem. carros existem apenas para serem ferramentas, nada além disso. sonhos, esses são para a liberdade que a bicicleta proporciona.

 

 

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6 Respostas para “poucos negros…

  1. dá uma volta no PJ (pelotão do jóquei) e repita a frase que há poucos negros. O ciclismo profissional ainda é baseado na europa, mas mesmo no Giro há uma equipe italo-venezuelana, e vários corredores colombianos, dois brasileiros um chinês e um japonês, no Giro. Provavelmente a próxima geração trará muitas surpresas.

  2. ps: esqueci da equipe da Colombia com 100% de …. colombianos.

  3. sobre isso escrevi pra T.A. anos atrás http://transporteativo.org.br/wp/2009/10/19/invisibilidade-da-diaspora/

    sobre a condição dupla ou triplamente diaspórica da bicicleta em Salvador, justo por sua condição de Roma Negra.

    replicado lá no blog http://ultimobaile.com/?p=1921

    muito antes de você ter esse blog aqui, diga-se de passagem.

  4. Olá! Achei super interessante o tema abordado, pelo fato de pedalar e ser da raça negra (pardos e pretos). Participo de um grupo de pedal aqui no Maranhão, estado em que aproximadamente 75% da população é parda ou preta e no entanto, percebi que a esmagadora maioria dos participantes é branca, contando o fato que são pessoas de alto poder aquisitivo. Porém aqui a bicicleta é muito utilizada como meio de transporte pelas classes subalternas, daí o perfil do ciclista muda completamente, esmagadora maioria composta por negros. O esporte ciclismo me parece bastante elitizado, já tá na hora do esporte se popularizar mais, podendo assim ser uma esporte que valorize a diversidade.

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