rios, pontes e overdrives: ciclistas-mulambos…

rios, pontes e overdrives, impressionantes esculturas de lama! (é uma música, não uma descrição da política paulista… mas poderia, né?).

bike-mulambo

E o mulambo já voou, caiu lá no calçamento, bem no sol do meio-dia
O carro passou por cima e o mulambo ficou lá
Mulambo eu, mulambo tu, mulambo eu, mulambo tu

esse é o refrão de um clássico do mangue beat, que chama justamente “rios, pontes e overdrives”. chico science era esperto. em suas músicas sempre estava pontuando algo importante.

vivemos momentos interessantes. chineses, quando querem amaldiçoar pessoas, dizem sempre isso: “que vivam momentos interessantes!”, são os momentos de balbúrdia, de baderna, segundo alguns que não estão querendo a mudança das coisas. são momentos de virada, de destruição criativa, segundo aqueles que querem mudanças.

e é justamente quem quer mudança que hoje se apresenta de outra forma.

movimentos sociais, em tempos de estado liberal – que não tinha atribuições maiores do que a defesa externa e a segurança (da propriedade) interna – normalmente estavam adstritos a partidos e sindicatos. as lutas cabiam nessas estruturas. são os momentos de luta anti-estado, ou de tomada do estado.

mas veio o welfare state.  e os movimentos sociais mudaram. maio de 68, movimento dos direitos civis nos e.u.a., movimento hippie, e etc, deixaram teóricos dos movimentos sociais e defensores dos partidos e sindicatos de cabelo em pé.  isso era movimento social? tinha bandeira?

no começo da década de 80 habermas intui o problema. num artigo curto chamado “new social movements” ele os descreve como fracionários, culturais, de afirmação da própria existência e não necessariamente políticos. tem gente que só vê nisso bagunça. tem gente que diz que isso não é movimento. tem gente que vê aí os tempos mudando. tem muita gente teorizando sobre isso, dá pra ter uma vaga ideia aqui. isso é uma característica geral da sociedade pós-industrial. não é privilégio de são paulo ou de qualquer movimento específico. em todos os lugares, partidos, associações e etc. tem tido uma dificuldade gigante para legitimar-se. o que mais ouvem são gritos que dizem: “não me representam!”. e claro, tudo isso tem um porquê. realmente, usando uma expressão habermasiana, a “gramática da vida” é muito diversa.

mas que não fique aqui a impressão de que eu seja um habermasiano. apenas uso essa expressão que acho feliz. uma gramática da vida diversa, uma imensa diversidade. isso acontece no cicloativismo paulistano é é a sua grande força, pois renova constantemente os “estoques” de ativistas no decorrer dos anos.

o ativismo paulista já tentou o caminho institucional (com a candidatura de renata falzoni pelo psdb à vereança, há décadas atrás), descobriu a desconfiança raivosa e é justamente ela que faz algo acontecer.

nesse sentido, basta ver o vídeo do discurso de renata falzoni na câmara municipal. willian cruz postou no youtube, devemos a ele esse documento. ouça/veja as duas partes: parte 1. parte 2. yep! mas the times they are a-changin, como cantava bob dylan. e como ele bem afirmava, pois quem se machuca é aquele que nos impediu…

a gramática da vida corre rápida. entre o histórico discurso de renata falzoni na câmara e o decepamento do braço de david dos santos souza, juliana ingrid dias morreu na avenida paulista, antonello na sumaré e outros tantos mais por aí, e muitos continuarão morrendo enquanto as ditas e tão propaladas políticas públicas pro-bicicleta não são implantadas.

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andy singer sendo didático.

é fato que a livre iniciativa carrólatra moldou o inferno que são as grandes cidades brasileiras atualmente. não só isso, nunca podemos esquecer que a luta pelo petróleo mata milhões em guerras nos países produtores de petróleo, a ponto de um ex-diplomata americano ter afirmado que ter jazidas de petróleo não é uma benção, mas uma maldição para um país.

aí entra nessa equação a bicicleta. é fato que a sanha carrólatra desenha as cidades, tira as pessoas da rua, polui, mata. e há muitos que logo perceberam isso e recusam-se a entrar nessa ciranda. são militantes do urbanismo, dos transportes públicos, dos transportes individuais não motorizados. e o descompasso entre a lentidão e o peso do welfare state com o ritmo da vida é que gera todos os movimentos sociais.

foi por isso que luhmann os vê como algo necessário ao sistema: a irritação do sistema, o sistema imunológico do sistema. ciclista morre=>manifestação. ciclista é atropelado=>manifestação. quem se manifesta levanta os punhos. poderia ser ele ali morto ou amputado.

levanta os punhos contra quem administra o trânsito, e contra quem afirma estar ajudando quem administra o trânsito. são alvos a prefeitura e qualquer um que pareça alinhado a ela, mesmo que pense ser apenas um stakeholder.

o stakeholder que parece simpático à estrutura de poder do estado automaticamente está tomando pedradas junto. mas é claro que o próprio estado tenta cercear a intervenção de stakeholders, das partes efetivamente interessadas. se essas partes realmente intervirem e o problema realmente for solucionado, as coisas mudam.

mas quem quer que as coisas mudem? peguemos um exemplo bem prático e muito caro a qualquer ciclista e pedestre que more “off shore”, fora do centro expandido.

o centro expandido de são paulo é delimitado por rios. rios que são cruzados em pontes. como pontuou tiago barufi em seu habitual bom senso, não há caminho alternativo à ponte. não há rua lateral tranquila…

a ponte precisa ser cruzada, às vezes varias vezes ao dia. a ponte é inóspita, não por ser ponte, nem mesmo por ser estreita. mas por ter antes e depois dela uma série de alças de acesso nas quais os motoristas de veículos não precisam reduzir muito a velocidade… são locais perigosos.

uma colega de trabalho pega um ônibus um ponto antes da ponte das bandeiras para descer no ponto seguinte, após a ponte. paga passagem e espera muito tempo para fazer um trajeto de poucas centenas de metros.

na ponte da cidade universitária já houve intervenções diversas de militantes que querem uma cidade para se viver, uma cidade para pessoas. faixas de pedestres foram pintadas.

ora, quando o cidadão intervém? quando nada é feito. bicicletinhas pintadas na paulista sempre aparecem. são a sinalização para o motorista perceber bicicletas.

e claro, quando não há atenção aos pleitos dos ciclistas, eles se fazem ouvir. não à toa no dia 17 de março,  durante a manifestação contra a violência no trânsito da avenida paulista, que vitimou david dos santos souza, os manifestantes foram a pé até a casa do prefeito. atendidos por seu filho, marcou-se uma reunião que se realizou nas primeiras horas de sexta-feira, 22 de março passado. e essa reunião é interessante….

primeiro ponto a se perceber refere-se à reivindicação de criação de canais de comunicação efetivos. por que se quer canais de comunicação? pois ou eles não existem, ou são deficientes.

isso é uma bela herança da gestão kassab, onde canais oficiais de comunicação não existiam. onde não há canais oficiais, há canais oficiosos, e, assim, a prática do conluio se impõe.

segundo ponto bem interessante: a fala de haddad perante a tv, repetindo várias vezes:  o ciclista é importante para a cidade. essa fala é importante pois aquieta ativistas em geral, e claro, revela a faceta intelectual de fernando haddad. pessoas esquecem sua formação acadêmica (bacharel em direito pelo largo de são francisco, mestre em economia pela fea-usp, doutor em filosofia pela fflch-usp)… a tese de haddad chama-se “DE MARX A HABERMAS – O MATERIALISMO HISTÓRICO E SEU PARADIGMA ADEQUADO”, e revela o quanto o prefeito leu de jürgen habermas.

ou seja, conhece de cor e salteado aquele texto de habermas que citei antes, e sua fala repetindo “o ciclista é importante para a cidade” revela o quanto pode entender muito bem o funcionamento do movimento a ponto de desarticulá-lo, se quiser.

de fato. a reunião surtiu efeitos. basta ver os comentários de jéssica martinelli, diretora da associação ciclocidade, acerca da reunião, em reportagem feita por sabrina duran, cuja leitura vale muito. está nesse link. leia a entrevista.  mas leia tudo. inclusive a segunda pergunta e sua resposta: Alguma campanha? Durante a reunião ele já apontou alguém (da prefeitura) para iniciar uma campanha, e algumas pessoas que estavam lá (ciclistas) se destacaram para estar junto, para acompanhar.

fica a pergunta. quem são esses ciclistas que se destacaram para acompanhar a campanha? quem saiu com esse encargo de lá? seria bom que essa informação viesse a público, para que outros ciclistas saibam com quem falar acerca dessas campanhas. e claro, até agora, em 11 de maio de 2013, nenhuma campanha apareceu….

hoje sabemos que são diversos os locais onde falar. sub-prefeituras. reuniões acerca do plano-diretor (que não foi implantado e está sob revisão agora), sobre os planos estratégicos e etc…  mais papéis serão feitos. e repousarão nas gavetas, ad aeternum … (relembre a fala de renata falzoni no vídeo, sobre papéis repousando em gavetas...)

haddad é inteligente o suficiente para saber que tem um problema grande caindo no seu colo. se ciclistas não formam a maioria dos que se deslocam pela cidade, por outro lado fazem parte daquele conjunto dos que trafegam sem causar maiores danos ou custos à cidade.

pois qual o custo de uma rede de metrô, ou o custo total de uma rede de ruas onde se deslocam carros e motos? lembremos que esse custo deve levar em conta desde o preço do asfalto ao custo médico dos tratamentos dos vitimados pela violência do trânsito e dos 4.000 mortos anuais por problemas causados pela poluição de veículos automotores (esses dados assustadores, sempre ignorados, são do prof. paulo saldiva).

um ciclista morto comove muita gente. basta lembrar que passado mais de um ano da morte de juliana ingrid dias na avenida paulista, derrubada (dolosamente) por um ônibus e atropelada (involuntariamente) por outro ônibus, não é difícil alguém qualquer comentar esse assunto com qualquer ciclista.

é, atropelar ciclista é quase como bater na mãe. mas, nesse caso, a bomba sempre sobra para o poder público, há décadas omisso, inoperante, e ora sob pressão. um poder sob pressão que, em razão da ausência de canais de comunicação prévios pode, de última hora, procurar os canais errados de comunicação.

é uma prática recorrente no poder público brasileiro – que não é privilégio da prefeitura de são paulo – de ter nos corredores diversas pessoas que não são componentes do corpo de funcionários e gestores públicos.

são muitas vezes chamados de lobistas, mas quase sempre é gente vendendo facilidades, contatos, negócios…. e aí o ponto perigoso. não há problema em negociar. o negócio bicicleta (fabricação, venda, serviços) é um negócio legítimo.

também são legítimas as prestações de serviços por entes privados, mas o princípio da moralidade pública implica em que essa contratação passe por licitações, que siga essas regras até naquelas contratações onde a licitação é dispensada.

o problema está entre os eternos facilitadores que rondam o setor público brasileiro desde 1500. estes facilitadores estão vendendo o produto de alguém, que nem sempre é o melhor.

lembre, se você fabrica quadros de bicicleta de alumínio, alumínio é o melhor material. se você fabrica quadros de bicicleta de cromo-molibdênio, cromo-molibdênio é o melhor material. e o consumidor, sabendo com quem está falando, sopesa o que ouve.

mas o stakeholder, a parte interessada no resultado da ação pública pode não ser parte interessada, mas intere$$ada.  o facilitador cobra sua comissão daquele que é contratado, que inclui esse custo em seu preço, a ser pago pelo poder público.

essa prática dissemina-se no brasil inteiro, é uma praga. e nem sempre a solução vendida é de fato solução. leia essa notícia e pense no lucro de todas essas construtoras que participaram dessa mega-obra. resultado nenhum…. é aí que as cacas ocorrem.

imaginem o quanto de pilantragem vai aparecer na hora em que se planejarem ciclovias a serem efetivamente construídas em são paulo.

quanta gente não vai defender obras de construção de passarelas sobre os rios para a passagem de bicicletas. elas terão um cu$to. pois é. olhem que horror seria a construção dessas passarelas.

elas criariam um caminho mais longo a ser feito por ciclistas. criaria um ponto de gargalo no trânsito que facilitaria o ladrão de ocasião. lembre-se que já se prendeu uma quadrilha que roubava bicicletas na ciclovia da marginal pinheiros…

e claro, essas passagens logo seriam abandonadas pelos ciclistas, que voltariam a passar pelas pontes. voltariam a correr risco de vida. como acontece diariamente embaixo de algumas passarelas de pedestres…

mas terá haddad a coragem necessária para tornar a travessia de pontes mais humana, privilegiando pedestres, ciclistas, ônibus, em detrimento de carros? saberão muitos ativistas bater nessa tecla, tão cara, importante, a quem vive fora dos rios? ou antes do aspecto ciclista, aparecerá a velha indiferença de classe, tão comum em são paulo?

haddad tem o problema nas mãos: reduzir o espaço para carros na cidade. terá que fazer isso se construir os corredores de ônibus que prometeu, e os 400 kms de ciclovias que diz que vai fazer. sua questão é: ser um estadista e de fato mudar a cidade, ou tornar-se mais do mesmo.

o mais do mesmo é continuar ignorando a lei municipal 14.266. ela estabelece uma série de pontos importantes para a bicicleta em são paulo, muitos deles de obrigação da iniciativa privada  (por exemplo, paraciclos em escolas e outros locais de grande afluxo de pessoas).

a 14.266 está em revisão pela câmara. mas enquanto a nova versão não é aprovada, a antiga está em vigor. esse detalhe é esquecido por muitos. e esse esquecimento permite que alguns que a ignoram, ou são mal-intencionados, façam estripulias por aí.

como alguns vereadores que gostam de aparecer na mídia fazendo de conta de que fazem alguma coisa. vereador que faça mesmo algo pela bicicleta que, quando o vereador nabil bonduki reapresentar sabe-se lá quando o projeto revisado da lei 14.266, nele vote sem reservas, nem vote contra nem atrapalhe sua votação com emendas e etc.

acompanharemos de perto essa votação e, vereador que atrapalhar essa votação com certeza vai ser espinafrado nas redes sociais por ciclistas irados. rios, pontes e overdrives… impressionantes esculturas de lama!

que seja a lama, o barro da construção, não a lama habitual que ronda a relação entre o poder público e pessoas do setor privado, como um certo causo que rola por aí, de uma prestação de contas que não tá fechando…

pois tem gente que trabalhou duro e tomou calote. e isso é injusto.

————–

em tempo. permanece a lógica de ter que descobrir com quem falar. sub-prefeito da sub-prefeitura local? siurb? e falar algo adianta?

normalmente essas pessoas do poder público endeusam o carro e não conseguem entender que, a partir de agora, a partir da edição da lei de mobilidade urbana, a bicicleta tem prioridade no que tange à políticas de trânsito sobre o carro.

sim, está no artigo 6º dessa lei. o gestor público tem que entender que está na hora de sacrificar espaço do carro para abrir mais espaço para a bicicleta.

espero que não tenha que ocorrer uma desgraça, uma morte dum ciclista numa ponte, para que o poder público venha a fazer algo. mas, enquanto o poder público não faz porra nenhuma, assista o vídeo abaixo, onde um grupo de ciclistas, à noite, por muito pouco não foi atropelado por alguns veículos que atravessaram a ponte do limão e fizeram a conversão à direita.

esse risco não existiria se a velocidade ali, fiscalizada por radar, fosse de 30 kms por hora.

não são os ciclistas que estão errados por trafegar ali. não há alternativa à ponte. nem estão errados por trafegar de bicicleta – dentro da lei, e sem poluir, sem congestionar – mas sim os carros poderem trafegar a essa velocidade naquele local. só numa sociedade doente se permite isso.

por pouco não foi uma tragédia. mas claro, ciclista é mulambo. como na letra de chico science,

“E o mulambo já voou, caiu lá no calçamento, bem no sol do meio-dia

O carro passou por cima e o mulambo ficou lá

Mulambo eu, mulambo tu, mulambo eu, mulambo tu”

dois meses se passaram da reunião dos ciclistas com o prefeito, e nenhuma campanha de proteção aos ciclistas foi feita…  afinal, ciclistas são mulambos no trânsito.  não é?

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2 Respostas para “rios, pontes e overdrives: ciclistas-mulambos…

  1. Aqui em Portalegre a política é afagar a classe média construindo circovias nas áreas centrais da cidade, e angariar voto dos motoristas que acham simpático aquelas faixas vermelhas. Aliás, simpáticas e escorregadias. Já caíram vários ciclistas numa delas, inclusive com fraturas. Mas elas precisam aparecer, não é, então pinta-se, mesmo que desnecessário. Mesmo com a tinta incorreta. Na periferia, nada. Além do ciclista ser mulambo, na periferia ele é mulambo em todo seu esplendor…

  2. Enquanto o poder publico tentar separar o espaço público em segmentos para bicicletas de forma não integrativa, nada vai mudar a longo prazo. Vejo que deveria haver alguma forma de convencer o publico alienado pelo carro de que bicicleta não é só para diversão…

    Tenho também sérios problemas com ciclistas da “nova onda” que não entenderam que a bicicleta não cabe só na bicicleta. Poucos entendem que andar de bicicleta é um movimento por justiça, democracia e saúde

    Ótimo texto, você está de parabéns 🙂

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