sem vergonha da bicicleta

no brasil, país de herança escravagista, andar de bicicleta pode ser vergonhoso para muita gente insegura da sua posição social. de fato, atrás de quase todos/as que têm fissuras por carros caros estão pessoas inseguras de seu status social.

mas pessoas seguras simplesmente saem pedalando. elas são o que são pelo que fazem,  não pelo que tem.

elvis presley flagrado por fãs enquanto pedalava por aí

elvis presley flagrado por fãs enquanto pedalava por aí, parou e deu autógrafos

claro, tem gente que se acha superior por estar num carro caro. e, por isso, pode tudo… e outros que se sentem inferiorizados por não terem um carrão… e então passam a vida inteira endividados para ter um…

lou reed numa típica bicicleta urbana

lou reed numa típica bicicleta urbana

lembro-me sempre de um funcionário de um hotelzinho numa cidade pequena onde eu passava alguns dias por semana a trabalho. o rapaz gastava mais da metade do salário dele pagando a mensalidade de um chevrolet astra. e sonhava em passar num concurso para a polícia civil. pois, segundo ele, ninguém o respeitava mesmo tendo o astra, sem o astra era pior ainda… mas sendo policial ele seria respeitado… claro, seu problema não era respeito alheio. na cidade, todos eram bem educados, com uma urbanidade sem igual nas capitais. não lhe faltava ouvir “bom dia, como vai?”. o que ele tinha era uma auto-estima muito baixa.

asnna paquin, pedalando sua urbaninha de cestinha carregando joan jett na camiseta...

anna paquin, pedalando sua urbaninha de cestinha carregando joan jett na camiseta…

atrás de todo profissional que teme chegar em uma bicicleta ao trabalho está a insegurança do seu posto, do seu cargo, do seu valor. como atrás de todo profissional do direito que usa terno 100% do tempo – para eventos sociais diversos, mesmo fora do fórum – está o profissional inseguro do seu conhecimento.

e claro, o mercado aprendeu muito bem como transforma a auto-estima baixa das pessoas numa forma de vender produtos. mulheres de mal com o espelho às vezes gastam o que não tem para deixar o cabelo igual ao da atriz Y ou X. e quem lucra? a indústria de cosméticos.

a preocupação com a imagem – física, social, de status… – é sempre incentivada, como forma de criar um espaço par aa venda. e claro, o produto é trabalhado de forma a ser desejado e portanto disputado, de modo a ser vendido por um preço maior. isso é feito aos montes na moda, e não seria em relação aos carros? claro, e basta lembrar a tirada de sarro dum colunista da revista americana forbes acerca dos caros carros vendidos no brasil.

o promoter david brazil usando o rolex cravejado de brilhantes de adriano imperador.

mas claro, o coitado que deseja status é sempre seduzido por um produto caro que é consumido pela mais alta classe social que ele consegue enxergar. basta lembrar que muitos brasileiros sonham com um rolex, achando que é o relógio mais caro do mundo. desconhecem patek philippe, audemars piguet ou frank müller. na verdade, nem sabem dizer por que motivo alguns relógios são caros. ignoram a história do cartier santos… mas um relógio dourado qualquer, bem grande, bem grandão! ah, isso lhe atrai os olhos.

brad pitt e anjelina jolie passeando com a família

anjelina jolie passeando com a família

o que faz vender é a insegurança social. deseja-se o que não se tem. usa-se para ser visto/a usando aquela mercadoria-fetiche. não pelo usar. e claro, usa-se mal.

isso não seria problema se fosse apenas um fetiche de um ou outro. mas é problema quando é uma prática disseminada pela sociedade. afinal, o que causa congestionamentos em cidades grandes como são paulo?  se pensarmos que menos de 30% das pessoas que se deslocam diariamente usam carros, mas eles correspondem a mais de 70% dos congestionamentos, não é de se pensar que há algo errado nessas escolhas?

sim, há. e há milhares de pessoas que não admitem usar outro transporte com medo de se misturar.  talvez por que seu status seja tão precário que, se pegarem um metrô ou andarem de bicicleta por aí, se usarem o mesmo transporte que “não é decente” para eles mas é o adequado para os seus subordinados, seu mundo irá ruir.

keanu reeves, usuário habitual do metrô, e não de limousines

keanu reeves, usuário habitual do metrô, e não de limousines

mas, recorrendo a parmênides, quem é, é. se é, nada altera sua essência. nem andar a pé, nem pegar um metrô, nem ir numa bicicleta. madonna é o que é. sempre que pode anda de bicicleta por aí. e está pouco se lixando para a opinião alheia.

madonna, em uma das suas milhares fotos com bicicletas

madonna, em uma das suas milhares fotos com bicicletas

(em tempo, texto inspirado pela amiga A. H., executiva de uma multinacional e ciclista, que vendeu seu carro há tempos. há algum tempo, ouviu de um pretendente com quem iria se encontrar: “você não virá de bicicleta, toda suada e descabelada, né?”. e então ela respondeu: “claro, que não, pois eu não vou!” – e deixou o bocó a ver navios.  mulher segura de si tudo de bom, né?)

 

 

 

15 Respostas para “sem vergonha da bicicleta

  1. mas cuidado que essa prática facilmente se reproduz no uso urbano de bicicleta. Das mais de 20 pessoas que vieram me perguntar por dobráveis, sequer 2 realmente precisavam de uma – precisavam, sim, de uma boa urbana.

    Eu usei dobrável por muito tempo. E claro, tirava onda – mas não tinha pra isso. Tinha porque eu tinha de embarcar em ônibus todos os dias, mas o ônibus sozinho não resolvia. Assim que sua função se perdeu (quando mudei de emprego), vendi.

  2. Conversando com um pessoal do trabalho, lá em Campinas, um deles me solta a pérola:
    Se você é solteiro, carro é um invertimento e um gasto. É um investimento porque você chamará a atenção nos lugares que chegar, conseguindo com isso várias gatinhas. Depois que conseguiu conquistar a sua “caça”, torna-se um gasto.

    Olhei para ele e só pensei: que coisa, né? =D

  3. Rá ! Vivo isso aqui em casa ! Nossa faxineira (que vem uma vez na semana) e o seu marido se “matam de trabalhar” para pagar as prestações de um corolla super novo, para eles ter um “carrão” é simbolo de status e ascensão social. E ela não se conforma de ver o patrão dela (eu) indo ao banco, ao supermercado, à academia, etc.. tudo de bicicleta….

    Volta e meia tenho que ouvir, dentro de casa, coisas assim: Pôxa “seu” Davi… você tem carro e prefere ir de bicicleta é ? rsrsrsrsrsrs

    E olha que eu tento explicar que ser “chique mesmo” é não precisar andar de carro… até posso, mas não quero e não faço questão

  4. Mas agora, sabe o que eu acho que é o cúmulo do cúmulo da expressão da idiotisse humana para querer se mostrar? O sujeito que compra um carrão, rebaixa, coloca rodas aro 20 com pneus perfil baixíssimo, enche o porta malas, portas, o tampão, e as vezes até o banco traseiro de alto falante e sai por aí, com os 4 vidros abertos, e som (geralmente funk carioca) no último volume. Essa pessoa leva tão a cabo a máxima forma x função, que acaba coma funcionalidade do carro (não tem porta-malas, não pode transportar muitas pessoas, não pode passar em buracos, tem que manobrar para passar em quebra-molas, não pode estacionar em qq lugar pois será roubado, gastam mais combustível), acaba com a funcionalidade do equipamento de som (ele lá dentro só está ouvindo reverberação) e ainda “estupra” nossos ouvidos, impondo seus gostos musicais e sua presença por onde passam. Os caras do carro financiado e do Rolex são fichinha perto desses daí. E, pelo menos aqui na ZS, é um comportamento ultra disseminado nas periferias.

  5. Nossa batalha diária pela Bicicleta já dá resultados quando muito poucos me perguntam porque deixo um carro relativamente novo na garagem, uma moto nova na garagem também. Minha maior dúvida é com qual bike vou sair. Aquele que ainda pergunta escuta a resposta: “Eu USO meu carro ou minha moto quando preciso, não sou usado por máquinas”. Com minhas bikes é uma questão de racionalidade, acredito e espalho que é uma atitude inteligente e ponto. Quando algum incauto diz que é perigoso, nego veementemente, respondo que perigoso é um carro! Se tenho medo de um acidente? Não, me ocupo de pilotar com segurança, isso resulta em mais de 50 anos de pedal e nenhum acidente urbano…

  6. ai caramba, nem me fale
    Tem uma vizinha que perguntava pra mim, anos atrás, pq eu usava roupa lisa, simples, sem luxo, e eu dizia: pra ser vista
    Ela obviamente não entendia e repetia a pergunta tempos depois, e eu respondia: pra ser vista
    Em um outro dia ela perguntou e eu afins de explicar disse: quem gosta de mim, vai gostar do que sou e não do que tenho

    Eu carrego todas estas idéias do seu texto Odir, aqui pra casa. As meninas crescem aprendendo que o interessante é a “novidade” e não o “novo”
    Daí a palavra, compra/consumo/moda fica mais distante.

    Outro dia uma amiga toda feliz foi mostrar as gravuras que trouxe da França e enquadrou, encheu a parede da sala, ……eu acho que fui mal educada, pois dei risada e nenhuma explicação…..HAHAHAHAH pra quem conhece a parede da minha sala sabe o que estou falando!

    Mas aqui foram histórias que tenho o maior orgulho de contar para minhas filhas e dividir estes pensamentos

    Posso dizer que a bicicleta salva, salva mesmo.
    A bicicleta é como um filtro, quem gostar de mim de bike, entender como sou e o que faço com a bike, e a maneira de viver,…. essa sim, é uma boa pessoa!
    Pessoas que se aproximam de mim, gostam de mim, são como eu

    será que expliquei?
    As vezes me perco nas palavras, me embanano toda, não por insegurança, por raciocínio embaralhado mesmo…

  7. Uso a bicicleta todos os dias como meio de transportes.
    Muitos me fazem as mesmas perguntas que são feitas para vocês, porque eu não vou de carro?

    Tento explicar e na maioria das vezes as pessoas balançam a cabeça de forma negativa.

    Não me importo, sei do que gosto, e vamos ser francos “COMO GOSTO DE PEDALAR POR AI”……..

  8. Pior que usar o carro em si é o sentimento de superioridade por usar o carro.
    Como muitos acham que não são respeitados por não usar o carro, também acham que não devem respeitar.

  9. sinceramente ADOREI todas as declarações….
    eu me sentia inferior sim mas mas aos poucos fui mudando meu pensamento, fui criando coragem comecei a pedalar hj pedalo sem medo algum. Eu moro no interior Boca da mata-AL, i aqui tem muito esse préconceito com bike, aqui os jovens dizem: minha idade de andar de bicicleta já passou ! pode isso ??? que pena:/ .
    AMO MINHA VIDA DE CICLISTA !!!

  10. Gostei muito da dica ate porque estava.com vergonha de ir de bike pra escola 8)

  11. Republicou isso em Interação.

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