você e sua bicicleta

qual a relação sua com sua bicicleta? ou com suas bicicletas? é uma relação de desprezo olímpico, típica de senhor de escravos? ou é a relação fetichista? ou ainda uma relação de intimidade?

alavancas - trocadores - shimano tz-20. produto simples, equipavam a bicicleta que um colega usou para atravessar os andes. nunca falharam.

alavancas – trocadores – shimano tz-20. produto simples, equipavam a bicicleta que um colega usou para atravessar os andes. nunca falharam.

algumas pessoas possuem uma espécie de relação de desprezo com essas “coisas menores”. se o pneu fura, pagam para alguém consertar. se está feia ou suja a bicicleta, pagam para alguém limpar ou melhorar a estética, ou até simplesmente trocam tudo sem nem se tocarem do que estão fazendo.

é uma atitude que denota um aspecto da herança maldita da escravidão no brasil. a escravidão degrada o escravo mas também degrada o escravizador. o escravo, no brasil, era as mãos e pés do senhor, segundo gilberto freire.

e sim, algumas pessoas agem assim. como se qualquer atividade relacionada a manutenção da própria vida (preparar uma refeição, lavar uma peça de roupa, ou fazer um pequeno conserto, como pregar um botão) fosse algo que se feito, degradaria essa pessoa do seu “status”, da sua condição social.

e claro, essa pessoa se pensa independente, mas é extremamente dependente de serviços feitos por outrem. extremamente dependente! e, assim, não mexe na sua bicicleta. nem muito menos a compreende. apenas a pedala. eventualmente correndo riscos desnecessários.

num outro extremo, temos o fetichista. ele vê a bicicleta e suas partes através de uma relação de fetiche, cujo sentido deve ser lido aqui.

então é a pessoa cujos olhos brilham mais que tudo diante de uma peça cara. ele entusiasma-se pelo caro, não pelo seu uso em si, mas pelo preço, pelo luxo, pela ilusão de que aquilo, que muitas vezes ele não pode comprar, é o que distingue o pedalar mediano do pedalar superior.

nessa hora, um selim gilles berthoud não é melhor por ter couro mais espesso, ou não ser o couro preso por rebites, mas parafusos, ao contrário de um selim brooks. o selim gilles berthoud é melhor por ser mais caro, simples assim, pensa o fetichista. e claro, essa pessoa pode não entender que, dependendo das formas do seu corpo, precisará de algum modelo brooks que não tenha correspondência na produção da gilles berthoud. ou prefere então um selim de fibra de carbono, que custe 3 vezes o preço de um brooks (mesmo que não lhe ofereça conforto algum), mas por que é mais caro, e usado pelo competidor X ou Y.

o fetichista sofre. sofre por não ter algo cujo poder de compra seu não permita comprar. ou por comprar algo errado, ou por depois perceber que não houve grande mudança no seu pedalar no uso do produto mais caro. afinal, no mundo das bikes, a diferença é a perna, não a bicicleta – e perna não se compra, se constrói.

uma terceira postura é a da intimidade e do respeito. essa postura decorre da percepção de que a relação coma bicicleta é absolutamente individual e decorre da adequação e da inadequação.

o ciclista aos poucos percebe que mais importante que o quadro lindo, é o quadro do seu tamanho. mais importante que a peça cara, é a peça adequada ao seu uso. que a relação conforto X desempenho ora pende para um polo, ora para outro.

nesse relacionamento, mais importante que a cor, é o material do quadro. mais importante que o material caro, é o material adequado ao uso.  nessa hora não há material melhor em si, há material adequado ao que se vai fazer.

não raro essa relação de intimidade parece como uma “nerdice” de bicicletas. parece com a relação fetichista. mas não é.

o fetichista procura aquilo que todos querem. usando uma frase dum ensaio de j. brodsky (“conseguir uma coisa que exerce atração sobre os outros denota certa vulgaridade em sua escolha. não tem a menor importância o fato de você ter chegado lá primeiro“), suas escolhas são absolutamente vulgares.

mas a relação de intimidade não é assim. relações íntimas, seja entre pessoas, seja entre pessoas e coisas, ou pessoas e animais, é sempre uma relação em construção. pessoas, coisas, animais, são o que são. cabe ao outro descobrir e manter a relação.

cicloturistas em geral são levados a essa relação. o fato de ficarem em cima de uma bicicleta às vezes durante meses, tendo que fazer sua manutenção nas condições e lugares mais inóspitos, faz com que aprendam a olhar aquele(s) objeto(s) de uma forma mais relacionada à confiança (ou não) do que com o efeito que esse objeto causará em outrem.

dessa forma, importa mais o selim que permita pedalar por 100 kms todo dia, durante meses, sem maiores danos, que o selim leve, caro, ou bonito. pode ser um brooks, pode não ser: cada um tem sua bunda!

e claro, só esse ciclista sabe dizer se prefere freios cantilever, a disco, ferradura ou v-brakes. só esse ciclista sabe dizer se prefere quadros em cromo-molibdênio, titânio, alumínio ou fibra de carbono. só esse ciclista pode explicar por que mistura peças de fabricantes diferentes ou de grupos de hierarquias diferentes.

a relação de intimidade e confiança permite usar o produto pelo que ele é.  não por seu “valor agregado pela marca”, que é o nome cínico pelo qual se descreve a diferença entre o valor de uso da coisa e o valor inflado que se paga por ela, em razão da relação de fetiche induzida pelas modernas técnicas de marketing.

claro, é legal ter um equipamento top? sim, é.  mas o que é equipamento top para você? o mais caro que puder pagar?

para mim é o que dá pouca manutenção, dura bastante, e resista ao meu uso. não tenho medo de comprar quadros usados, por exemplo. sim, tenho bikes de titânio, e não apenas uma. mas meus quadros são antigos, bem antigos, um deles é de 1994 – tem 19 anos de uso – e comprei há pouco tempo.

sei que algumas bicicletas minhas são cobiçadas por meus amigos, mas por que sabem que as deixo sempre muito gostosas de usar. não tenho o fetiche pelo material ultra-leve. meu gosto pelo titânio não é pelo peso, mas por ter características de comportamento muito semelhantes ao do cromo-molibdênio – outro material que adoro em quadros – mas sem a necessidade de pintar, de proteger contra corrosão e etc. mas não teria esses quadros se não tivessem vindo para mim por preços tão baratos quanto vieram. não me endividaria todo apenas para ter uma bicicleta qeu pese 6.8 kg igual à que o mark cavendish usou no ultimo tour de france, por exemplo.  não faço isso com compra alguma.

é, o mercado de bicicletas anda agitado. os consumidores são de diversos tipos: pessoas endinheiradas correndo risco comprando bicicletas de supermercado, calois que podem rachar no meio e causar um tombo razoável… pessoas endividando-se horrores, ou gastando o que não têm, comprando bicicletas de 4 ou 5 mil reais para fazer uma viagem, que poderia ser feita com uma trek antelope da década de 90 comprada por 500 ou 600 reais….

e sim, para quem sabe usar, um câmbio shimano tourney, que faz muito ciclista virar a cara, pode rodar por 12 mil kms em viagens antes de virar problema. duvidam? leiam esse texto aqui. e comecem seriamente a pensar se o equipamento mais adequado ao seu uso não é a peça mais cara, nem a peça mais vagabunda, mas antes de tudo a peça mais confiável.

 

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9 Respostas para “você e sua bicicleta

  1. Nossa Odir montei minha magrela exatamente com esse conceito, conforto e durabilidade, e não me arrependo nem um cent.

  2. Belo texto, parabens pelo web site bem feito !

  3. Temos alguns casos mais práticos. Fora a de estrada, que é campagnolo e ponto, as peças não são procuradas, elas são compradas mais na experiência do que no estudo, e as que ficam, por 10, 20 ou mais anos são as que estão em uso, não quer dizer que eu vá compra-las de novo, pois se quebrarem, darão lugar a mais experiências, novos conceitos e novos paradigmas. E assim pedala a humanidade. d:)

  4. parabéns pelo post. Muito bom.

    Eu geralmente me considero um ciclista medíocre pois só sei fazer a manutenção básica da minha bicicleta. Ajustes mais finos eu acabo não fazendo por pura falta de conhecimento. Sei que é um erro e quero sanar esta deficiência.

    Tenho algumas bicicletas até muito boas, mas a que eu mais gosto é a mais simples, basicamente pois confio mais nas peças empregadas. Tá certo que o quadro dela é uma caloi 100 de 2007, mas nela eu confio.

    Não me atrevo a usar as outras para fazer viagens longas e duras, simplesmente por falta de confiança.
    É bonito, é diferente, mas para mim não inspira confiança.

  5. Meu passador de marcha na Fuji é exatamente esse: adoro alavancar desindexadas ou semi-indexadas, nunca falham; e odeio, com todas as forças, os passadores em gatilho, vindos das “mountains”.

  6. Uma coisa que tem me deixado entristecido no mundo da bicicleta é a obsolescência programada. Quando suas peças vão gastando, vc acaba sendo obrigado a migrar para linhas mais “modernas”, mas que tem “recursos” que vc ou não precisa ou não quer. Você tem um excelente câmbio de 7V, mas encontre um cassete ou pé-de-vela de 7V feito com materiais leves e duráveis. Procure uma suspensão boa e leve com boss para V-Brake. Se seu passador Ultegra de 9V quebrar, chore… Vc terá que ir para 10V ou usar um Sora (não pelo nome, se o Sora de 9V fosse o antigo Ultegra com outro nome, estaria ótimo, mas a construção é inferior)… E me dá frio na espinha quando querem colocar disco nas speeds. Tudo bem, quem gosta que use, mas a indústria infelizmente fará de tudo para que todos tenham que usar, mesmo quem não quiser… Ou então vc terá que usar um ferradura “Tipo Logan” de péssima qualidade…

  7. O que eu mais quero da minha bike e de suas peças é que sejam confiáveis e duráveis.

    Apesar de ter o “fetiche” de montar uma bike com um grupo completo, nunca o fiz, inicialmente por condições financeiras, e atualmente por usar o senso crítico na hora que penso em uma troca, pois afinal, sempre é valido perguntar a si mesmo: “é realmente necessária a troca de uma determinada peça?” ou será que estamos fazendo apenas para inflar o ego quando nossos colegas olham pra nossa bici?

  8. de LX à SIS acho q já usei quase todos os niveis de peças de mtb da shimano, e posso falar q tem horas q um rapidfire preciso faz muita diferença…numa viagem sem pressa concordo q um passador de fricção pode ser uma boa, mas nada impede q você inicie a viagem com um RF de 9 ou 10V e caso esse quebre, seja trocado por um qualquer, mesmo q só passe 6 ou 7 das suas marchas…mas comprar peças XT ou XTR sem ser competidor acho jogar R$$$ no lixo, talvês porq nunca as tenha usado, mas não acredito q elas sejam tão boas à ponto de um pedevela custar mais q minha bike inteira…
    abraços, tô gostando muito do seu site, otimos textos!!!

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