uma vela por gisela

deitado, do chão, o que podem os olhos do corpo ver?

um sorriso em preto e branco

um sorriso em preto e branco

quem já deitou-se numa avenida, pra ver o que vêem os que lá estarão imobilizados? helga escreveu que não há solidão maior que estar deitado no chão, no asfalto, e eu concordo. não há solidão maior.

fui atropelado duas vezes. sobrevivi às duas. sorte, acho que é isso que tenho. sorte, ou falta de crédito para subir, ou superlotação que me impede de descer aos quintos. não sei, ainda não sei por qual motivo sobrevivi às duas vezes em que, subitamente, me vi com o rosto colado no asfalto.

não dá tempo de pensar. não na hora. mas depois, logo depois, toda a solidão do universo concentrada em você.

o que os olhos – azuis esverdeados, ou verde-azulados, não sei – viram como última cena? o asfalto próximo? o ônibus que a derrubou?

que imagem uma produtora de TV teve em suas retinas, no último instante em que enxergou algo?

o ciclista está sempre sendo lembrado que, para morrer, basta estar vivo, e, para morrer, basta que alguém esqueça da sua presença ali.

“Em depoimento na 14ª DP (Leblon), Benedito Rocha Silva, motorista do ônibus da linha Praça Quinze-Cidade de Deus (da Transportes Futuro Ltda), contou que estava na General San Martin, parado no sinal de trânsito. Segundo ele, assim que o sinal abriu, virou à direita para entrar na Bartolomeu Mitre, quando ouviu um barulho vindo da parte de trás, à direita. O motorista contou então que viu Gisela caída ao lado do veículo.” 

é, gisela simplesmente apareceu ali. não vinha trafegando pela direita. não foi vista pelo retrovisor direito. não, apareceu como num passe de mágica para ser esmagada pelo ônibus… como um leprechaun, o ciclista sempre aparece do nada!

sempre a mesma história. sempre as moças bonitas, tão frágeis perante a carcaça metálica. sempre invisíveis em razão do véu do descuido, do descaso.

é…

que os seus superem ao seu tempo esse luto. que sei, por experiência própria, ser longo, muito longo. muito mais longo que o átimo de tempo em que o motorista não prestou atenção ao que estava ali ao lado, e simplesmente a esmagou.

um olhar sério, em cores

um olhar sério, em cores

deitado, do chão, a dor imensa, o que podem os olhos ver? deitado, do chão, os ossos multiplamente quebrados, o que os olhos podem ver? o que os olhos vêem quando subitamente se apaga sua luz?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s