passagem, travessia, ponte, viaduto.

פסח – essa palavra quer dizer passagem. pronuncia-se como “pessach”, com “ch” aspirado. foi traduzida como páscoa. na bíblia há todo um livro tratando da passagem dos judeus, do egito em direção à terra prometida. chama-se “nomes” (“שמות” – “shmot”), ou “êxodo”.

ciclista em ponte de oakland. clique na imagem.

o povo judeu passou através do mar vermelho. mas perguntemos: se cada um dos judeus quisesse passar pelo mar, individualmente, o mar se dividiria? bem provavelmente não. milagre para a salvação do homem comum? o judeu solitário em fuga ou nadaria, ou seria afogado…. dividiríamos assim os judeus entre os que sabem nadar e os que não sabem. a fuga, a liberdade da escravidão aos que sabem. aos que não sabem…. pois é.

em são paulo não há mares permanentes – só os ocasionais nos dias de muita chuva – mas há rios. a cidade tem seu centro expandido cercado por rios e linhas de trem – o que dá na mesma, para efeitos de circulação. sobre rios e linhas de trem se passam por ponte se viadutos. mas quem passa usando a bicicleta, individualmente? em grupo, grupos grandes, passeios noturnos, bicicletadas e etc, o milagre da divisão do mar vermelho quase ocorre. o grupo grande é visível desde muito longe. os carros param para o grupo passar. ciclistas fazem o “corking”, a retenção, o parar o carro para que os outros ciclistas passem.

mas e quando o ciclista está só? quem passa? passam só os mais experientes, comumente em melhor forma física. a travessia de pontes sobre os rios de são paulo e dos viadutos que passam por cima de linhas de trem ou sobre outras vias muito largas e expressas quase sempre exige um bom preparo de explosão.

muitas vezes é coisa de sprinter mesmo. em boa parte das pontes, há uma subidinha anterior à sua chegada, e uma descida após ela. antes no meio ou após essa subidinha, costuma haver um ou dois acessos laterais, do lado direito. um acesso pra quem sai da via antes da ponte e vai pegar a marginal, por exemplo, em direção à direita. e logo em seguida, uma alça em curva e ascendente traz carros que estão vindo da marginal, fazem uma curva à direita e então acessam a ponte.

cruzar esses pontos onde, num primeiro momento, vêm carros da esquerda para direita cortando a trajetória do ciclista, e num segundo momento da direita para a esquerda, também cortando a trajetória do ciclista. esse trecho, se feito no trânsito, exige não apenas estar muito visível mas também pedalar rápido.

como frisou o wagner hirata, é preciso estar a pelo menos 27 kms por hora. não importa a bicicleta, a 27 kms por hora, e num trecho ascendente – não no plano.

sim, pra quem pedala speeds na cidade, isso é até fácil. mas quem pedala speeds pra ir e voltar ao trabalho, com alforjes, e etc? quem é o iniciante que vai logo começar usando uma speed e já com essa forma física?

a outra possibilidade é atravessar como pedestre. ou seja, parando na borda do acesso e esperar um espacinho entre os carros para atravessar correndo.  e também correndo riscos. note como fazem os ciclistas e pedestres no vídeo abaixo, filmado pelo pedro, há algum tempo.

note que passaram 5 ciclistas, 4 homens e 1 mulher. 16 pedestres homens e 5 mulheres. o número menor de mulheres deve-se à sua menor tolerância ao caos.

é fato, mulheres correm menos riscos que homens. e como atravessar pontes é um risco… mas, por outro lado, isso também gera imobilidade. inacessibilidade. uma colega de trabalho pega um ônibus onde sobe num ponto e desce no próximo. ora por que não andar esse trecho? mas, entre um ponto e outro, está a ponte das bandeiras…

outra ciclista, andrea sacco, confessou que atravessar as pontes era um obstáculo e tanto, demorou muito tempo para criar coragem e atravessar a ponte do limão, e o fez pela primeira vez acompanhada de um bike-anjo.

o que de fato acontece é que a estrutura viária da cidade cria barreiras para a circulação das pessoas, barreiras, muitas vezes, de classe social. e essas barreiras são desejadas por muitos.  basta lembrar que parte dos moradores de higienópolis querem realmente um bairro socialmente higienizado, sem que a “gente diferenciada” tenha acesso a ele pelo transporte público.

e sim, o centro expandido não quer o afluxo de pessoas do espaço “off shore”, além-rios, além trilhos, além dos horários em que os moradores de além-rios trabalham. e que venham da forma correta, sem escolher seu transporte, ou seja, só naquele horário em que o transporte público funcione…

claro, claro, claro. quem não tem que atravessar as pontes viadutos diariamente sempre comenta que as reclamações de quem o faz são mero mimimimimi, e sempre têm soluções mágicas: “vá pela outra ponte, por que não atravessa pela ponte tal?

mas como já citou tiago barufi, não há alternativa às pontes. quem observa a ponte joão dias, todo santo dia, vai ver por quantos dias tantos joões por ela passam, em suas bicicletas, espremidos, sem outra alternativa  a não ser passar pelo risco diário que sempre passam.

e, assim, não passarão pela ponte nas horas de folga. evitarão esse risco e claro, deixarão de circular pelas áreas onde só adentram para trabalhar, nunca para seu lazer. esse direito lhes é negado.

talvez a importância do tema só venha a lume quando, como na última praga bíblica que foi enviada aos egípcios, morreram os primogênitos. será necessário que morra alguém numa ponte para que então se preste a devida atenção a esse problema, a esse risco? risco que não pode esperar por 4 anos de gestão do prefeito para a construção de 400 kms de vias cicláveis que, a se levar em conta o histórico da prefeitura, não atravessarão as pontes nem os viadutos…

o grande ídolo da gestão pública das cidades brasileiras, dos governos brasileiros de todos os partidos sem exceção, e também do setor privado e dos consumidores cujo cérebro já virou pasta de chuchu, é o entusiasmo pelo carro.

e o deus carro alimenta-se de vidas humanas. 4.000 mortos ao ano em são paulo por problemas de saúde causados ou agravados pela poluição dos carros. os dados são do prof. paulo saldiva.

o ciclista e o pedestre (e o cadeirante!) são aqueles que não são responsáveis por essas mortes. mas mesmo assim estão sujeitos a entrar na outra lista, dos quase 2.000 mortos ao ano nos ditos “acidentes” de trânsito, principalmente ao exercer o direito de ir e vir, exercer o direito à cidade.

nenhuma intervenção do setor público terá brilho enquanto os problemas das pontes e viadutos não estiverem resolvidos. nenhuma realização merece aplausos se não resolver esses problemas. pois, senão, serão apenas intervenções cosméticas. e 400kms de vias cicláveis? como bem nos lembra o manifesto dos invisíveis, cuja leitura precisa ser sempre refeita, existem 17 mil kms de vias em são paulo.  e como faremos fora dos 400 kms cicláveis? empurramos as bicicletas?

o ciclista paulistano ainda espera por sua “pessach”, sua passagem para a liberdade. até lá, dada a indiferença de motoristas e do poder público, dos de lado de cá, conta apenas com a proteção do lado de lá, do além.  quem atravessa as pontes da marginal todo dia, várias vezes ao dia descobre o significado da palavra fé. pois tem horas que só rezando… e, às vezes, nem assim.

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2 Respostas para “passagem, travessia, ponte, viaduto.

  1. Me lembro de uma palestra do Eduardo Vasconcelos que dizia que as marginais eram paredes invisíveis que separavam a cidade, quase um apartheid social.

    Além das pontes temos as rotatórias, que também são péssimas! Todo esse urbanismo segregador, que faz os pedestres caminharem muito mais para atravessar a rua, em passarelas toscas e perigosas.

  2. Perfeito o texto. Infelizes aqueles que estão fora da mesopotamia

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