sim, mulheres pedalando deixam a cidade mais bonita!

antes que minhas amigas feministas me xinguem, já aviso que esse não é um post sobre mulheres belas. poderia ser: mulheres que pedalam são sempre mais belas (pois são mais saudáveis). mas não se trata de repetir o óbvio.

mulheres pedalando em copenhagen. veremos cenas assim em são paulo?

mulheres são mais espertas que homens. é fato. tanto que se expõem menos ao risco que homens. quem sempre morre em acidentes de moto são homens. quem sempre se mata em alta velocidade? homens. sim, a tolerância ao risco é maior entre os homens. tomo por medida eu mesmo. passo todo santo dia, de bicicleta, por um dos locais mais inóspitos de são paulo para um ciclista (e para muitos motoristas): a praça campo de bagatelle.

lugar que de fato é perigoso. já fui atropelado lá. quantas vezes vi mulheres trafegando ali? em anos passando por lá, apenas duas vezes. elas, mais espertas, fazem outros trajetos. não se expõem ao risco ao qual me exponho.

portanto, o que quero dizer é que, para bom observador, ver mulheres trafegando de bicicleta num local indica que esse mesmo local é seguro. seguro não no sentido da violência dos assaltos, mas sobretudo seguro em relação à violência do trânsito. ou seja, é um local onde o humano se sobrepõe à máquina.

é fato: a presença feminina humaniza o local. a presença feminina civiliza o local.  e um local civilizado é sempre mais belo que a barbárie. esse dado é importante.

a própria presença feminina influencia como se darão as relações entre os ocupantes daquele local. a conhecida habilidade feminina para o contato inter-humano, aquela coisa do diálogo olhando-se nos olhos, impõe um padrão de coordenação, e não de subordinação, na ocupação transitória daquele espaço, que é a rua.

mulheres na rua. esse é o fator a ser observado. nos locais em guerra, raramente vemos mulheres na rua. a rua é interdita às mulheres nos locais onde não se respeitam direitos humanos, onde as cidades não passam de amontoados de moradias, desprovidas dos mais básicos serviços públicos, onde vigora a lei do mais forte, e não a ética da boa convivência.

ora, o local onde há boa convivência, é sempre mais agradável. sempre mais leve   ao se trafegar, ao se habitar.  portanto, transmite maior sensação de segurança, e permite que outros aspectos da vida, além da ansiosa busca pela sobrevivência, aflorem e seja usufruídos pelos humanos.

é aí que mora a verdadeira beleza da presença feminina. não é a beleza dos corpos, a beleza dos rostos, das roupas. mas a beleza da presença. e é justamente essa presença, que enfrenta toda sorte de obstáculos, que vão da violência real à violência simbólica, mas que se impõe, que se precisa enaltecer nesse 8 de março.

claro, o ideal seria não precisar enaltecer a presença feminina sobre duas rodas nas cidades. o ideal seria ver nisso apenas e tão somente atos cotidianos sem significado maior. mas numa metrópole como são paulo, gigantesca e local de tantas violências contra a mulher, essa presença feminina pedalante permite ousar sonhar com uma lógica de trânsito que não seja escorada na supremacia do mais forte sobre o mais fraco, mas na convivência mais igualitária.

sim, o ideal seria não precisar ter um 8 de março, nem falar de mulheres pedalando nesse dia. mas ainda é necessário haver essa data. infelizmente.

(texto escrito enquanto eu ouvia música feita por mulheres: fanny, patti smith e the iron maidens, pois sim, mulheres há que fazem rock de excelente qualidade!).

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11 Respostas para “sim, mulheres pedalando deixam a cidade mais bonita!

  1. Sabia Odir, sempre pensei assim, a testosterona tem certas utilizadades, como acelerar o metabolismo e favorecer o desenvolvimento muscular, mas mentalmente acaba trazendo mais problemas que soluções. Rsrs.

  2. Maravilhoso texto! Preciso… Nos dois significados de F Pessoa. É preciso… E preciso!

  3. O triste é que mesmo assim, as duas ghost bikes que tem na paulista são de mulheres… Parece que às vezes não temos como fugir da barbárie. Tem dias que eu honestamente me questiono se é possível ter civilidade com tanta agressão que as ciclistas sofrem diariamente. Desde finas, passando por xingamentos e, terminando com a chave de ouro da falta de civilidade, o assédio. São textos como este que me fazem lembrar porque é mais gostoso andar de vestido de bike. Obrigada Odir

    • eu continuo acreditando, embora saiba que a civilidade com os ciclistas virá de uma civilidade geral… a conta que estamospagando pela coisficação do outro no passado, a escravidão, ainda é muito alta…

  4. mas a principal função de uma mulher é embelezar um ambiente com sua presença de modo a contaminar seu entorno de beleza. Algo como uma tapeçaria de Jean-Marie Baptiste Fragonard que anda e fala.

    E se alguém achou isso machista, não entendeu bulhufas! (até porque mulheres não são minha preferência sexual, embora eu não as exclua).

    • Lucas, o que você escreveu é machista por dizer qual é a “principal função de uma mulher”. Mulher não tem “função”, mulher está/é apenas para ela, não pelo outro ou para o ambiente.

      Talvez não tenha entendido exatamente o que vc quis dizer. Você poderia me esclarecer? (não estou dizendo que você é machista, apenas que o que você escreveu foi. E machismo não é exclusividade de homem hetero.)

  5. de mais a mais, sempre bom lembrar Gilberto Freyre: foi o corpo da negra (como ama de leite, ama-seca e prostituta) e da índia (com um zelo doméstico só comparável ao dos conventos clarissianos e franciscanos) que civilizou a Casa Grande (e a senzala) no pouco que ela tem de civilizado: na cama, na mesa e no banho (diário).

  6. Mulheres há que fazem música brasileira de excelente qualidade: de Chiquinha Gonzaga a “barraqueira” “eu, profissional liberal” “neurótica & erótica” Manuela Rodriques, baianíssima!; de Dolores Duran a Tulipa e Céu, passando por Tetê Spinola.

    http://ultimobaile.com/?p=3198

    isso para não falarmos da latino-américa (Violeta Parra, Célia Cruz) ou mesmo do resto do mundo (Piaf, Billy Holliday).

  7. Feliz e satisfeito é como me sinto ao ver mulheres na rua de bicicleta…
    Decepcionado quando vejo homens e, mais ainda, mulheres demonstrando força com seus veículos ao invés de proteger nos.
    Realizado me sinto ao ajudar que elas invadam as ruas…

    Elas são sim Odinn mais lindas, mais saudáveis, mais conscientes, mais inteligentes, etc. Ao conhecer essas mulheres que querem mudar do “mundo normal” e passar a usar a bicicleta isso que penso, é preconceito que eu tenho que sempre vira um “pós conceito”.

  8. Pingback: A bicicleta como ferramenta de emancipação da mulher

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